China mira dólar com novo sistema de pagamentos digitais
Sistema com blockchain pode reduzir custos e fortalecer o renminbi digital no comércio internacional
247 - A China avança nos preparativos para lançar comercialmente um novo sistema de pagamentos digitais, o mBridge, iniciativa que pode acelerar transações internacionais, reduzir custos e ampliar o uso do renminbi digital em meio à disputa pela influência do dólar no comércio global, relata o Financial Times.
A plataforma, liderada por Pequim, tem apoio dos bancos centrais da China continental, de Hong Kong, da Tailândia, dos Emirados Árabes Unidos e da Arábia Saudita. Uma entidade com sede em Hong Kong deverá ser criada para supervisionar as operações.
Ainda não há uma data oficialmente divulgada para o lançamento comercial do mBridge, mas os preparativos estão em estágio avançado e as taxas cobradas pela plataforma devem ser equivalentes à metade dos custos praticados por sistemas internacionais tradicionais de pagamento.
A expectativa é que pequenas empresas estejam entre as principais usuárias do sistema. Esse público costuma enfrentar dificuldades com plataformas convencionais, como o Swift, consideradas caras e complexas para operações internacionais.
Renminbi digital ganha espaço na estratégia de Pequim
O avanço do mBridge ocorre em um momento em que a China busca ampliar a presença global de sua moeda. Esse movimento ganhou impulso após a guerra no Irã, período em que cresceu a adoção do Cips, sistema chinês de compensação e pagamentos transfronteiriços em renminbi, frequentemente comparado ao Swift.
O mBridge, no entanto, é uma iniciativa separada e complementar. Seu objetivo é fortalecer o uso do renminbi digital, também conhecido como e-CNY, em transações internacionais realizadas de forma mais direta, rápida e com menor custo.
A plataforma surge também em um cenário de multiplicação de alternativas regionais e privadas aos sistemas financeiros tradicionais. Iniciativas como o Sepa, do Banco Central Europeu, e redes de QR code transfronteiriço desenvolvidas pelo setor privado, como a do Ant Group, buscam tornar pagamentos menores, instantâneos e transnacionais mais acessíveis, especialmente para turistas e empresas.
Disputa por redes financeiras alternativas
O crescimento dessas iniciativas evidencia uma reorganização do sistema global de pagamentos, historicamente dominado pelo Swift. Para especialistas, o processo indica uma disputa silenciosa por novas infraestruturas financeiras.
“Há uma corrida armamentista silenciosa de sistemas financeiros alternativos acontecendo nos bastidores”, disse Tom Keatinge, diretor fundador do Centro de Finanças e Segurança do RUSI, sediado no Reino Unido, ao comentar o avanço de modelos alternativos e a adoção de stablecoins pelos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump.
Stablecoins são criptoativos vinculados a moedas fiduciárias, como o dólar. Segundo Keatinge, a China busca assegurar um papel relevante para sua moeda digital nas finanças globais por meio de sistemas como o mBridge.
“Pode-se dizer que é uma Nova Rota da Seda da moeda digital e, portanto, não é surpresa que os chineses continuem avançando com isso”, afirmou Keatinge sobre o projeto.
Gene Ma, chefe de pesquisa sobre China no Instituto de Finanças Internacionais, avalia que o cenário global de pagamentos deixou de ser concentrado em uma única rede e passou a se dividir entre plataformas concorrentes. Segundo ele, o mBridge está prestes a se tornar uma dessas redes.
Origem do mBridge e pressão geopolítica
O projeto teve origem em uma iniciativa anterior entre a Autoridade Monetária de Hong Kong e o Banco da Tailândia, chamada Inthanon-LionRock. Em 2021, passou a adotar o nome e o formato atuais, com participação do Banco de Compensações Internacionais e dos bancos centrais de Dubai, da China e dos Emirados Árabes Unidos.
Desde então, o mBridge vem sendo acompanhado de perto por autoridades e analistas. Uma das preocupações recorrentes é se o sistema poderia permitir que países ou entidades reduzissem a dependência do dólar e contornassem sanções internacionais.
Em 2024, o Banco de Compensações Internacionais transferiu o projeto para seus parceiros. A decisão ocorreu sob pressão de Washington. O então diretor-geral do BIS, Agustín Carstens, negou que tenha havido pressão desse tipo.
O BIS e autoridades do Banco Popular da China afirmam que o mBridge segue as regras de combate à lavagem de dinheiro do Grupo de Ação Financeira Internacional, órgão global responsável por enfrentar redes de financiamento ilícito.
Blockchain e transações em segundos
A tecnologia usada pelo mBridge permite transações diretas entre bancos centrais com o uso de moedas digitais próprias. O sistema opera por meio de blockchain e reduz a necessidade de utilização do dólar como moeda intermediária em operações de câmbio.
Bancos comerciais também poderão participar das transações, sempre sob supervisão de seus respectivos bancos centrais. A promessa é que operações internacionais sejam concluídas em segundos, em vez de dependerem dos prazos mais longos dos sistemas convencionais.
Até agora, o mBridge já processou cerca de 470 bilhões de yuans, o equivalente a US$ 69 bilhões, em transações, de acordo com as fontes citadas.
Impacto para exportadores e para a moeda chinesa
Analistas avaliam que a plataforma pode reforçar a posição da China no comércio internacional e aprofundar laços financeiros com parceiros regionais, sobretudo aqueles ligados à chamada Nova Rota da Seda.
“Para exportadores, acelera o giro de caixa e reduz o risco de tensões de liquidez”, disse Wang Jian, analista-chefe do setor financeiro da Guosen Securities.
“De forma mais ampla, pode fortalecer a voz da China na ordem monetária global e apoiar a internacionalização do renminbi”, afirmou Wang.
O Banco Popular da China não quis comentar o assunto.



