Comando Vermelho tentou lançar candidato próprio em Maceió
Áudio atribuído a Nem Catenga aponta articulação para lançar nome ligado à facção na capital alagoana
247 - Um áudio atribuído pela Secretaria de Segurança Pública de Alagoas a José Emerson da Silva, conhecido como Nem Catenga, aponta uma suposta articulação do CV (Comando Vermelho) para lançar um candidato próprio à Câmara de Vereadores de Maceió (AL) na eleição municipal de 2024, com o objetivo de ampliar a influência política da facção na capital alagoana. Órgãos oficiais de inteligência apontaram atuação do CV em pelo menos 25 estados brasileiros, conforme dados estatísticos divulgados em 25 de outubro do ano passado. As informações foram publicadas pela coluna de Carlos Madeiro, no Portal Uol.
Investigadores apontaram Nem Catenga é apontado como líder do CV em Alagoas e está foragido. A polícia acredita que ele esteja escondido no Rio de Janeiro, mais precisamente no Morro do Alemão. No áudio divulgado pela SSP-AL, ele conversa sobre eleição com o influenciador conhecido como PTK e afirma que o grupo buscava uma representação direta.
"Pra nós ter uma voz ativa maior e trazer os benefícios que a comunidade almeja, com pessoas nossas que vai nos representar", diz Nem Catenga no áudio atribuído a ele pela SSP-AL.
A gravação, cuja data exata não foi informada, indica que a liderança da facção queria reorganizar sua relação com a política local após a disputa de 2024. Na conversa, Nem Catenga cita seu irmão, identificado como Missionário, que não foi implicado na operação, e afirma que o grupo não queria mais depender de políticos.
"Após essa eleição [de 2024] e nas próximas, o Missionário [irmão de Nem] não quer mais saber de político, entendeu? Então assim, nós vai (sic) ter que ter um representante nosso aí, para dar continuidade e continuar sendo nossa voz ativa, independentemente de A e de B. Eu já estou conversando com todos na comunidade. Pessoalmente você vai pegar a visão melhor", afirma o áudio atribuído pela SSP-AL a Nem Catenga.
Investigação cita ida de PTK ao Rio
De acordo com a investigação, PTK teria ido ao Rio de Janeiro e acertado a candidatura. Na ocasião, segundo a polícia, ele fez fotos exibindo o símbolo do CV. O influenciador possui passagens pela polícia por acusações de atentado violento ao pudor, porte ilegal de arma e tráfico de drogas.
A coluna de Carlos Madeiro no UOL informou que buscou a defesa de PTK, mas que o influenciador ainda não tinha advogado constituído até a publicação da reportagem original.
No áudio, Nem Catenga pede que PTK escolha o dia para a compra da passagem. "Vamos precisar do seu apoio mais uma vez", afirma o líder do CV, segundo a gravação divulgada pela SSP-AL.
Operação cumpriu mandados em AL e no Rio
A Polícia Civil informou que a operação cumpriu 21 mandados de prisão, 30 mandados de busca e apreensão e outras medidas cautelares. As ordens foram expedidas pela 17ª Vara Criminal da Capital.
Os alvos da ação, segundo a polícia, são integrantes da facção em Maceió, em Marechal Deodoro, em Alagoas, e no Rio de Janeiro. A investigação apura a atuação do grupo e suas conexões entre os dois estados.
A suspeita de tentativa de participação direta no processo eleitoral amplia o alcance da apuração, que não se limita às atividades criminosas atribuídas à facção, mas também investiga uma possível estratégia para ocupar espaço institucional por meio de candidatura própria.
Comando Vermelho
Criado no Rio de Janeiro na década de 1970, o Comando Vermelho se consolidou como uma das principais facções criminosas do Brasil, ao lado do Primeiro Comando da Capital (PCC), fundado em 1993 no estado de São Paulo. O CV possui ramificações em mais de 20 estados brasileiros.
No início, a organização recebeu o nome de "Falange Vermelha". Sua criação é atribuída a William da Silva Lima, conhecido como "Professor". A proposta inicial era formar uma organização voltada ao enfrentamento da tortura e dos maus-tratos dentro dos presídios.
Entre 1981 e 1986, a facção ampliou sua rede varejista de drogas nas favelas do Rio de Janeiro. Um dos fatores que contribuíram para essa expansão no comércio foi uma medida anunciada pelo governo fluminense em 1983, quando as operações policiais nas favelas do estado foram suspensas. Em 1985, o CV controlava 70% dos pontos de venda em um mercado amplo e lucrativo. Em 1994, ocorreu o que, segundo criminosos, teria sido uma das maiores traições no mundo do tráfico.
Ernaldo Pinto de Medeiros, conhecido como Uê, assassinou Orlando Jogador, liderança do CV no Complexo do Alemão. O crime ocorreu por divergências sobre a forma de conduzir o tráfico.
Depois do homicídio, Uê fundou os Amigos dos Amigos (ADA) no Morro do Adeus, vizinho ao Alemão, e iniciou uma disputa que se estenderia até setembro de 2002. A violência entre CV e ADA arrefeceu após a instalação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) nos morros do Rio de Janeiro.
Com a queda no movimento de drogas, antigos adversários se uniram. O Complexo do Alemão e a Vila Cruzeiro, local para onde fugiu grande parte dos traficantes expulsos, são considerados o quartel-general do CV.
Poderio econômico
A pesquisa Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil apontou que facções como CV e PCC movimentaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com a comercialização de combustível, ouro, cigarros e bebidas.
No mesmo período, a movimentação financeira do tráfico de cocaína foi estimada em R$ 15 bilhões. Os dados foram divulgados pelo jornal O Estado de S.Paulo. Assim como o CV, o PCC atua em mais de 20 estados brasileiros.



