Área de colisão no RJ operava sem controle de voo
A área do Recreio dos Bandeirantes é considerada sensível
247 - O espaço aéreo onde dois helicópteros colidiram no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, não conta com controle direto de tráfego aéreo e funciona pelo sistema de autocoordenação entre pilotos. A região, marcada pela confluência de rotas e pela presença de diferentes tipos de aeronaves, voltou ao centro do debate sobre segurança operacional após o acidente registrado no domingo, 14 de junho, as informações são da CNN Brasil.
Segundo a reportagem, embora o local tenha rotas definidas, não há atuação permanente de controladores de voo orientando as aeronaves naquele trecho. Nessa configuração, os pilotos devem seguir as normas gerais da aviação, manter comunicação na frequência adequada e respeitar os parâmetros de operação previstos para voos visuais e por instrumentos.
A área do Recreio dos Bandeirantes é considerada sensível por concentrar diferentes atividades aéreas. Além de helicópteros, a região registra movimentação de parapentes, ultraleves e saltos de paraquedistas, o que aumenta a complexidade das operações e exige atenção redobrada dos pilotos.
A Polícia Civil investiga os planos de voo e a rota percorrida pelos dois helicópteros envolvidos na colisão. A apuração busca esclarecer as circunstâncias do acidente, incluindo a posição das aeronaves, a comunicação entre os pilotos e o cumprimento das regras aplicáveis ao espaço aéreo da região.
O acidente ocorreu próximo à Avenida das Américas, em um ponto fora da área controlada pela equipe de tráfego aéreo do Aeroporto de Jacarepaguá. A aeronave que colidiu havia partido desse aeroporto e levava o piloto Alexandre Souza, o cantor norte-americano Oliver Tree, os argentinos Lucas Vignale e Gaspar Prim, além do produtor musical Lucas Frota.
Na área controlada por Jacarepaguá, há orientação direta de tráfego aéreo. Fora desse perímetro, porém, os pilotos operam sob regras gerais, como as previstas no RBAC 91, norma que regula requisitos operacionais da aviação civil. Entre as obrigações estão o respeito às altitudes dos corredores visuais, aos pontos de notificação obrigatória e aos limites meteorológicos para cada tipo de voo.
A ausência de controle direto não significa, por si só, que o espaço aéreo seja irregular. No entanto, especialistas e entidades do setor apontam que regiões com alto volume de operações e diferentes perfis de aeronaves exigem procedimentos cada vez mais atualizados para reduzir riscos de conflito entre trajetórias.
Dados obtidos pela CNN Brasil mostram que o Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro registrou forte alta nos acionamentos para ocorrências envolvendo aeronaves neste ano. Em 2026, até o momento, foram contabilizados 12 atendimentos, contra três no mesmo período de 2025, o que representa aumento de 300%.
O caso também reacendeu comparações entre Rio de Janeiro e São Paulo. Na capital paulista, existe o Helicontrol, sistema implementado para monitoramento e controle de voos de helicópteros, sediado no Aeroporto de Congonhas. Apenas em 2025, o sistema registrou 39.581 voos.
No Rio, não há estrutura equivalente centralizada para o controle de helicópteros. A diferença entre os dois modelos entrou no debate após a colisão no Recreio, especialmente porque a área de Jacarepaguá é considerada uma das mais sensíveis do país para esse tipo de operação.
O governo do Rio de Janeiro preferiu não se manifestar. A Anac, Agência Nacional de Aviação Civil, informou que a responsabilidade sobre o tema é da FAB, Força Aérea Brasileira.
A FAB, por meio do Decea, Departamento de Controle do Espaço Aéreo, afirmou que o Helicontrol de São Paulo existe desde 2004 para atender a uma demanda específica. A instituição sustentou que "tanto em espaços aéreos controlados ou não controlados, ambos são seguros desde que as suas respectivas regras sejam cumpridas".
A FAB também afirmou que a implantação de um sistema diferente de controle não depende apenas da quantidade de voos. Segundo a instituição, o caso de São Paulo tem características próprias, relacionadas à concentração de helicópteros em área diretamente associada às aproximações e decolagens do Aeroporto de Congonhas.
"A diferença de volume, entretanto, não é, isoladamente, o critério para a implantação do HELICONTROL. O fator determinante em São Paulo é a concentração de helicópteros em uma área diretamente associada às aproximações e decolagens de Congonhas, especialmente durante fases críticas das operações de aeronaves de asa fixa", afirmou a FAB.
A Associação Brasileira de Pilotos de Helicóptero, a ABRAPHE, informou que acompanha os desdobramentos da investigação e colabora com autoridades do setor, entre elas o Decea. A entidade destacou que a aviação por helicópteros segue sendo uma atividade segura e altamente regulamentada, mas reconheceu a necessidade de aperfeiçoamento diante do crescimento da frota e da complexidade das operações.
"Neste contexto, a ABRAPHE já trabalha na elaboração de propostas voltadas ao estudo e aperfeiçoamento da circulação aérea nas regiões de Jacarepaguá (RJ) e Campo de Marte (SP), consideradas atualmente entre as mais sensíveis para a operação de helicópteros no País", afirmou a associação.
O acidente no Recreio dos Bandeirantes reforçou a discussão sobre a necessidade de atualização dos procedimentos de circulação aérea em áreas de grande movimentação. A investigação da Polícia Civil deverá apontar se houve falha operacional, descumprimento de regras de voo ou conflito de rota entre as aeronaves envolvidas.



