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Família aponta omissão médica no Recife após paciente sofrer dano cerebral grave

Relatório pericial indica falhas no monitoramento durante procedimento simples em hospital da Rede D’Or em Pernambuco

Família aponta omissão médica no Recife após paciente sofrer dano cerebral grave (Foto: Pixabay)

247 - Familiares de Camila Miranda de Wanderley Nogueira de Menezes, de 38 anos, afirmam que houve omissão médica durante uma cirurgia eletiva realizada no Hospital Esperança, no Recife, que resultou em dano cerebral grave e irreversível. Internada em 27 de agosto de 2025 para retirada da vesícula biliar e correção de hérnia inguinal, procedimentos considerados de baixa complexidade, Camila sofreu sucessivas falhas respiratórias após a aplicação de anestesia geral e permanece internada em estado grave desde então. As informações são da Folha de São Paulo.

Segundo uma pericia independente contratada pela família,  a paciente apresentou sete episódios consecutivos de apneia, culminando em uma parada cardiorrespiratória prolongada, sem que houvesse intervenção adequada da equipe médica durante o período crítico.

Os alertas emitidos pelo monitor multiparamétrico teriam sido ignorados pelas médicas responsáveis, enquanto a cirurgia prosseguia normalmente. O equipamento teria registrado quedas abruptas da saturação de oxigênio por dezenas de vezes ao longo de 27 minutos, indicando risco iminente à vida da paciente.

Camila sofreu lesões cerebrais severas, perdeu funções cognitivas e motoras e permanece internada na UTI desde o procedimento. Servidora da Justiça em Pernambuco, ela é filha do juiz federal Roberto Nogueira, do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, casada e mãe de dois filhos. “Ela não fala, não anda, não vê. Respira sozinha, mas perdeu as partes cognitiva e locomotora”, afirmou o pai. “Quando eu fico com ela, a olho o tempo todo. É como se fosse um bebê de novo.”

Imagens das câmeras de segurança do hospital mostram Camila chegando caminhando à unidade por volta das 5h, acompanhada do marido, o médico Paulo Menezes. A internação foi registrada às 5h24. Segundo a perícia, o primeiro alerta de apneia ocorreu às 10h47, indicando “problema grave: desconexão, obstrução ou falha ventilatória”. O laudo aponta que, já nesse momento, a paciente permaneceu 1 minuto e 42 segundos sem respirar, situação classificada como de alta prioridade clínica.

A segunda apneia foi registrada às 10h56. O relatório descreve o quadro como “problema ventilatório recorrente não resolvido”, com queda da saturação de oxigênio de 88% para 61% em pouco mais de um minuto. O médico Leonardo Queiroga Marinho, responsável pela perícia, afirmou à Folha que a ausência de resposta imediata indica possível erro grave por omissão, embora ressalte que a responsabilização cabe aos órgãos competentes.

“Todas as informações, como pressão e saturação, são mostradas no monitor para o médico acompanhar instantaneamente. Esse equipamento tem vários sensores, alarmes visuais e é primordial para procedimentos cirúrgicos”, disse Queiroga. “Essas informações ficam registradas em um cartão de memória, sob o controle do fabricante, que repassa em casos de solicitação do hospital. Com acesso a esse equipamento, conseguimos fazer a análise do quadro segundo a segundo.”

O laudo detalha que a terceira apneia ocorreu às 11h04, descrita como “problema ventilatório crônico não resolvido há mais de 17 minutos”. Em seguida, novos episódios foram registrados às 11h05 e às 11h08, quando a saturação atingiu 22%, índice classificado como incompatível com a atividade cerebral. Às 11h11, o nível caiu para 5%. Às 11h16, Camila entrou em parada cardiorrespiratória, permanecendo sem sinais vitais por cerca de 15 minutos, até ser reanimada às 11h33. Ela ainda apresentou nova apneia antes de ser transferida para a UTI, às 12h42.

As imagens internas do hospital também mostram a anestesiologista Mariana Parahyba ao lado da equipe de enfermagem durante a transferência, utilizando o celular com uma das mãos enquanto manuseava o ambu com a outra.

A família denunciou uma das médicas ao Conselho Regional de Medicina de Pernambuco (Cremepe). Em nota, o órgão informou que apura “todas as denúncias recebidas” e que as sindicâncias tramitam sob sigilo processual. O advogado Igor Cesar Rodrigues, que representa os familiares, afirmou que uma ação judicial também está em preparação. “Nós queremos que todos os crimes cometidos no decorrer desse procedimento desastroso sejam apurados, bem como reaver os danos materiais decorrentes”, disse.

Rodrigues sustenta que houve dolo na condução do caso. “A cirurgia seguiu com a paciente praticamente morta ali na mesa. Defendemos que é uma conduta dolosa. É como pegar um carro em uma avenida movimentada, avançar o sinal vermelho, causar um acidente e continuar avançando”, comparou.

O Hospital Esperança, por meio de sua assessoria, declarou que as médicas envolvidas não integram o corpo clínico da unidade e foram escolhidas pela própria paciente. A instituição afirmou ainda que prestou “todo o suporte necessário assim que tomou conhecimento da intercorrência” e reiterou “seu compromisso permanente com a qualidade assistencial, ética, transparência e, sobretudo, com a segurança de seus pacientes”.

A defesa da cirurgiã Clarissa Guedes Noronha declarou que a médica atuou com “absoluta precisão” durante o procedimento e que não houve falhas no ato cirúrgico. “Portanto, inexiste nexo de causalidade entre o agir de Clarissa Guedes e o dano neurológico sofrido pela paciente. É fundamental ressaltar que a função do cirurgião exige concentração absoluta no campo operatório, sendo o monitoramento uma responsabilidade da anestesiologia”, afirmou.

Já a defesa da anestesiologista Mariana Parahyba informou inicialmente que se manifestaria posteriormente, mas, até a última atualização do caso, disse que não se pronunciaria no momento.

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