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“Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, diz Lula

“Estamos sendo pressionados a nos rearmar”, afirma o presidente, citando a mais grave tensão global desde a Segunda Guerra

Lula (Foto: Ricado Stuckert / PR)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump não tem legitimidade para ameaçar outros países e alertou para um cenário internacional marcado por pressões para rearmamento, que, segundo ele, remete ao período mais crítico desde a Segunda Guerra Mundial. A declaração foi feita em entrevista ao jornal espanhol El País, na qual o presidente também abordou conflitos globais, democracia e política interna brasileira.

Lula concedeu a entrevista no Palácio do Planalto, em Brasília, em meio a um contexto de tensões geopolíticas e às vésperas de compromissos internacionais na Europa, incluindo uma cúpula entre Brasil e Espanha.

Durante a conversa, Lula criticou diretamente a postura de Trump no cenário internacional. “Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país. Não foi eleito para isso e sua Constituição não permite”, afirmou. O presidente brasileiro defendeu que líderes globais atuem com responsabilidade e priorizem o diálogo. “Prefiro ser um líder respeitado, não temido. Ninguém tem o direito de causar medo”, acrescentou.

Pressão por rearmamento e risco global

Lula também manifestou preocupação com o aumento dos investimentos militares em diversas regiões do mundo. “Estamos sendo pressionados a nos rearmar”, disse, ao mencionar iniciativas recentes de países europeus, além de movimentos semelhantes no Reino Unido e no Japão.

Para o presidente, essa dinâmica contribui para ampliar riscos globais. “Nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, houve tantos conflitos simultâneos”, afirmou. Ele destacou ainda o volume de recursos destinados à guerra: “Só no ano passado foram gastos 2,7 trilhões de dólares. Com metade disso, poderíamos resolver problemas como fome, analfabetismo e energia”.

Críticas às potências e às instituições internacionais

Ao analisar o cenário internacional, Lula afirmou que grandes potências têm falhado em seu papel de garantir estabilidade. “Os senhores da paz se transformaram em senhores da guerra”, declarou, ao citar intervenções militares recentes sem respaldo do Conselho de Segurança da ONU.

O presidente também defendeu uma reforma profunda nas instituições multilaterais. Segundo ele, o atual modelo não reflete a realidade global. “A geopolítica de 1945 não serve para 2026”, disse, ao defender maior representatividade de países como Brasil, Índia e nações africanas, além do fim do direito de veto no Conselho de Segurança.

Defesa do diálogo e do multilateralismo

Lula afirmou que tem buscado interlocução com líderes internacionais para tentar reduzir tensões. Ele mencionou contatos com nomes como Xi Jinping, Narendra Modi, Vladimir Putin e Emmanuel Macron. “Alguém precisa tomar a iniciativa e chamar para conversar”, afirmou.

O presidente também alertou para os riscos de uma escalada global. “Uma terceira guerra mundial seria uma tragédia dez vezes maior que a segunda”, disse. Para ele, a saída passa pelo fortalecimento do multilateralismo e da democracia.

América Latina e Venezuela

Sobre a América Latina, Lula afirmou não acreditar em novas intervenções externas na região, mas criticou qualquer tentativa de ingerência. “O que não pode acontecer é que os Estados Unidos acreditem que podem administrar a Venezuela. Isso não é normal”, declarou.

Ao comentar a situação venezuelana, defendeu uma saída negociada. Segundo ele, “deveria haver um processo eleitoral pactuado com a oposição para que o resultado fosse aceito e a Venezuela voltasse a ter paz”.

Eleições no Brasil e cenário político

No plano interno, Lula demonstrou confiança nas eleições presidenciais de 2026. “O bolsonarismo não voltará a governar este país porque o povo prefere a democracia”, afirmou. Ele também destacou o impacto da desinformação e das redes digitais no fortalecimento da extrema direita.

O presidente indicou ainda que pretende disputar um novo mandato. “Estou me preparando para concorrer ao quarto mandato com a convicção de que é plenamente possível”, disse.

Desafios da democracia

Lula avaliou que as democracias enfrentam o desafio de entregar resultados concretos à população. “A democracia precisa provar que pode fazer as pessoas viverem melhor, com mais renda, educação e acesso à cultura”, afirmou.

Ao final da entrevista, reforçou sua disposição para continuar na vida pública. “Todos os dias acordo com disposição para fazer mais do que fiz ontem. Essa é a condição para seguir”, declarou.

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