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Doses baixas de THC indicam potencial terapêutico no tratamento do HIV

Estudo aponta redução de inflamação e proteção de órgãos sem efeitos psicoativos em pacientes sob terapia antirretroviral

Planta de maconha - 20/04/2023 (Foto: REUTERS/Shannon Stapleton)

247 - Doses extremamente reduzidas de THC, principal composto psicoativo da cannabis, podem oferecer benefícios relevantes a pessoas vivendo com HIV ao ajudar a proteger órgãos como intestino, cérebro, coração e fígado contra efeitos de longo prazo do tratamento. A substância, administrada em quantidades mínimas, não provoca euforia nem alterações perceptíveis no sistema nervoso central e pode reduzir inflamações associadas tanto ao vírus quanto à terapia antirretroviral. As conclusões fazem parte de um estudo conduzido pelo Texas Biomedical Research Institute e divulgado recentemente, informa o jornal O Globo.

A pesquisa, publicada na revista científica Science Advances, analisou os impactos do uso contínuo de microdoses de THC em modelos animais que reproduzem de forma próxima a condição de pessoas vivendo com HIV em tratamento. Os resultados indicam diminuição de inflamação sistêmica, redução de colesterol e queda nos níveis de ácidos biliares secundários considerados tóxicos, além do aumento da serotonina, neurotransmissor fundamental para funções como humor, sono e digestão.

Um dos achados mais inesperados foi a constatação de que os animais tratados com THC apresentaram concentrações mais baixas de medicamentos antirretrovirais no sangue, sem qualquer prejuízo no controle do vírus, que permaneceu indetectável. Como esses fármacos podem causar sobrecarga hepática ao longo do tempo, a redução observada pode ter importância clínica relevante.

“Pessoas vivendo com HIV apresentam inflamação crônica, que leva a muitas comorbidades, como doenças cardiovasculares, hepáticas e alguns distúrbios neurológicos”, afirmou o professor Mahesh Mohan, DVM e Ph.D., responsável pelo estudo. “Nosso laboratório está interessado em encontrar soluções para ajudar a enfrentar esse problema”.

O trabalho dá sequência a pesquisas anteriores do grupo liderado por Mohan sobre o uso terapêutico de THC em doses muito baixas, comparáveis às de medicamentos já aprovados pela FDA para tratar convulsões, náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia, além de anorexia e perda de peso associadas à Aids. Ao longo de três anos, a cientista Lakmini Premadasa, Ph.D., analisou centenas de metabólitos — pequenas moléculas essenciais aos processos biológicos — para avaliar possíveis impactos do uso diário de THC em combinação com a terapia antirretroviral.

“Não houve nenhum efeito negativo”, disse Premadasa. “Continuei procurando porque não conseguia acreditar que tudo pudesse ser positivo, mas realmente não encontrei impactos adversos”.

Para a pesquisa, foram acompanhados dois grupos de macacos-rhesus infectados com o vírus da imunodeficiência símia (SIV), equivalente ao HIV em humanos. Ambos receberam terapia antirretroviral por cinco meses, mas apenas um dos grupos também foi tratado com THC em baixa dose. Ao final do período, os níveis do vírus estavam indetectáveis nos dois grupos, mas os animais que receberam o canabinoide apresentaram menor toxicidade associada aos medicamentos.

“Isso foi inesperado”, afirmou Premadasa. “Isso sugere que o THC ajuda a metabolizar os antirretrovirais mais rapidamente, o que é melhor para proteger o fígado da toxicidade associada a alguns dos medicamentos atualmente prescritos”.

Outro destaque do estudo foi o impacto positivo sobre a serotonina. Os pesquisadores observaram níveis significativamente mais altos do neurotransmissor nos animais tratados com THC, além de alterações em diferentes etapas de sua produção, que ocorre majoritariamente no intestino. Houve aumento no número de células produtoras de serotonina, maior presença de bactérias benéficas, como a Lactobacillus plantarum, e elevação da expressão de receptores responsáveis pela comunicação entre intestino e cérebro por meio do nervo vago.

“Esse é um achado empolgante, que pode ser investigado para tratar uma série de condições relacionadas a baixos níveis de serotonina, incluindo depressão, perda de memória, confusão mental e talvez sintomas da Covid longa”, disse Mohan. “A redução da serotonina prejudica a comunicação entre intestino e cérebro, e melhorar esses níveis com canabinoides em baixa dose pode abrir um novo caminho terapêutico”.

Os efeitos positivos também alcançaram o sistema cardiovascular e o fígado. Os animais que receberam THC apresentaram um microbioma intestinal mais equilibrado, com maior presença de bactérias associadas à redução do colesterol. Também foi registrada diminuição de ácidos biliares secundários, cuja concentração elevada pode levar a inflamações, obstruções dos ductos biliares, cirrose e doença hepática avançada. Além disso, houve aumento de metabólitos ligados à quebra de ácidos graxos, associados à menor formação de placas nas artérias.

Nos animais tratados com THC, os níveis de ácidos graxos relacionados à formação de placas retornaram aos valores observados antes da infecção. Já no grupo que recebeu apenas a terapia antirretroviral, esses compostos permaneceram elevados, indicando maior risco cardiovascular.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que o estudo foi realizado em primatas não humanos e que novas pesquisas são necessárias para verificar se os mesmos efeitos se repetem em pessoas. A equipe também avalia o uso do canabidiol (CBD), composto não psicoativo da cannabis, em combinação com o THC, além de outros canabinoides e terpenos. Os cientistas alertam que produtos comerciais à base de cannabis podem não gerar os mesmos efeitos, devido a variações de dose, formulação e metabolismo, e reforçam que qualquer uso terapêutico deve ocorrer apenas com orientação médica.

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