“Estou muito feliz sendo vice-presidente do presidente Lula”, diz Alckmin
Vice-presidente elogia a relação com o presidente e defende a reindustrialização do Brasil
247 – O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, afirmou estar plenamente satisfeito com sua atuação no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e destacou o ambiente de confiança que marca sua relação com o chefe do Executivo. Em entrevista ao programa Na Mesa com Datena, da TV Brasil, reproduzida no YouTube, Alckmin resumiu seu momento político e institucional ao afirmar que está “muito feliz sendo vice-presidente do presidente Lula”, ressaltando ainda que o presidente lhe dá “total liberdade” no exercício de suas funções e jamais impôs limitações à sua atuação.
Ao longo da conversa, cuja fonte original é a entrevista concedida por Alckmin a Datena na estreia do programa, o vice-presidente combinou avaliação política, defesa da política industrial do governo e comentários sobre o cenário internacional. Sem confirmar qual será seu papel nas eleições de 2026, ele confirmou que deixará o ministério no início de abril para cumprir a legislação eleitoral, mas evitou vincular essa saída a qualquer candidatura específica, afirmando que a definição sobre o futuro será feita “mais à frente”.
Alckmin apresentou a experiência no atual governo como uma continuidade de sua trajetória na vida pública e disse que segue motivado pelo sentido coletivo do trabalho político. Ao falar sobre sua convivência com Lula, ele afirmou que o trabalho público o atrai justamente por não estar a serviço do enriquecimento privado, mas da sociedade como um todo. Na mesma linha, recordou sua passagem pela prefeitura de Pindamonhangaba, pelo governo de São Paulo e pelas campanhas presidenciais para sustentar que continua vendo na política uma forma de contribuir diretamente com o país.
Nova Indústria Brasil
O vice-presidente também aproveitou a entrevista para reiterar a centralidade da reindustrialização no projeto do governo. Segundo ele, a Nova Indústria Brasil representa o esforço estratégico de reconstruir a capacidade produtiva do país com base em inovação, sustentabilidade, produtividade e ampliação das exportações. Ao explicar o raciocínio, Alckmin recorreu a uma comparação didática: disse que um quilo de carne de porco custa em torno de R$ 25 ou R$ 28, mas que uma válvula aórtica feita a partir do pericárdio do porco pode chegar a R$ 70 mil, argumentando que essa diferença expressa justamente o papel da indústria e da tecnologia na agregação de valor.
Na avaliação de Alckmin, o Brasil precisa reduzir sua dependência da exportação de commodities e passar a vender mais bens industrializados ao exterior. Embora tenha comemorado o recorde de exportações em fevereiro, com crescimento de 15,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior, ele observou que a pauta exportadora brasileira ainda é excessivamente concentrada em petróleo bruto, soja, minério de ferro, café, carne e açúcar. Por isso, defendeu que o país avance na produção e exportação de aviões, automóveis, motores e máquinas.
Custo Brasil
O ministro também apontou os gargalos estruturais que dificultam a competitividade brasileira no cenário internacional. Ao comparar o ambiente de negócios nacional com o de países asiáticos, afirmou que China e Índia têm juros muito mais baixos, carga tributária inferior e escala produtiva muito superior, o que barateia seus custos e amplia a presença desses países no comércio mundial. Segundo ele, a China, sozinha, responde por metade da produção mundial de aço, o que ajuda a dimensionar o tamanho do desafio enfrentado pela indústria brasileira.
Para enfrentar esse quadro, Alckmin destacou medidas de estímulo à inovação e à modernização fabril. Citou, entre elas, a redução do prazo para concessão de patentes pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Segundo ele, o INPI levava sete anos para registrar uma patente, mas esse tempo vem sendo gradualmente reduzido e a meta é chegar a dois anos, padrão que classificou como internacional. Também mencionou programas de depreciação acelerada para renovação de máquinas, observando que a média de idade do maquinário industrial brasileiro é de 15 anos, o que compromete produtividade e competitividade.
