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Renan Calheiros diz que Lula tratou de vice do MDB em conversa na Granja do Torto

Senador afirma que o presidente mencionou a possibilidade em 17 de dezembro e que eventual indicação dependeria de convite formal

Senador Renan Calheiros, Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva e o Ministro dos Transportes, Renan Filho, durante a Cerimônia de Assinatura da Ordem de Serviço do Trecho V do Canal do Sertão Alagoano (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

247 – O senador Renan Calheiros (MDB-AL) afirmou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratou da possibilidade de o candidato a vice na chapa à reeleição ser do MDB durante uma conversa com ele e outro parlamentar do partido, em um encontro no fim do ano passado, na Granja do Torto, em Brasília.

A informação foi publicada pelo jornal O Globo e reforça a leitura, em setores do Congresso e do Palácio do Planalto, de que a articulação para 2026 já inclui discussões sobre a composição da chapa presidencial e sobre como ampliar a coalizão governista em direção ao centro político.

O que Renan disse sobre a conversa com o presidente

Segundo Renan, o tema não teria sido levantado pelo MDB, mas pelo próprio presidente. Ao ser questionado sobre a hipótese de Lula aceitar um vice do MDB, o senador atribuiu a iniciativa ao presidente e deu data e local do diálogo.

"Quem falou isso foi o Lula, não fomos nós. Ele tratou disso comigo no dia 17 de dezembro, na Granja do Torto", disse Renan.

A declaração, por si só, sinaliza duas dimensões do debate: a existência de conversas preliminares sobre arranjos eleitorais e o esforço do governo para calibrar alianças com partidos de centro que têm capilaridade regional e peso parlamentar. Ao mesmo tempo, o relato de Renan sugere que a discussão ainda está longe de uma definição formal, dado que o próprio senador descreve etapas e condicionantes para qualquer eventual indicação.

Renan também afirmou que uma eventual indicação dependeria, primeiro, de um convite formal do presidente e, depois, da disputa interna no MDB. Na prática, o senador aponta para a dinâmica tradicional do partido: mesmo quando há convergência com o Planalto, a legenda preserva autonomia para deliberar em convenções e negociar apoio em múltiplos níveis, inclusive estaduais.

Por que o MDB entra no radar e quem aparece como cotado

A possibilidade de o vice ser do MDB ganha tração porque a legenda é considerada peça-chave em um desenho de ampliação do arco de alianças. A justificativa passa por dois fatores mencionados no relato: a capilaridade do partido e o peso no Congresso, que podem contribuir tanto para a governabilidade quanto para uma estratégia eleitoral mais ampla.

Dentro desse cenário, um dos nomes citados como cotado para vice, caso a função caiba ao MDB, é o ministro dos Transportes, Renan Filho, que é filho de Renan Calheiros. A presença do nome no debate adiciona um componente interno ao MDB: além de a indicação depender do presidente, haveria uma disputa partidária, com diferentes correntes e lideranças buscando espaço e protagonismo.

Renan afirmou ainda que o principal ativo que o MDB poderia oferecer seria o apoio de uma “banda consistente” da legenda, capaz de ampliar a coalizão eleitoral de Lula. Ao falar em “banda consistente”, o senador reconhece que o MDB, por sua natureza federativa e por suas múltiplas alianças locais, dificilmente se move como um bloco monolítico. A aposta, portanto, seria reunir um núcleo relevante do partido em torno de uma aliança nacional, mesmo que coexistam posições distintas em alguns estados.

Nesse contexto, Renan citou quadros como a ministra Simone Tebet (Planejamento), o governador do Pará, Helder Barbalho, e o presidente do partido, Baleia Rossi, mas ressaltou que o debate ainda “não está posto”. A enumeração serve como recado político: há lideranças com densidade eleitoral e institucional que poderiam, em tese, operar a ponte entre Planalto e MDB — ainda que, por ora, sem decisão tomada.

O fator Alckmin e a sinalização pública de Lula

A discussão sobre o vice do MDB ocorre em meio às incertezas sobre a permanência do atual vice, Geraldo Alckmin. Lula admitiu publicamente pela primeira vez, na semana passada, a hipótese de mudar a composição da chapa ao afirmar que Alckmin terá um “papel a cumprir” na eleição em São Paulo. O comentário foi interpretado como sinal de que o vice pode ser deslocado para uma missão eleitoral específica, abrindo espaço para rearranjos na chapa presidencial.

Esse tipo de movimento — elogiar um aliado e, ao mesmo tempo, manter aberta a negociação sobre o desenho eleitoral — é clássico em coalizões amplas. De um lado, preserva-se o reconhecimento institucional ao vice; de outro, cria-se margem para ampliar alianças e reduzir riscos eleitorais. A menção a São Paulo, em especial, carrega peso simbólico e prático: é o maior colégio eleitoral do país e um estado decisivo na disputa.

Nos bastidores, dirigentes governistas avaliam que oferecer a vaga ao MDB poderia consolidar apoio de setores do centro e reduzir a margem de crescimento de candidaturas adversárias. A leitura é que, em uma eleição polarizada, a composição da chapa pode funcionar como mensagem política: a escolha do vice sinaliza amplitude, moderação ou capacidade de diálogo, a depender do perfil do indicado e do partido que o abriga.

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