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Caso de crianças desaparecidas em Bacabal completa 1 mês repleto de mistérios e pistas vazias

O desaparecimento ocorreu em 4 de janeiro, quando Ágatha, Allan e o primo Anderson Kauan, de 8 anos, saíram de casa para brincar

Isabelle, de 6 anos, e Michael, de 4 (Foto: Reprodução)

247 - As buscas pelos irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4, completam um mês nesta quarta-feira (4) sem qualquer pista concreta sobre o paradeiro das crianças, desaparecidas em Bacabal, no interior do Maranhão. A apuração segue em curso e reúne depoimentos, reconstruções e análises técnicas, mas ainda não há conclusão. As informações foram divulgadas pelo g1.

Em entrevista ao portal, o delegado-geral adjunto operacional da Polícia Civil, Ederson Martins, integrante da força-tarefa, afirmou que o inquérito avançou em volume e complexidade. “Já temos 30 dias de investigação, uma investigação bem robusta, com muitas páginas e dezenas de pessoas ouvidas”, disse. Segundo ele, a comissão especial criada para o caso — com dois delegados de São Luís e uma delegada de Bacabal — já produziu um inquérito que ultrapassa 200 páginas.

Imagens obtidas mostram o estágio atual das buscas, com equipes do Corpo de Bombeiros e do Exército realizando varreduras em áreas de mata e pontos alagados. Em outra frente, bombeiros acompanhados de cães farejadores atuam às margens do rio Mearim, na tentativa de encontrar qualquer vestígio que indique o caminho seguido pelas crianças.

De acordo com Ederson Martins, a investigação inclui reconstruções e análises técnicas de diferentes etapas do desaparecimento. “Temos a reconstrução do trajeto do carroceiro, desde o local onde ele foi localizado até a entrega no povoado, além da reconstrução do local onde as crianças estiveram juntas pela última vez, com a participação, inclusive, de um menor, após autorização judicial”, explicou.

A Polícia Civil também está reunindo relatórios de todas as forças envolvidas nas buscas. “Estamos requisitando todos os relatórios das forças que participaram, inclusive das equipes que utilizaram cães e canoas. Esses documentos serão utilizados como prova material, tendo em vista a expertise dos cães”, destacou o delegado. Segundo ele, Corpo de Bombeiros, Marinha e Exército repassarão toda a documentação produzida durante as operações.

Questionado sobre a divulgação de novos detalhes, Martins afirmou que, por ora, a polícia se limita ao que já foi tornado público. “O que dá para ser divulgado é o que já foi veiculado, que foi a última localização das crianças na casa caída. A partir dali, preferimos não repassar mais informações para não atrapalhar as investigações”, disse. Ele reforçou que a conclusão só virá após o esgotamento de todas as linhas de apuração: “Só podemos dar uma conclusão no inquérito policial após esgotar todas as linhas e ter realmente a verdade real do que ocorreu”.

O desaparecimento ocorreu em 4 de janeiro, quando Ágatha, Allan e o primo Anderson Kauan, de 8 anos, saíram de casa para brincar no Quilombo de São Sebastião dos Pretos, em Bacabal. Três dias depois, Anderson foi encontrado por carroceiros em uma estrada do povoado Santa Rosa. As duas crianças menores continuam desaparecidas.

Nos primeiros 20 dias de operações, a força-tarefa percorreu mais de 200 quilômetros por terra e por água, incluindo áreas de mata fechada e de difícil acesso. A Marinha informou ter realizado buscas ao longo de 19 quilômetros do rio Mearim, com cinco quilômetros vasculhados de forma minuciosa. Em 23 de janeiro, as buscas entraram em nova fase, com redução das varreduras na mata e maior foco na investigação policial, após a conclusão da cobertura das áreas inicialmente mapeadas.

Mais de mil pessoas, entre agentes de forças estaduais e federais e voluntários, participaram das ações. Seguem mobilizados investigadores da Polícia Civil, equipes da Força Estadual Integrada de Segurança Pública, do Centro Tático Aéreo, do Batalhão de Choque da Polícia Militar, do Exército e do Corpo de Bombeiros. A base da operação permanece no quilombo São Sebastião dos Pretos, onde as crianças moravam e foram vistas pela última vez.

O primo Anderson Kauan, que ficou cerca de três dias perdido na mata, recebeu autorização judicial para participar das buscas e ajudou a reconstituir o trajeto. Segundo o menino, eles saíram para buscar maracujá perto da casa do pai dele e, para não serem vistos por um tio, entraram por outro caminho na mata, tentando dar a volta por dentro do matagal. A partir daí, o grupo teria se perdido. Ele afirmou que não foram acompanhados por nenhum adulto e que não encontraram frutas para comer.

Uma das principais referências indicadas pelo menino foi uma estrutura abandonada descrita como “uma casa caída”, com uma cadeira, botas e um colchão velhos. As equipes e os cães confirmaram a passagem das crianças pelo local. “Os cães farejadores sentiram o cheiro dessas três crianças, inclusive da forma como o próprio Kauã descreveu”, afirmou Maurício Martins, secretário de Estado de Segurança do Maranhão. Ali teria ocorrido a separação: Anderson seguiu por um lado da choupana, enquanto Ágatha e Allan foram por outro. “Ele não fala se ele seguiu para procurar ajuda ou para tentar voltar ao ponto inicial. As duas outras crianças já estavam extenuadas e ele resolveu seguir”, disse Ederson Martins.

Segundo os bombeiros, o ponto fica a cerca de 3,5 quilômetros em linha reta da comunidade, mas, considerando trilhas, lagoas e áreas de mata, a distância percorrida pode chegar a aproximadamente 12 quilômetros. Para as buscas, foram usados cães farejadores, mergulhadores, botes, lanchas, drones com câmeras termais e duas aeronaves do Centro Tático Aéreo. No leito do rio Mearim, a Marinha empregou o side scan sonar, capaz de identificar objetos submersos mesmo em águas turvas.

A força-tarefa também acionou o protocolo Amber Alert, sistema internacional para casos de desaparecimento de crianças, que emite alertas em plataformas como Facebook e Instagram em um raio de até 200 quilômetros do local do sumiço. O alerta é ativado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e é usado de forma excepcional, quando há indícios de risco grave.

A Polícia Civil desmentiu boatos que circularam nas redes sociais, como a suposta existência de R$ 35 mil em conta ligada à mãe das crianças e a ideia de que ela e o companheiro teriam sido indiciados. Segundo Ederson Martins, essas informações são falsas e colocam a família em risco. “Essa informação (que as crianças foram vendidas) não procede, infelizmente com tanta informação falsa, estão colocando a família das crianças em constante risco”, afirmou. De acordo com a polícia, a mãe e o padrasto não são foco da investigação até o momento.

Outra linha descartada foi a de que as crianças teriam sido vistas em um hotel no centro de São Paulo. A Polícia Civil paulista informou que equipes foram aos endereços citados e constataram que as crianças encontradas não eram Ágatha e Allan. Em nota, a SSP-SP afirmou: “A Polícia Civil, por meio da Divisão Antissequestro do DOPE, esclarece que não procede o fato das crianças citadas terem sido encontradas em São Paulo. Os policiais da divisão, cientes da denúncia, foram aos endereços informados e constataram que as crianças ali presentes não são as mesmas que estão desaparecidas”.

Sem vestígios materiais até agora, a investigação segue aberta e concentrada em cruzar depoimentos, relatórios técnicos e resultados das buscas. A polícia afirma que novas diligências podem ser retomadas em locais específicos caso surjam indícios concretos, enquanto as famílias aguardam respostas sobre o paradeiro das crianças.

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