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Lula ainda avalia retaliação contra Alcolumbre após acordão contra Messias no Senado

Governo faz um mapeamento de cargos ocupados por aliados do presidente do Senado e cogita indicar Messias novamente ao STF

Davi Alcolumbre - Presidente Lula (Foto: Ricado Stuckert / PR /Jonas Pereira/Agência Senado)

247 - A derrota de Jorge Messias no Senado levou o governo Lula a avaliar uma reação política a Davi Alcolumbre, presidente da Casa, após a rejeição do nome indicado pelo presidente para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. As informações são do blog da jornalista Malu Gaspar, no jornal O Globo.

Lula ainda não teria assimilado completamente o revés sofrido no plenário do Senado, mas tem dito a aliados, em reuniões reservadas, que não pretende tomar decisões “de cabeça quente”. Apesar disso, o presidente determinou o mapeamento dos cargos sob influência de Alcolumbre na administração federal.

Nos bastidores, a avaliação é de que o Planalto não pretende iniciar uma guerra aberta contra o presidente do Senado, apontado por Lula como uma das principais peças da articulação que barrou Messias. Ainda assim, a possibilidade de algum tipo de retaliação política não foi descartada.

“Nos últimos tempos deixamos Alcolumbre ficar muito solto, agora vamos vigiar ele de perto”, disse ao blog um auxiliar de Lula que participou de conversas recentes do presidente sobre o caso.

A orientação para levantar os espaços ocupados por aliados de Alcolumbre é uma das medidas tomadas após a votação. Lula também avalia alternativas para o futuro de Jorge Messias, entre elas a possibilidade de acomodá-lo no Ministério da Justiça ou reapresentar seu nome ao Senado até o fim do mandato.

Dentro do Planalto, porém, essas hipóteses enfrentam resistência entre integrantes mais pragmáticos do governo. Esse grupo defende que Lula faça um gesto de pacificação com Alcolumbre, aproximando o presidente do Senado em vez de ampliar a distância política aberta pela derrota.

A preocupação central dessa ala é preservar a tramitação de propostas consideradas importantes para a agenda do governo e para o projeto de reeleição de Lula. Entre os temas citados estão o fim da escala de trabalho 6 por 1 e a medida provisória do novo Desenrola, voltada à renegociação de dívidas de famílias.

Essas pautas são vistas no governo como iniciativas de forte apelo social e eleitoral. A expectativa de aliados é que medidas desse tipo possam ajudar Lula a melhorar seu desempenho nas pesquisas de intenção de voto, nas quais aparece em empate técnico em eventual segundo turno com o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro.

No entorno de Alcolumbre, a leitura é semelhante, mas com sinal invertido. Aliados do presidente do Senado avaliam que o governo depende da Casa para avançar sua agenda e, por isso, teria pouco espaço para elevar a tensão institucional.

“O governo Lula fala em retaliação, mas creio que não serão burros de tentar fazer algo do tipo”, afirmou ao blog um aliado de Alcolumbre ouvido sob reserva.

Segundo essa avaliação, Lula precisaria mais de Alcolumbre neste momento do que o presidente do Senado precisaria do Planalto. Por isso, interlocutores do parlamentar apostam que o governo fará cálculos políticos antes de adotar qualquer medida que possa dificultar ainda mais a governabilidade.

Lula, no entanto, ainda não estaria convencido de que a ausência de reação garantirá uma relação mais estável com o Senado. O presidente indicou a auxiliares que pretende refletir sobre o tema durante a viagem aos Estados Unidos, onde terá encontro com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, antes de definir os próximos movimentos.

A derrota de Messias no Senado teve dimensão histórica. O indicado de Lula recebeu 34 votos favoráveis, sete a menos do que o mínimo exigido pela Constituição Federal para assumir uma cadeira no STF. A vaga foi aberta com a antecipação da aposentadoria de Luís Roberto Barroso, em outubro do ano passado.

Na história da República, uma rejeição desse tipo é rara. Antes do caso Messias, apenas Floriano Peixoto havia sofrido revés semelhante, quando cinco indicados ao Supremo foram barrados em 1894.

A articulação contra Messias envolveu nomes de peso da política e do Judiciário. Flávio Bolsonaro teria atuado para enquadrar o PL e impedir defecções. O ministro Alexandre de Moraes, do STF, e Davi Alcolumbre também são apontados como integrantes dos bastidores da ofensiva contra a indicação.

Alcolumbre nunca escondeu sua preferência pela indicação de Rodrigo Pacheco, do PSB de Minas Gerais, ao Supremo. De acordo com os relatos, o presidente do Senado não apenas pediu votos contra Messias, como também pressionou lideranças partidárias.

Entre os exemplos citados está Ciro Nogueira, do PP do Piauí, que já havia anunciado voto favorável ao nome indicado por Lula. A bancada do PP no Senado reúne sete parlamentares, número suficiente para alterar o resultado caso houvesse uma mudança de posição em bloco.

Os aliados de Alcolumbre no governo estão distribuídos por diferentes áreas da Esplanada dos Ministérios. Segundo o levantamento citado na reportagem, há indicações ligadas ao senador em órgãos como o Ministério das Comunicações, o Ministério do Desenvolvimento Regional, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes e a Codevasf.

A Codevasf é um dos pontos de atenção do Planalto. O atual presidente da companhia, Lucas Felipe de Oliveira, foi indicado por Alcolumbre no ano passado, conforme a apuração mencionada pelo blog.

Além dos ministérios e órgãos federais, Alcolumbre também teria conseguido emplacar aliados em agências estatais. Nesses casos, porém, uma eventual interferência política do governo é mais difícil, já que os cargos são protegidos por mandatos.

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