Mãe denuncia sumiço de filha em mesmo hospital que enfermeiros injetaram desinfetante em pacientes
Ela deu entrada no Hospital Anchieta em 26 de abril de 2023 após apresentar sangramento durante a gestação
247 - Após a revelação de mortes em série na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga (DF), a auxiliar administrativa Alyne Pereira, de 32 anos, decidiu tornar pública uma denúncia que carrega desde 2023: o desaparecimento do corpo de sua filha recém-nascida por quase três meses após o parto realizado na mesma unidade de saúde. O relato foi publicado pelo Metrópoles, em entrevista concedida pela mãe.
Alyne afirma que resolveu falar agora por entender que o caso pode ajudar a alertar outras mulheres. “Eu entrei em depressão por conta de tudo isso que eu passei e vi agora uma série de erros que eles estão cometendo. E falei para mim mesma, eu vou falar a todos o que aconteceu comigo para nenhuma mãe passar pelo que eu passei dentro daquele hospital, alertar todas as mães”, disse.
Ela deu entrada no Hospital Anchieta em 26 de abril de 2023 após apresentar sangramento durante a gestação. Segundo relata, a partir daquele momento a gravidez passou a ser tratada como de risco pela equipe médica. “Me davam um remédio para me segurar, depois um remédio para soltar, tipo um abortivo. Teve um certo dia que eu quase morri. Se não fosse minha mãe comigo dentro do quarto, e pedir ajuda dos enfermeiros para entrar naquela hora… Eu não sabia nem o que tinha acontecido comigo”, contou.
Durante o período de internação, Alyne diz que pediu diversas vezes para que fosse realizada uma cesariana, mas que o médico responsável teria se recusado. “Eu pedi para o médico fazer uma cesárea em mim e ele falava que não, que era para deixar nascer pela lei da natureza”, afirmou.A internação se estendeu até 12 de maio de 2023, quando ela entrou em trabalho de parto e deu à luz por volta das 3h à bebê Alice Maria, com apenas seis meses de gestação. “Quando eu vi minha filha nascendo, ela nasceu com vida, respirando. Aí, só me mostraram ela com vida, tiraram ela da sala e me tiraram junto para ir à UTI. Desde então, nunca mais vi minha filha”, relatou.
Segundo a declaração de óbito, a recém-nascida morreu às 4h07 do mesmo dia. Alyne, no entanto, afirma que viu a filha respirando e que, mesmo assim, uma enfermeira informou que a bebê havia nascido sem vida. A mãe questionou sobre a liberação do corpo para sepultamento, mas diz que o pedido foi negado e que a família não recebeu orientações nem pôde acompanhar os profissionais que levaram a criança para outra sala. “Ninguém falou nada. Minha mãe até perguntou se poderia enterrar a neném, mas falaram que não poderia”, disse.
Após deixar a UTI, onde permaneceu por dois dias devido a uma infecção pós-parto, Alyne voltou a pedir informações sobre o corpo da filha e foi informada de que ele não havia sido encontrado no hospital. Segundo ela, durante todo o período de internação, a família não recebeu esclarecimentos sobre o paradeiro da bebê e, ao tentar obter a certidão de óbito, teve o pedido negado. “Aí foi a luta, que depois que eu saí da UTI, fui atrás. Cadê o corpo dela? Ninguém sabia me explicar onde é que estava o corpo. Quando eu fui lá, ninguém sabia. Falaram que era um erro administrativo, sendo que tinham meu contato, da minha mãe, do pai da neném”, afirmou.
Quase três meses depois, Alyne foi chamada para uma reunião com a direção do hospital e informada de que o corpo havia sido localizado. Segundo o relato, a bebê estava em um “saco plástico com formol”. O hospital teria alegado uma “confusão administrativa” e, somente após a reunião, o corpo foi encaminhado ao Instituto de Medicina Legal (IML).O laudo do IML registra que o corpo chegou ao instituto “acondicionado em saco plástico com líquido transparente com odor típico de formol” e concluiu como “morte de causa a esclarecer”. O órgão solicitou exame de DNA para confirmação da maternidade, cujo resultado só foi divulgado em 1º de fevereiro de 2024, nove meses após o parto, apontando compatibilidade genética de 99,99% entre Alyne, o pai e a bebê.
Mesmo com a confirmação, a família precisou acionar novamente a Justiça para obter a liberação do corpo. O enterro só ocorreu em maio de 2024, exatamente um ano após o nascimento. Alyne afirma que todo o processo foi extremamente doloroso e que desenvolveu depressão em decorrência do caso. “Desde aquele dia, que ele [médico] falou para deixar nascer pela lei da natureza, aquilo me machucou bastante porque ela já ia nascer prematura, então ela forçou para nascer”, contou.
Ela também relata a angústia vivida durante o período em que o corpo da filha esteve desaparecido. “O que mais me dói é que eu vi ela respirando e logo em seguida o corpo sumiu. Eu fiquei imaginando várias coisas. Será que realmente morreu? Está viva? O que aconteceu com ela? E porque logo em seguida não me entregaram o corpinho dela?”, disse.O caso é acompanhado pelas advogadas Lays Lopes e Maria Fernanda desde agosto de 2024.
Segundo Lays, após Alyne se sentir preparada para falar sobre o assunto, foi ajuizada ação judicial e houve tentativa de conciliação. “O Hospital Anchieta não apresentou nenhuma proposta de acordo e foi marcada a instrução para esse ano. Então nós já estamos aí com pelo menos quase dois anos do processo ocorrendo, mas ainda sem uma expectativa de fato de que ele seja resolvido”, afirmou.
De acordo com a defesa, o inquérito policial havia sido arquivado e foi solicitada a reabertura junto ao Ministério Público. “Temos boas provas, temos testemunhas, então não há sentido algum ter um inquérito desse arquivado. Precisa haver uma investigação para a gente poder entender e trazer uma resposta para a Alyne do que de fato aconteceu com a filha dela”, destacou Maria Fernanda.
A expectativa é que a audiência marcada para abril, quando médicos e enfermeiros envolvidos serão ouvidos, traga novos esclarecimentos. “A audiência está marcada para abril e os médicos que participaram, os ginecologistas, obstetras que participaram do momento vão ser ouvidos ali no momento da audiência, nós questionaremos e acredito que muitas respostas virão depois dessa audiência de instrução”, declarou.
Procurado, o Hospital Anchieta informou que não irá se pronunciar sobre o caso. Enquanto isso, a família segue aguardando que a investigação esclareça as circunstâncias da morte da recém-nascida e, principalmente, como foi possível que o corpo permanecesse desaparecido por meses dentro do sistema de saúde.


