Raízen negocia pacote bilionário com Cosan, Shell e fundos do BTG para reforçar caixa e reestruturar dívida
Plano prevê aporte de até R$ 10 bilhões, conversão de cerca de 35% da dívida em capital e separação entre energia e distribuição de combustíveis
247 – A Raízen (RAIZ4) está no centro de negociações avançadas para receber novo capital de seus controladores, Cosan (CSAN3) e Shell, além de atrair fundos de private equity administrados pelo BTG Pactual (BPAC11) para o negócio de distribuição de combustíveis, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. A ideia é fechar um desenho de reestruturação que seja apresentado primeiro aos principais credores e detentores de títulos, antes da formalização do plano.
As informações foram publicadas pela Bloomberg News, em reportagem reproduzida pela Bloomberg Línea, e apontam para um arranjo que combina reforço de caixa, reorganização societária e medidas de gestão de passivos para tentar estabilizar a situação financeira da companhia, pressionada por juros elevados, safras abaixo do esperado e uma sequência de investimentos que ainda não entregou retornos significativos.
Aporte do BTG miraria a distribuição de combustíveis
No desenho discutido, fundos de private equity do BTG Pactual comprariam uma participação relevante no braço de distribuição de combustíveis da Raízen por cerca de R$ 5,5 bilhões, de acordo com as mesmas fontes. Esse investimento seria uma das peças centrais do plano, justamente por mirar a operação que tende a gerar mais caixa e sustentar o fluxo financeiro do grupo.
Ao mesmo tempo, as conversas incluem a possibilidade de converter parte da dívida em capital, com foco em algo próximo de 35%. O percentual exato ainda estaria em aberto, mas o objetivo é reduzir a pressão do endividamento e melhorar indicadores acompanhados por credores, agências de rating e investidores, depois de rebaixamentos recentes e queda nos preços dos títulos.
Controladores também estudam aumento de capital de até R$ 5 bilhões
Além da entrada dos fundos do BTG, o plano contempla um aumento de capital entre R$ 3 bilhões e R$ 5 bilhões realizado pelos atuais acionistas da Raízen, segundo as fontes. A repartição desse esforço, no entanto, dependeria de variáveis específicas do acordo.
A Shell, por exemplo, poderia contribuir com R$ 1,5 bilhão a R$ 3,5 bilhões, variação que estaria ligada a potenciais demandas futuras de royalties. A Cosan, por sua vez, avaliaria um aporte de R$ 1 bilhão, enquanto Rubens Ometto adicionaria R$ 500 milhões, ainda de acordo com os relatos. As mesmas pessoas disseram que Ometto buscaria um empréstimo para viabilizar sua parte na transação.
Em resposta, um porta-voz da Shell afirmou que a "prioridade da companhia é garantir que a Raízen identifique e busque soluções que sejam sustentáveis para a JV, para os acionistas e para os demais stakeholders da empresa", acrescentando que a Shell permanece engajada de forma construtiva para um acordo viável. Cosan, Raízen, BTG Pactual e Ometto não comentaram, segundo a reportagem.
Reorganização societária separaria energia e distribuição
Um ponto sensível do plano é a reorganização societária, com a separação entre Raízen Energia, voltada à produção de açúcar e etanol, e a distribuidora de combustíveis, alvo do investimento do BTG Pactual. A lógica é criar estruturas mais nítidas para alocar caixa, risco e dívida de forma distinta, deixando mais transparente para credores onde está a capacidade de geração de recursos.
Dentro desse rearranjo, a proposta prevê que a Raízen Energia transfira parte da dívida para a distribuidora, movimentação descrita como uma forma de separar fluxos de caixa e concentrar parte do passivo no braço que “gera mais caixa”. O pacote incluiria ainda ofertas de ações desenhadas para dar uma alternativa de saída a credores e detentores de títulos, além de venda de ativos, segundo as pessoas ouvidas pela Bloomberg.
