Múcio defende mais investimentos em defesa e Alckmin diz que setor é “seguro de vida para a Nação”
Governo lança catálogo da indústria de defesa e reforça estratégia baseada em dissuasão, inovação tecnológica e soberania nacional
247 – O governo federal lançou nesta segunda-feira (23), em Brasília, o Catálogo de Produtos da Base Industrial de Defesa (BID) e defendeu a ampliação dos investimentos no setor como parte central de uma estratégia de desenvolvimento nacional, geração de empregos qualificados e fortalecimento da soberania brasileira. As informações foram publicadas em reportagem do jornalista Leonardo Sobreira, da Sputnik Brasil.
O documento reúne 364 produtos e 154 empresas da indústria de defesa nacional, abrangendo aeronaves, veículos blindados, sistemas de monitoramento e embarcações, incluindo plataformas tripuladas e não tripuladas. A iniciativa foi apresentada pelo Ministério da Defesa como instrumento de promoção comercial, abertura de mercados e consolidação da política industrial ligada à segurança nacional.
Durante o evento, o ministro da Defesa, José Múcio Monteiro, destacou que o fortalecimento do setor deve estar associado à capacidade de dissuasão e não à promoção de conflitos. Em uma das principais declarações, afirmou: "Podemos crescer muito pensando na dissuasão, não na agressão, pensando na geração de emprego, de impostos, no desenvolvimento tecnológico".
Múcio também buscou afastar interpretações de caráter belicista e reforçou o papel econômico da indústria de defesa. "Precisamos que a sociedade entenda que não somos uma indústria da guerra, e sim uma indústria de cogeração e participação no desenvolvimento do país", disse.
A fala do ministro converge com a visão apresentada pelo vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, que classificou o setor como essencial para a sobrevivência estratégica do Brasil. "Uma indústria de defesa forte é um seguro de vida para a nação e um motor para a Nova Indústria Brasil [NIB]", declarou.
Alckmin ressaltou que o fortalecimento da indústria de defesa pode impulsionar diversos setores, como saúde, agricultura e ciência, além de contribuir para reverter o processo de “desindustrialização precoce” no país. Segundo ele, a produção nacional de equipamentos de defesa é um dos pilares da política industrial do governo.
O vice-presidente também destacou o papel de instituições como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a Finep e a Embrapii no financiamento e estímulo à inovação no setor. Ao enfatizar a importância das exportações, afirmou que o objetivo é consolidar "uma indústria inovadora, sustentável, competitiva e exportadora".
A ministra da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Esther Dweck, reforçou o caráter estratégico do catálogo. Para ela, o documento é um instrumento relevante para consolidar a indústria de defesa como vetor de desenvolvimento sustentável. "Importantíssimo para continuar fazendo com que a nossa indústria de defesa seja um instrumento para o desenvolvimento sustentável do Brasil", afirmou.
Já o secretário de Produtos de Defesa, Heraldo Luiz Rodrigues, destacou que a iniciativa vai além de um simples registro de produtos. "O catálogo vai além do registro de produtos e serviços. Trata-se de um instrumento de abertura de mercado", disse. Segundo ele, a proposta é ampliar a presença brasileira tanto no mercado interno quanto no internacional, com produtos confiáveis e competitivos.
Rodrigues também enfatizou o impacto econômico da indústria de defesa, que gera empregos qualificados e amplia a arrecadação, além de contribuir para a autonomia tecnológica do país. "O desenvolvimento de soluções fortalece a autonomia que o Brasil precisa", afirmou.
Defesa, soberania e tensões geopolíticas
O evento também foi marcado por referências ao cenário internacional. José Múcio comentou a pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que facções criminosas brasileiras sejam classificadas como organizações terroristas, o que poderia abrir margem para interferências externas.
Ao tratar do tema, o ministro destacou a necessidade de preservar a autonomia nacional. "Com relação a essa questão terrorista, nós temos de preservar a nossa soberania, ver se isso é um mero discurso", afirmou. Em seguida, acrescentou: "Na hora que for para o campo da prática, o governo vai saber intervir bem".
Nos bastidores, a discussão envolve a possibilidade de enquadrar grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, o que alteraria o tratamento jurídico e diplomático do crime organizado e poderia justificar ações mais duras no plano internacional.
A posição do governo brasileiro, sinalizada por Múcio, indica cautela diante de iniciativas externas que possam afetar a soberania nacional. Nesse contexto, o fortalecimento da indústria de defesa aparece não apenas como política econômica, mas como instrumento estratégico para garantir autonomia, capacidade dissuasória e protagonismo do Brasil em um cenário global cada vez mais tensionado.