No campo da sustentabilidade, Alckmin sustentou que o Brasil já possui vantagens importantes. Ele lembrou que o país mistura 30% de etanol na gasolina, utiliza 15% de biodiesel no diesel e tem uma frota majoritariamente flex, além de ver crescer o segmento de carros híbridos. Para ele, essas características colocam o país em posição privilegiada numa transição energética global em que indústria, inovação e meio ambiente tendem a caminhar juntos.
Outro ponto enfatizado por Alckmin foi o acordo entre Mercosul e União Europeia, tratado por ele como uma grande oportunidade comercial e geopolítica. O vice-presidente afirmou que o acordo entre os dois blocos deve entrar em vigor após a internalização pelos países do Mercosul e disse que se trata do maior acordo entre blocos do mundo, envolvendo 720 milhões de pessoas e um mercado de 22 trilhões de dólares. Em sua avaliação, a abertura comercial prevista pelo tratado tende a beneficiar a sociedade ao ampliar a concorrência, atrair investimentos e permitir o acesso a produtos melhores e mais baratos.
A entrevista também avançou sobre o impacto dos conflitos internacionais na economia. Alckmin concordou com a avaliação de que o mundo vive uma conjuntura marcada por vários conflitos simultâneos e disse que, em maior ou menor grau, todos os países acabam sendo prejudicados. Ressaltou, porém, que o Brasil tende a sofrer menos do que outras regiões porque seus principais parceiros comerciais — como China, União Europeia, Argentina e Estados Unidos — não estão diretamente concentrados nas áreas mais afetadas pelas guerras. Ainda assim, alertou para o efeito imediato da alta do petróleo sobre gasolina e diesel e para a vulnerabilidade brasileira no mercado de fertilizantes, já que o país ainda depende fortemente da importação de NPK.
Ao tratar da guerra entre Rússia e Ucrânia, Alckmin afirmou que a posição brasileira está correta ao sustentar que nada justifica a invasão de um país por outro. Em relação à Venezuela, declarou que o Brasil nunca reconheceu o resultado da eleição venezuelana, mas ponderou que isso não torna razoável qualquer violação da soberania daquele país. A partir desses exemplos, defendeu o fortalecimento de instituições multilaterais, como a ONU e a Organização Mundial do Comércio, argumentando que esses mecanismos foram concebidos justamente para evitar guerras e organizar regras de convivência entre as nações.
Relação com Trump
No trecho em que falou sobre as relações com os Estados Unidos, Alckmin relatou que teve interlocução direta com o secretário de Comércio, Howard Lutnick, além de outros representantes do governo norte-americano, em meio às tensões geradas pelo tarifaço promovido por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, o Brasil questionou as tarifas elevadas impostas pelos EUA, lembrando que a tarifa média brasileira para produtos norte-americanos é de apenas 2,7%. Para Alckmin, não fazia sentido exigir reciprocidade com taxas tão altas quando a maior parte dos produtos americanos entra no Brasil sem imposto.
De acordo com o vice-presidente, a negociação produziu resultados concretos e a parcela das exportações brasileiras atingidas pelas tarifas foi sendo reduzida progressivamente. Ele afirmou que, na primeira ordem executiva do tarifaço, 37% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estavam sob taxa de 50%, mas esse percentual foi diminuindo à medida que produtos como café, celulose, suco de laranja, carne e outros alimentos foram sendo retirados da lista. Também observou que, após uma decisão da Suprema Corte americana, o teto tarifário passou a ser de 15% para o mundo inteiro, o que, segundo ele, preserva a competitividade relativa do Brasil.
Alckmin citou ainda possíveis pontos de convergência com os Estados Unidos em futuras negociações, como minerais estratégicos, terras raras, data centers e energia. Ao comentar uma eventual reunião entre Lula e Trump, afirmou que, segundo o presidente brasileiro, “não há tema proibido” e que o governo está aberto ao diálogo e à negociação.
