GDF investe R$ 167 milhões no Cartão Gás e garante crédito bimestral a famílias em vulnerabilidade no DF
Programa criado na pandemia virou política contínua, já alcançou 1.672.923 famílias e oferece R$ 100 a cada dois meses para compra do botijão de 13 kg
247 – Quando o crédito do Cartão Gás é liberado, Maria do Socorro de Lima sente o peso do mês diminuir. Moradora da Vila Buritis, em Planaltina, ela afirma que o benefício de R$ 100 a cada dois meses ajuda a manter o sustento da casa sem a angústia de escolher entre o gás de cozinha e outras necessidades básicas.
A história foi relatada em reportagem da Agência Brasília, que detalha o alcance do programa e o volume de recursos destinados à política pública: mais de R$ 167 milhões investidos desde 2021, em uma iniciativa que nasceu como resposta à crise social e econômica da pandemia de covid-19 e passou a integrar, de forma permanente, a rede de proteção social do Distrito Federal.
Maria do Socorro conta que recebe o benefício desde 2022 e explica como a renda familiar é composta. "Eu recebo o benefício desde 2022, e o dinheiro do gás ajuda muito. A renda da nossa família vem do meu esposo, que trabalha com bicos de ajudante de pedreiro, e da Clarinha, que tem autismo e recebe o BPC [Benefício de Prestação Continuada]", diz a dona de casa, referindo-se à filha Ana Clara, de 19 anos.
A rotina alimentar, segundo ela, segue o básico, mas é organizada para que nada falte. Café da manhã com cuscuz, almoço com arroz, feijão e carne ou ovo, e, à noite, o macarrão que Ana Clara prefere, com molho de cenoura. É nesse cotidiano, feito de escolhas pequenas e contas grandes, que o botijão de gás deixa de ser um “luxo” e se torna, novamente, o que sempre foi: um item essencial.
Um alívio que cabe no orçamento
Na prática, o Cartão Gás representa previsibilidade para famílias que vivem com orçamento apertado e renda variável. Para Maria do Socorro, a diferença é clara. "Antes de receber o Cartão Gás, a gente tinha que economizar de todo jeito para juntar o dinheiro, porque sem gás ninguém vive", relata.
A frase resume um dilema recorrente em lares de baixa renda: o custo do gás pode empurrar famílias para improvisos perigosos, para atrasos em outras contas ou para escolhas que afetam diretamente a alimentação. Ao garantir um crédito bimestral, o programa busca reduzir esse tipo de insegurança e, ao mesmo tempo, preservar a dignidade de quem precisa cozinhar todos os dias.
De resposta emergencial a política contínua
O programa foi criado como medida emergencial para enfrentar as consequências sociais e econômicas da pandemia de covid-19, período em que muitas famílias passaram a lidar com desemprego, queda de renda e aumento da vulnerabilidade. Com o passar do tempo, porém, a política ganhou caráter contínuo, sustentada pelo entendimento de que a proteção social precisa ser permanente, sobretudo quando se trata de um bem básico para preparar alimentos.
Segundo os dados do próprio programa, desde agosto de 2021 o Cartão Gás beneficiou 1.672.923 famílias em todo o Distrito Federal. O crédito é de R$ 100 a cada dois meses, destinado à compra do gás liquefeito de petróleo (GLP) em embalagem de 13 kg.
“Combate à pobreza e enfrentamento da fome”, diz subsecretário
A dimensão social do Cartão Gás é destacada pelo subsecretário de Assistência Social, Coracy Chavante. Ele aponta que a iniciativa não se limita a um auxílio de consumo, mas se conecta diretamente à segurança alimentar e à redução de riscos.
"O auxílio financeiro surgiu em uma situação emergencial, quando muitas famílias se queimavam ao cozinhar com lenha e carvão. Com o gás, as pessoas conseguem preparar seus alimentos de forma segura, saudável e digna. O Cartão Gás atua tanto no combate à pobreza quanto no enfrentamento da fome", afirma Coracy Chavante.
A declaração reforça um ponto central: a política pública, ao garantir gás de cozinha, protege o direito à alimentação e reduz o risco de acidentes domésticos associados a formas alternativas de preparo de comida, especialmente em contextos de pobreza extrema.
Coracy também ressalta a importância do benefício para quem enfrenta vulnerabilidade social grave, com impactos diretos no orçamento doméstico. "Para as famílias que têm uma situação grave de vulnerabilidade social esse benefício é muito importante, porque ele assegura o acesso a esse bem de consumo que é o gás e complementa [o orçamento doméstico] com outros programas de transferência de renda do Distrito Federal", diz.
Como o Cartão Gás funciona no DF
Atualmente, o programa é gerido pela Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF). Cabe à pasta selecionar os beneficiários e credenciar as empresas que participam do Cartão Gás, garantindo o funcionamento da política e a rede de estabelecimentos habilitados para atender quem recebe o crédito.
Um dos pontos centrais do modelo é a concessão automática. Isso significa que a família não precisa fazer solicitação específica para entrar no programa. A seleção é feita com base nos dados do Cadastro Único, a partir das informações declaradas e dos critérios definidos.
Esse formato procura reduzir burocracias e barreiras de acesso, especialmente para famílias que já enfrentam dificuldades de documentação, deslocamento e tempo para buscar serviços presenciais.
Quem pode receber o benefício
Para ter direito ao Cartão Gás no Distrito Federal, é necessário atender aos critérios informados pela gestão do programa. Entre eles estão:
- Estar inscrito no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal
- Possuir renda familiar per capita de até meio salário mínimo
- Ter declarado comprometimento de renda com aquisição de gás liquefeito de petróleo (GLP) no respectivo registro do Cadastro Único
- Morar no Distrito Federal
- Não se encontrar em situação de rua ou acolhimento institucional coletivo
- Ter idade igual ou superior a 16 anos
A concessão é feita automaticamente, desde que a família esteja cadastrada no Cadastro Único do DF e cumpra os demais requisitos. Na lógica da política, a atualização correta das informações no Cadastro Único se torna um passo decisivo para que o público-alvo seja efetivamente alcançado.
Investimento público e impacto direto na vida real
Com mais de R$ 167 milhões investidos desde 2021, o Cartão Gás se consolida como um instrumento de proteção social com efeito concreto no cotidiano das famílias. O valor do crédito pode parecer pequeno à primeira vista, mas, para quem vive com renda apertada, ele muda a forma de organizar o mês, libera recursos para outras despesas essenciais e reduz o risco de insegurança alimentar.
A experiência de Maria do Socorro explicita esse impacto sem necessidade de números adicionais: o benefício não é apenas um repasse, mas um fator de estabilidade mínima em um orçamento que já nasce instável. Entre o gás e o prato feito, o programa busca impedir que o fogão deixe de acender — e, com isso, que a mesa fique vazia.
Ao transformar uma medida emergencial em política contínua, o Distrito Federal reforça uma mensagem: enfrentar a pobreza e a fome exige ações objetivas, capazes de chegar à cozinha de quem mais precisa, com segurança, regularidade e respeito à dignidade das famílias.