A empresa, porém, ainda depende de alinhamento com credores e bondholders. As fontes indicaram que uma reunião com credores e detentores de títulos está prevista para esta semana, etapa que tende a funcionar como termômetro do apetite do mercado para aceitar conversão de dívida em capital, reorganização interna e eventuais ajustes adicionais no passivo.
Por que a situação da Raízen se deteriorou
A deterioração do quadro financeiro é atribuída, no relato das fontes, a uma combinação de fatores que se acumulou ao longo dos últimos ciclos. As altas taxas de juros elevaram o custo da dívida e reduziram o espaço para rolagem em condições favoráveis. As safras abaixo do esperado comprimiram receitas em um segmento altamente sensível a produtividade agrícola. E os investimentos ambiciosos feitos pela companhia ainda não teriam gerado retorno capaz de compensar o aumento do peso financeiro.
Esse conjunto de pressões ajudou a acelerar rebaixamentos de risco de crédito e a desvalorização de títulos, com reflexos diretos na percepção de solvência e na necessidade de uma solução estruturada, e não apenas pontual. A negociação atual, por isso, se apresenta como tentativa de criar um “pacote completo” que combine capital novo, redução de alavancagem e rearranjo de ativos e passivos.
Venda de ativos e busca por recursos também avançam
Enquanto negocia a capitalização da Raízen, a Cosan também procura caminhos próprios para reforçar caixa. A empresa informou que avalia a possibilidade de realizar uma oferta pública inicial de ações da Compass, segundo comunicado citado na reportagem.
No caso específico da Raízen, a estratégia de desinvestimento já estaria em curso. A Bloomberg afirmou que a trading de energia Mercuria estaria perto de adquirir ativos na Argentina, incluindo uma refinaria e centenas de postos de gasolina, por cerca de US$ 1 bilhão, conforme pessoas familiarizadas com o assunto relataram no início do mês.
A reportagem também citou estimativa do UBS BB segundo a qual a Raízen precisaria de um aporte de R$ 20 bilhões a R$ 25 bilhões, apontando para um desafio que vai além do fôlego de curto prazo e envolve reequilíbrio estrutural do endividamento. As negociações, segundo o texto, se arrastam há meses e estimularam uma onda de vendas de títulos, numa dinâmica típica de reprecificação de risco quando o mercado percebe demora na definição de um plano.
O que pode travar o acordo e o que está em jogo
Apesar de avançadas, as conversas ainda têm pontos abertos. Os números finais, o formato das ofertas de ações, o tamanho efetivo do aumento de capital e o percentual de conversão de dívida dependem de negociações com credores, que podem exigir garantias, covenants mais rígidos ou condições que alterem o equilíbrio entre acionistas e financiadores.
As fontes ouvidas pela Bloomberg disseram que um acordo pode não ser alcançado, justamente porque o plano depende do aval de credores e detentores de títulos. Esse tipo de reestruturação costuma envolver múltiplas camadas de interesse, desde bancos e investidores institucionais até detentores de papéis em diferentes prazos, moedas e jurisdições.
Ao mesmo tempo, o desfecho tem implicações amplas. Para a Raízen, trata-se de preservar a capacidade de investimento e operação em áreas estratégicas como açúcar, etanol e distribuição de combustíveis. Para Cosan e Shell, é uma tentativa de estabilizar uma joint venture relevante e evitar que a deterioração financeira escale para uma crise mais profunda. Para o mercado, a solução pode funcionar como sinalizador sobre a saúde do crédito corporativo brasileiro em um ambiente de juros e risco ainda elevados.
Se o pacote se confirmar, a combinação de aporte do BTG, aumento de capital dos controladores, conversão parcial da dívida em capital, reorganização societária e venda de ativos pode redesenhar o perfil financeiro da Raízen e recolocar a empresa em condições de previsibilidade. Se fracassar, a pressão por alternativas mais duras tende a aumentar, com maior risco de medidas de reestruturação mais agressivas no passivo e maior volatilidade nos ativos da companhia.

