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Lula condena corrida armamentista e faz apelo mundial ao combate à fome e à pobreza

Presidente critica bloqueios dos Estados Unidos a Cuba e o abandono do Haiti

03.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante a abertura da 2º Conferência Nacional do Trabalho, no Teatro Celso Furtado. São Paulo - SP.

Foto: Ricardo Stuckert / PR (Foto: Ricardo Stuckert)

247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um apelo contundente à comunidade internacional para priorizar o combate à fome e à pobreza, em vez de ampliar investimentos militares. A declaração ocorreu nesta quarta-feira (4), durante discurso na 39ª Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) para a América Latina e o Caribe, quando Lula criticou a escalada global de gastos com armamentos e defendeu uma mobilização política para erradicar a fome.

Em sua intervenção, o presidente também mencionou a situação de países como Cuba e Haiti, ao criticar o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos à ilha caribenha e apontar a falta de atenção internacional ao Haiti, que enfrenta grave crise social e humanitária. As declarações foram feitas durante sua fala na conferência da FAO, realizada com líderes e representantes de governos da região.

Crítica aos gastos militares

Lula comparou os recursos destinados à indústria bélica com o número de pessoas que passam fome no planeta. Segundo ele, os valores investidos em armamentos poderiam ser usados para enfrentar o problema da insegurança alimentar.

“Se pegássemos o dinheiro que foi gasto no ano passado em armamentos, conflitos, equivalente a US$ 2,7 trilhões e dividíssemos entre os 630 milhões de seres humanos que passam fome, daria para a gente ter distribuído US$ 4,28 mil para cada pessoa. Não precisaria ter fome no mundo se houvesse bom senso dos governantes”, afirmou.

O presidente também fez um apelo direto aos países que integram o Conselho de Segurança da ONU como membros permanentes — França, Reino Unido, Rússia, China e Estados Unidos — para que priorizem o debate sobre a fome global.

“Se esses senhores, que coordenam o Conselho de Segurança, se preocupassem com esta questão da fome neste instante em vez de ficar discutindo — como agora está se discutindo na Europa — o fortalecimento do armamento dos países, investimentos na defesa… Está todo mundo pensando que vão se agravar os conflitos e todo mundo quer mais armas, mais bombas atômicas, mais drones, aviões de caça cada vez mais caros. E tudo isso não é feito para construir, é feito para destruir”, declarou.

Defesa do diálogo em vez da guerra

Durante o discurso, Lula sugeriu que os líderes das principais potências globais poderiam discutir soluções para os conflitos por meio de diálogo direto.

“São apenas cinco pessoas, que poderiam fazer uma teleconferência. Não precisaria ninguém correr risco para ninguém ser atacado por drone à noite, para ninguém ser vítima de mísseis. Poderia ser feita uma teleconferência para fazer uma discussão muito clara se o que vai resolver o problema da humanidade é mais guerra ou mais paz”, disse.

Ele também demonstrou preocupação com o que classificou como falta de sensibilidade de líderes mundiais diante da fome.

“Fico muito emocionado de saber que a fome mexe muito pouco com o coração dos governantes do mundo. Mexe com muitos seres humanos individualmente, com ONGs, com igrejas, mas não sensibiliza o coração dos governantes”, afirmou.

Segundo Lula, pessoas em situação de fome muitas vezes são ignoradas pelas autoridades: “As pessoas que passam fome são tratadas como se fossem invisíveis. As pessoas não as querem enxergar”.

Críticas ao bloqueio contra Cuba e à situação do Haiti

O presidente também mencionou diretamente o impacto de sanções econômicas sobre Cuba. Para ele, o país enfrenta dificuldades alimentares não por incapacidade produtiva, mas por restrições externas.

“Cuba não está passando fome porque não sabe produzir, porque não sabe construir a sua energia. Cuba está passando fome porque não querem que Cuba tenha acesso às coisas a que todo mundo deveria ter direito”, declarou.

Lula também comparou a situação da ilha com a crise enfrentada pelo Haiti. “Vamos supor que não se cuida de Cuba por uma questão ideológica. Então ‘não vamos ajudar Cuba porque Cuba é um país comunista’. Ajude o Haiti, que está do lado e que passa tanto ou mais fome do que Cuba e que está sendo dominado por gangues”, disse.

Fome como prioridade global

Ao longo do discurso, o presidente reforçou que o combate à fome deve ser tratado como prioridade absoluta pelos governos.

“A fome tem que se tratada como prioridade zero. É um direito sagrado: todo mundo tem que tomar café, almoçar e jantar todo dia”, afirmou.

Ele também citou a experiência brasileira na redução da insegurança alimentar, lembrando que o país conseguiu retirar o Brasil do Mapa da Fome duas vezes. “O Brasil deu exemplo, duas vezes: é possível acabar com a fome. É plenamente possível. Terminamos com a fome pela primeira vez em 2014 e quando voltei à Presidência em 2023 já tinha 33 milhões de pessoas passando fome outra vez. Em dois anos e meio a FAO reconheceu que acabamos com a fome outra vez”, declarou.

Desigualdade histórica na América Latina

Lula também abordou o histórico de exploração econômica da América Latina e afirmou que a região precisa buscar maior soberania para garantir melhores condições de vida à população.

“Não é justo que depois de 525 anos ou 533 anos que fomos descobertos a gente ainda viva sendo uma das regiões mais pobres do planeta e mais injustas. Quando tinha ouro, levaram nosso ouro. Quando tinha prata, levaram a nossa prata. Levaram o nosso suor, com salário muito barato, durante muito tempo”, disse.

Segundo ele, os países latino-americanos precisam reagir a esse cenário e garantir condições dignas para suas populações.

“Quando nós vamos acordar para dizer que não queremos submissão, não queremos viver de favor. Queremos, de forma soberana, dar alimentação para o nosso povo”, afirmou.

Gaza e o impacto do genocídio

O presidente também mencionou a destruição na Faixa de Gaza e criticou a ideia de reconstrução após a devastação provocada pela guerra.

“Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres e crianças que mataram para agora aparecem com pompa criando um conselho para dizer: ‘vamos reconstruir Gaza’?”, questionou.

Ele concluiu afirmando que a mobilização internacional é necessária para enfrentar crises humanitárias. “Se a gente não gritar, nada acontece”, declarou.

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