Abra vê risco concorrencial em aporte da American Airlines na Azul
Holding da Gol diz que operação pode dar controle indireto à American na Azul
247 - A holding Abra, controladora da Gol e da Avianca, apresentou críticas ao investimento de cerca de US$ 100 milhões da American Airlines na Azul, argumentando que a operação pode conferir poder de controle indireto à companhia norte-americana. O posicionamento foi encaminhado ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), onde a empresa solicitou participação como terceira interessada no processo que avalia o negócio.
As informações foram reveladas pelo jornal Valor Econômico, que teve acesso ao documento protocolado pela Abra. Segundo a holding, o investimento não se limita a uma participação minoritária, como formalmente apresentado, mas deve ser analisado no contexto de uma possível coordenação de controle entre American Airlines e United Airlines sobre a Azul.
Críticas ao modelo de governança
No documento, a Abra sustenta que a criação de um comitê estratégico na Azul, com participação de representantes da American e da United, altera o equilíbrio de poder dentro da companhia. A holding afirma que esse colegiado concentra decisões relevantes, incluindo a nomeação de gestores.
“A verdade é que a operação deve ser analisada no contexto de uma aquisição coordenada de controle de um concorrente em rotas aéreas entre Brasil e Estados Unidos”, diz o texto apresentado ao Cade.
A empresa destaca ainda que, mesmo com uma participação estimada em até 19% do capital da Azul, as duas companhias americanas poderiam exercer influência significativa devido à estrutura acionária pulverizada da aérea brasileira.
Impacto no mercado Brasil-EUA
Outro ponto levantado pela Abra é o impacto concorrencial da operação no mercado de voos entre Brasil e Estados Unidos. Segundo a holding, American, United e Azul poderiam concentrar mais de 50% desse segmento.
“Verifica-se, portanto, que todas as nomeações de gestores da Azul partem (e terminam) no comitê estratégico”, aponta o documento, ressaltando que a presença das empresas estrangeiras nesse grupo lhes daria poderes semelhantes aos de um controlador.
A Abra também argumenta que as companhias envolvidas teriam acesso a informações estratégicas sensíveis, como custos, preços e oferta de voos, o que poderia afetar a dinâmica competitiva.
Questionamentos sobre conectividade
A holding ainda questiona o argumento da Azul de que o investimento ampliaria a conectividade para os consumidores brasileiros. Segundo o documento, American e United não operam nos principais hubs da Azul no país, o que colocaria em dúvida os benefícios alegados.
Além disso, a empresa afirma que o acordo pode dificultar parcerias comerciais com outras companhias aéreas, como contratos de codeshare e interline, reduzindo a competitividade do setor.
Apoio de entidade de defesa do consumidor
As críticas da Abra encontram eco no Instituto de Pesquisas e Estudos da Sociedade e Consumo (IPSConsumo), que também pediu para participar do processo no Cade.
A presidente da entidade, Juliana Pereira, afirmou que a operação apresenta riscos relevantes. “É imprescindível uma atuação detalhada e com claros remédios para manter a concorrência e proteger os consumidores”, declarou.
Ela também contestou o argumento de que uma análise mais longa poderia prejudicar a saúde financeira da Azul. “Esse pleito não se sustenta”, disse, ao mencionar que a companhia já concluiu sua reestruturação no Chapter 11 com redução de dívidas e captação de recursos.



