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Chinesa StepFun capta US$ 717 milhões e supera IPOs de rivais de IA na bolsa de Hong Kong

Rodada bilionária reforça corrida chinesa por modelos multimodais e integração em celulares e carros, em meio a prejuízos crescentes do setor

Inteligência artificial (Foto: Yicai Global)

247 – A startup chinesa de inteligência artificial StepFun anunciou uma rodada que levantou mais de 5 bilhões de yuans (US$ 717 milhões), num movimento que a coloca à frente, em volume de recursos, dos recentes IPOs de rivais do setor em Hong Kong. As informações foram publicadas pelo Caixin Global.

O aporte, divulgado numa segunda-feira (26), ocorre em um momento de intensa disputa entre empresas chinesas por escala, distribuição e diferenciação tecnológica. A StepFun tem apostado em modelos multimodais e, sobretudo, em integração com hardware — um caminho que busca transformar a IA em recurso nativo de aparelhos de consumo, como smartphones, além de avançar sobre aplicações em veículos conectados.

Rodada supera as estreias de Zhipu AI e MiniMax

De acordo com os números informados, a rodada Série B+ da StepFun excede o montante obtido por duas concorrentes recém-listadas na bolsa de Hong Kong. A Zhipu AI e a MiniMax levantaram, respectivamente, HK$ 4,173 bilhões (US$ 535 milhões) e HK$ 4,596 bilhões em suas ofertas públicas iniciais realizadas no início de janeiro.

A comparação ganha peso porque as duas estreias foram tratadas como marcos para o ecossistema de IA na China, inaugurando um novo ciclo de captação no mercado público. Ainda assim, a StepFun optou por uma via privada robusta, levantando recursos suficientes para acelerar a estratégia de expansão sem, ao menos por ora, depender do caixa obtido no pregão.

Esse contraste revela dois vetores simultâneos no setor: a busca por capital em escala — seja em bolsa, seja em rodadas privadas — e a necessidade de sustentar investimentos altos e contínuos em pesquisa, treinamento e oferta comercial de grandes modelos.

Foco em multimodal e em “IA no terminal” muda o jogo

A StepFun tem concentrado esforços em modelos multimodais — capazes de trabalhar com diferentes tipos de dados, como texto e imagem — e em levar a inteligência artificial para dentro dos dispositivos, com integração direta em produtos finais. Essa abordagem pretende encurtar o caminho entre a tecnologia e o uso cotidiano, reduzindo fricções para o usuário e ampliando a presença da empresa em “terminais” já distribuídos em massa.

Nesse eixo, a companhia afirma ter parcerias com fabricantes de celulares como Honor, Oppo e ZTE. A lógica é simples: em um mercado altamente competitivo, a IA deixa de ser apenas um serviço em nuvem e passa a ser um diferencial embarcado, orientando recursos do aparelho, assistentes pessoais e funcionalidades do sistema.

A StepFun também projeta a consolidação de “hardware pessoal de IA”, com assistentes dedicados, além de apontar os carros inteligentes como um terreno crucial para aplicação da tecnologia. Na prática, trata-se de disputar o espaço em que a IA deixa de ser “aplicativo” e vira infraestrutura permanente em equipamentos do dia a dia.

Nova liderança e estratégia de comercialização

O anúncio da rodada foi acompanhado por uma mudança relevante na governança: Yin Qi foi nomeado novo presidente do conselho (chairman) da StepFun e ficará responsável pela estratégia geral, com foco na comercialização de modelos de IA em terminais de uso final.

Yin Qi é chairman da Chongqing Afari Technology Co. Ltd. (601777.SH) e também é cofundador da Megvii Technology Ltd., empresa conhecida por soluções de visão computacional. A entrada de um executivo com histórico em aplicações práticas de IA tende a reforçar a prioridade declarada pela StepFun de transformar capacidade tecnológica em produto e receita, especialmente em mercados onde a distribuição por meio de parcerias com fabricantes é determinante.

A movimentação também sinaliza um ajuste fino: em um segmento no qual muitas empresas se diferenciam pelo tamanho do modelo, a StepFun tenta se distinguir pela capacidade de colocar a IA “no bolso” e “no painel” — isto é, no smartphone e no automóvel.

Investidores estatais, seguradora e Tencent ampliam presença

A lista de participantes da rodada evidencia a combinação de capital estatal e grandes grupos privados no suporte ao setor de IA na China. Entre os citados está a Shanghai State-owned Capital Investment Co. Ltd., um investidor ligado ao Estado, além da China Life Insurance Co. Ltd. (601628.SH).

Outro destaque é a Tencent Holdings Ltd., acionista existente que teria aumentado sua participação na empresa. O reforço de uma gigante de tecnologia com ecossistema próprio de produtos e serviços pode indicar, além de aposta financeira, interesse estratégico na consolidação de fornecedores domésticos de modelos de linguagem e IA multimodal.

Esse tipo de apoio, envolvendo braços estatais e conglomerados privados, tem sido interpretado como parte de uma política ampla de fortalecimento de capacidades nacionais em tecnologias críticas. Ao mesmo tempo, amplia a pressão por resultados comerciais, já que o custo de desenvolver e operar modelos avançados continua elevado.

Resultados financeiros

O pano de fundo financeiro ajuda a explicar por que captações desse porte se tornaram o centro do debate. Embora o setor de IA atraia avaliações elevadas e euforia de mercado, os custos de desenvolver grandes modelos — sobretudo em infraestrutura de computação e treinamento — têm produzido prejuízos significativos.

No caso das recém-listadas, os números informados apontam perdas expressivas. A Zhipu AI registrou déficit de 2,358 bilhões de yuans no primeiro semestre de 2025. A MiniMax, por sua vez, reportou prejuízo líquido de US$ 808 milhões entre 2022 e 2024, além de mais US$ 512 milhões nos três primeiros trimestres de 2025.

Os dados ajudam a dimensionar a tensão central do setor: a tecnologia avança rapidamente, mas o modelo de negócio ainda busca estabilidade. Para várias empresas, a corrida por participação de mercado e por liderança tecnológica acontece antes da maturação de receitas capazes de sustentar, com folga, os custos operacionais e de pesquisa.

O que muda no tabuleiro da IA chinesa

A rodada da StepFun reforça que, na China, a disputa por IA não se limita a quem tem o maior modelo ou o chatbot mais popular. O diferencial pode estar em canais de distribuição, integração com hardware e presença em ecossistemas de consumo. Ao firmar parcerias com fabricantes e projetar aplicações em carros inteligentes, a empresa mira uma vantagem competitiva: estar embutida em milhões de dispositivos.

Em paralelo, o contraste com as estreias de Zhipu AI e MiniMax em Hong Kong indica que o mercado está aceitando múltiplas rotas de financiamento: a abertura de capital para alguns, e rodadas privadas gigantes para outros. Em ambos os casos, porém, o objetivo converge para o mesmo ponto: financiar uma infraestrutura cara e contínua, necessária para competir numa indústria em que a escala — de dados, de computação e de distribuição — tende a definir vencedores.

A StepFun, ao levantar mais de 5 bilhões de yuans e ao reposicionar sua liderança para acelerar a comercialização em “terminais”, sinaliza que pretende apostar no caminho da IA embarcada e onipresente. Resta saber se a integração com smartphones e veículos será suficiente para encurtar a distância entre inovação e rentabilidade — a equação que, hoje, desafia até os nomes mais valorizados do setor.

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