Na parte da entrevista dedicada à crise financeira envolvendo o Banco Master, o vice-presidente defendeu investigação rigorosa e punição severa. Ele disse que o caso não surgiu de um dia para o outro e sustentou que já está claro haver suspeitas envolvendo pessoas do próprio sistema de fiscalização, inclusive dentro do Banco Central. Ao chamar atenção para a dimensão do escândalo, afirmou que “não é milhão” o que desapareceu, mas “59 bilhões”, e questionou onde esse dinheiro foi parar. Também observou que o episódio revela falhas graves de controle e reforçou a necessidade de aprimorar mecanismos de supervisão no sistema financeiro.
Ninguém está acima da lei
Alckmin negou que o governo esteja tentando limitar as investigações e afirmou que o presidente Lula tem sido claro ao não poupar ninguém. Segundo ele, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Poder Judiciário precisam ter liberdade total para apurar, punir e corrigir as fragilidades institucionais expostas pelo caso. Em sua visão, esse é justamente o sentido da democracia: transparência, clareza e a certeza de que ninguém está acima da lei.
Ao falar sobre segurança pública, Alckmin defendeu endurecimento contra o crime organizado e maior atenção às estruturas de lavagem de dinheiro. Disse que não basta prender operadores de menor escala e que é indispensável atingir a cúpula das facções, seguir o rastro do dinheiro e atacar os mecanismos financeiros que sustentam o crime. Citando experiências de sua gestão em São Paulo, mencionou o regime disciplinar diferenciado e os presídios de segurança máxima como instrumentos para isolar lideranças criminosas.
Ele também apoiou o fortalecimento da atuação local no combate à violência, elogiando dispositivos da PEC da Segurança que ampliam o papel das guardas municipais e das estruturas locais. Segundo Alckmin, polícia é ação no território, e quem está mais próximo da realidade concreta das cidades costuma conhecer melhor a dinâmica do crime.
Na área social, o vice-presidente falou sobre o feminicídio e afirmou que o enfrentamento da violência contra a mulher exige dois eixos complementares: educação e punição. Para ele, é preciso romper a cultura machista que naturaliza a violência e, ao mesmo tempo, assegurar que criminosos sejam efetivamente responsabilizados. Disse que a impunidade estimula o delito e que penas rigorosas ajudam a desestimular esse tipo de crime. Também citou programas voltados à inserção e à ascensão profissional das mulheres, como iniciativas de mentoria e participação feminina no comércio exterior.
Polarização acentuada
Ao se aproximar do tema eleitoral, Alckmin reconheceu que o mundo vive um tempo de crescente polarização e que o Brasil não está isolado desse fenômeno. Ainda assim, afirmou que o presidente Lula chega forte para a disputa porque eleição, segundo ele, é comparação concreta entre governos e resultados. Nesse sentido, apontou avanços em áreas como combate ao desmatamento, educação, saúde, infraestrutura, vacinação e inserção internacional do país.
Para exemplificar essa linha de argumentação, mencionou a redução do desmatamento, o programa Pé-de-Meia, a ampliação do ensino técnico, as ações em saúde, a entrega de aceleradores lineares para tratamento de câncer e a retomada de políticas de vacinação. Também recorreu ao conceito de “taxa de desconforto”, soma entre desemprego e inflação, para sustentar que o governo chega melhor posicionado ao debate público, já que, segundo ele, hoje o país combina desemprego baixo e inflação em patamar controlado.
No mesmo raciocínio, Alckmin afirmou que o equilíbrio fiscal é necessário, mas argumentou que o ajuste não pode recair sobre os mais pobres. Segundo ele, a diferença central entre projetos políticos está em saber se o esforço para enfrentar o déficit será imposto ao aposentado, ao trabalhador de baixa renda e aos mais vulneráveis ou se haverá correção de privilégios e maior justiça social.


