Novo Nordisk lança projeto piloto para levar tratamento contra obesidade ao SUS
Parceria com o Ministério da Saúde prevê atender mil pacientes e testar uso da semaglutida no sistema público em três unidades de saúde
247 - A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk anunciou nesta quarta-feira (4) o lançamento de um projeto piloto, em parceria com o Ministério da Saúde, para testar a oferta de tratamento contra obesidade no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa pretende avaliar a viabilidade do uso da semaglutida — princípio ativo presente em medicamentos como Wegovy — no sistema público brasileiro.
As informações foram publicadas pelo Valor Econômico, que revelou que o programa prevê inicialmente o atendimento de ao menos mil pacientes em três unidades de saúde no país. O objetivo é avaliar os impactos clínicos e econômicos do tratamento de longo prazo contra obesidade na rede pública.
O projeto terá duração de dois anos e busca servir como uma “prova de conceito”, segundo a companhia. A intenção é demonstrar que a estratégia pode gerar benefícios tanto para a saúde pública quanto para a economia do sistema de saúde.
Em entrevista ao Valor, o vice-presidente executivo de operações internacionais da Novo Nordisk, Emil Larsen, explicou a lógica da iniciativa.
“A ideia aqui não é, inicialmente, atingir muitas pessoas, mas ter o que chamamos de prova de conceito, para demonstrar que funciona, e então poder expandir a partir daí. É um projeto de dois anos, e começaremos o mais rápido possível”, afirmou.
Tratamento e unidades participantes
O piloto integra um programa global da farmacêutica que também inclui iniciativas semelhantes na Dinamarca e na Austrália. No Brasil, será utilizada a caneta Wegovy, aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) especificamente para o tratamento de sobrepeso e obesidade.
O medicamento Ozempic, também produzido pela empresa, é indicado originalmente para o tratamento de diabetes tipo 2. Já a Poviztra — versão local do tratamento para obesidade produzida pela Novo Nordisk e comercializada em parceria com a Eurofarma — também poderá ser considerada no projeto.
As primeiras unidades participantes já foram definidas. O atendimento ocorrerá no Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (Iede), no Rio de Janeiro, e no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre. Uma terceira unidade municipal ainda está em processo de definição.
Obesidade como desafio de saúde pública
Dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 60% da população brasileira apresentava excesso de peso em 2024. Estimativas do Atlas Mundial da Obesidade, baseadas em dados de 2021, apontam que cerca de 60,9 mil mortes prematuras no Brasil podem estar associadas a doenças crônicas relacionadas ao sobrepeso ou à obesidade.
Segundo Emil Larsen, a redução do índice de massa corporal da população pode gerar impactos relevantes na prevenção de doenças.
“Cada ponto percentual que conseguirmos reduzir no nível de IMC da população ajuda a prevenir, por exemplo, mortes prematuras e muitas comorbidades bastante desagradáveis, que também são muito custosas de tratar”, disse o executivo.
O piloto priorizará pacientes com obesidade associada a outras condições médicas, especialmente diabetes e doenças cardiovasculares.
Parceria com o setor público
Como contrapartida ao projeto, a Novo Nordisk informou que pretende oferecer medicamentos com preços mais competitivos para as instituições públicas. A empresa também ficará responsável pelo treinamento de profissionais de saúde e pelo monitoramento de dados do estudo.
A expectativa, segundo Larsen, é demonstrar que o tratamento pode ser incorporado gradualmente à rede pública.
“Esperamos que a falta de recursos não seja um motivo para não receber tratamento, porque, no longo prazo, o setor público também pode oferecer tratamento para a obesidade, assim como já aconteceu com a insulina para diabetes tipo 2, fornecidos gratuitamente no Brasil”, afirmou.
Mercado em transformação
O cenário global de medicamentos para obesidade e diabetes tem se tornado cada vez mais competitivo. Nos Estados Unidos, a utilização de medicamentos da classe conhecida como GLP-1 já alcança cerca de 5% das pessoas com obesidade ou diabetes, segundo a empresa.
No Brasil, entretanto, o uso ainda é limitado. Levantamento do Grupo FarmaBrasil, com base em dados da consultoria IQVIA, estima que cerca de 0,5% da população entre 15 e 64 anos utilizou regularmente medicamentos dessa categoria em 2025.
Para Larsen, o debate sobre esses medicamentos é intenso no país, mas o acesso real ainda é restrito.
“Em termos de atenção nas redes sociais, cobertura da mídia e debates, pela minha experiência, os GLP-1 já estão há bastante tempo em evidência no Brasil. Mas, quando olho para os números reais, para a quantidade de pacientes que estão sendo tratados, ela ainda é muito baixa”, disse.
Patente e concorrência
O mercado pode passar por mudanças em breve com a queda da patente da semaglutida no Brasil, prevista para ocorrer ainda neste mês após disputas judiciais. A expectativa é que laboratórios nacionais lancem versões genéricas ou biossimilares do medicamento.
Emil Larsen afirmou que a entrada de concorrentes pode ocorrer ainda em 2026.
“Não sabemos se eles conseguirão garantir a qualidade, se terão capacidade de fornecimento, nem conhecemos a qualidade de seus dispositivos. E tudo isso não cabe a nós comentar”, declarou.
Além da competição com fabricantes de genéricos, a Novo Nordisk também enfrenta a concorrência da farmacêutica americana Eli Lilly, responsável pela caneta emagrecedora Mounjaro, lançada no Brasil em 2025.
estratégia de mercado
A farmacêutica também aposta na produção local e em parcerias estratégicas para ampliar sua presença no país. Um exemplo é o acordo com a Eurofarma para comercialização de versões locais de seus medicamentos, incluindo Poviztra (obesidade) e Extensior (diabetes tipo 2).
“Ainda é cedo para avaliar o desempenho [da parceria com a Eurofarma], porque estamos há pouco tempo nesse processo, mas temos observado bastante atividade e interesse até o momento”, afirmou Larsen.
No quarto trimestre de 2025, a Novo Nordisk registrou lucro líquido de 26,89 bilhões de coroas dinamarquesas (cerca de R$ 21,85 bilhões), queda de 4,7% em relação ao período anterior. A receita recuou 7,6%, totalizando 79,14 bilhões de coroas dinamarquesas (aproximadamente R$ 64,32 bilhões). Para 2026, a companhia projeta redução de até 13% nas vendas líquidas e nos lucros.


