Filha relata horror ao ver mãe morrer após injeções de desinfetante em UTI do DF
Entre as vítimas está Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, que estava hospitalizada por constipação e apresentava quadro clínico estável
247 - A investigação sobre a morte de pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital particular do Distrito Federal ganhou novos e graves detalhes com o depoimento de familiares das vítimas. Um técnico de enfermagem foi preso acusado de matar ao menos três pessoas após injetar substâncias proibidas diretamente na veia dos pacientes. O caso foi revelado em reportagem exibida pelo Fantástico.
Entre as vítimas está Miranilde Pereira da Silva, de 75 anos, que estava hospitalizada por constipação e apresentava quadro clínico estável antes dos procedimentos irregulares.Segundo a perícia, Miranilde sofreu quatro paradas cardíacas provocadas por substâncias injetadas pelo técnico de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, de 24 anos. A filha da vítima, Kássia Leão, acompanhou parte do que ocorreu dentro da UTI e descreveu o choque ao compreender o que estava acontecendo.“Eu pensando que ele estava salvando a minha mãe, ele estava matando cada vez mais a minha mãe”, afirmou
.Imagens das câmeras de segurança do hospital mostram Miranilde consciente e conversando na manhã de 17 de novembro. Cerca de uma hora depois, segundo a investigação, o técnico acessou o sistema hospitalar utilizando a senha de médicos que não estavam de plantão para registrar, de forma irregular, a prescrição de cloreto de potássio, uma substância controlada e sem indicação clínica para a paciente.
Após retirar o medicamento na farmácia da UTI, Marcos Vinícius aplicou a primeira injeção. Miranilde sofreu uma parada cardíaca, foi reanimada pela equipe médica e sobreviveu. Cerca de 40 minutos depois, uma segunda aplicação provocou nova parada cardiorrespiratória. A paciente foi novamente reanimada, enquanto familiares acompanhavam a situação dentro do hospital.
“Cada reanimação ele aplicava alguma coisa até mesmo na frente dos médicos e ninguém percebia nada”, relatou Kássia.Ainda de acordo com a perícia, o técnico retornou ao leito da paciente e realizou uma terceira aplicação, causando mais uma parada cardíaca, da qual Miranilde também foi salva. Em seguida, ele injetou um desinfetante, provocando uma quarta parada. Após nova aplicação da mesma substância, a paciente morreu.“Nossa família ela está destruída”, disse a filha Cátia.
Especialistas ouvidos pelo Fantástico explicam que o cloreto de potássio, quando administrado sem indicação ou de forma inadequada, pode causar arritmias fatais. “Primeira questão, ela não tinha indicação médica de uso dessa substância, em nenhum dos exames ou do quadro clínico que ela apresentava. Um grande dano que ele pode causar o organismo são as arritmias cardíacas graves. A depender da concentração que é feita, a depender da velocidade que é feita, ele para o coração”, explicou Alexandre Amaral, presidente da Associação de Medicina Intensiva Brasileira no DF.
Outras duas mortes também são atribuídas ao mesmo técnico. Na noite do dia 17 de novembro, segundo a investigação, ele aplicou cloreto de potássio e desinfetante em João Clemente, que morreu na madrugada seguinte. A terceira vítima foi o carteiro Marcos Raimundo Moreira, internado em 18 de novembro com suspeita de pancreatite, que morreu após sofrer uma parada cardíaca depois de receber uma injeção do técnico.As investigações apontam que Marcos Vinícius contou com a participação ou omissão de outras duas técnicas de enfermagem, Marcela Camilly Alves da Silva, de 22 anos, e Amanda Rodrigues de Sousa, de 28, que também foram presas. O hospital abriu sindicância interna e concluiu que as mortes tinham relação direta com a atuação dos profissionais.
“Ele, toda vez que injetou alguma medicação na veia dos pacientes, em segundos elas apresentaram paradas cardíacas”, afirmou o delegado Wislley Salomão, responsável pelo caso.A perícia também confirmou que o técnico injetou desinfetante em mais de um paciente. Inicialmente, acreditava-se que o produto havia sido aplicado apenas em Miranilde, mas a análise das imagens de outro leito da UTI revelou a mesma conduta em João Clemente.“
A consequência disso é um choque circulatório, ou seja, uma pressão muito baixa para esses pacientes, consequentemente uma parada cardíaca imediata”, explicou Alexandre Amaral.Marcos Vinícius está preso temporariamente no complexo da Polícia Civil do Distrito Federal. Em depoimento, negou inicialmente os crimes, mas confessou após ser confrontado com as imagens das câmeras. Segundo o delegado, o técnico apresentou versões consideradas inconsistentes para justificar os atos.As duas técnicas presas foram encaminhadas à penitenciária feminina.
“As duas presenciam o técnico injetando tanto a medicação quanto o produto diretamente na veia dos pacientes e não fizeram nada para impedir aquele resultado”, disse Salomão.Em nota, o Hospital Anchieta afirmou que se solidariza com as famílias das vítimas e que os atos investigados foram condutas individuais, praticadas à revelia da instituição, com acionamento imediato das autoridades. O Conselho Regional de Enfermagem do Distrito Federal declarou preocupação com a repercussão do caso e alertou para generalizações que atingem profissionais éticos da área.


