Intoxicação de piscina: a movimentação do dono da academia para se esquivar da polícia logo após morte de cliente
Juliana, de 27 anos, morreu no sábado (7), depois de participar de uma aula de natação na academia localizada na zona leste de São Paulo
247 - O manobrista da academia C4 Gym, Severino José da Silva, de 43 anos, responsável também pela manutenção da piscina onde a professora Juliana Faustino Bassetto morreu após uma aula de natação, afirmou à polícia que foi alertado pelo proprietário do local sobre as investigações. Segundo ele, o dono teria ligado no domingo (8) com a seguinte frase: “Vai, sai de casa que a polícia está batendo na porta de todo mundo”. As informações foram divulgadas pela TV Globo.
Juliana, de 27 anos, morreu no sábado (7), depois de participar de uma aula de natação na academia localizada na zona leste de São Paulo. Além dela, outros cinco alunos — entre eles um adolescente e o marido da vítima — apresentaram sinais de intoxicação e precisaram de atendimento médico. A principal suspeita das autoridades é que a manipulação de produtos químicos no ambiente fechado e com pouca ventilação tenha provocado o mal-estar coletivo.
Severino prestou depoimento na manhã desta terça-feira (10) no 42º Distrito Policial do Parque São Lucas, responsável pela investigação. Os proprietários da academia também foram chamados para prestar esclarecimentos. À polícia, o funcionário disse que tentou entrar em contato com o dono do estabelecimento assim que percebeu que os alunos estavam passando mal, ainda no sábado, mas não obteve resposta.
De acordo com o relato, o retorno do proprietário, identificado como Celso, só ocorreu no dia seguinte, às 14h11, quando a academia já havia sido esvaziada. Ao ser informado sobre o ocorrido, o dono teria respondido apenas: “Paciência”. Segundo Severino, a ligação em que foi alertado sobre a movimentação policial aconteceu por volta das 10h30 do domingo.
Após prestar depoimento, o manobrista falou rapidamente com a imprensa, acompanhado de sua advogada. “Tenho a declarar que sou funcionário da empresa, sigo ordens, e meu celular foi apreendido para averiguações. É isso que tenho para falar no momento.” A defesa do sócio da academia não foi localizada até a última atualização do caso.
No depoimento, Severino afirmou que trabalha há cerca de três anos na academia, com registro em carteira como manobrista, mas que também era responsável por abrir a unidade e realizar a manutenção das piscinas. Segundo ele, o acúmulo de funções era determinado pelo proprietário, que orientava o uso de produtos químicos por mensagens, a partir de fotos enviadas com os testes da água.
O funcionário declarou ainda que nunca recebeu treinamento técnico, habilitação específica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para manusear produtos químicos, apesar de realizar a manutenção rotineira da piscina. De acordo com ele, essa falta de preparo era de conhecimento do dono da academia. Severino contou que aprendeu o procedimento com o antigo manobrista, que já desempenhava a mesma função.
A rotina descrita à polícia consistia em medir os níveis da água, fotografar o resultado e enviar a imagem a Celso, que indicava quais produtos deveriam ser aplicados e em qual quantidade. Segundo o depoimento, na quinta-feira anterior ao incidente, o funcionário percebeu que a água estava turva e comunicou o proprietário. Na sexta-feira, após a última aula de natação, recebeu ordem para aplicar apenas cloro na piscina grande.
No sábado, a água continuava com aparência turva. Mesmo com alunos dentro da piscina, o dono teria solicitado nova testagem e orientado a aplicação de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60. Severino afirmou que não chegou a despejar o produto diretamente na piscina. Segundo ele, preparou a solução em um balde com água da própria piscina, adicionou seis medidas de cloro e deixou o recipiente próximo à área da piscina, a cerca de dois metros da borda, antes de retornar ao trabalho como manobrista. Não há confirmação se alguém chegou a jogar o produto na piscina.
Cerca de dez minutos depois, o funcionário relatou ter percebido uma movimentação incomum no local e sentido um forte cheiro de cloro. Ele disse ter visto uma mulher sentada na recepção, amparada pelo marido, e um pai socorrendo o filho adolescente. Os professores foram avisados e retiraram os alunos da piscina. O próprio Severino afirmou ter apresentado dificuldade respiratória e irritação na garganta e nos olhos.
Uma viatura da Guarda Civil Metropolitana que passava pela rua foi acionada para ajudar no socorro. A recepcionista da academia fez ligações para o Samu e para o Corpo de Bombeiros, mas, segundo o depoimento, nenhuma viatura compareceu ao local, e as vítimas foram socorridas por meios próprios. Após o atendimento, o funcionário retirou o balde com o produto químico da área da piscina e o levou para a área externa. A academia foi evacuada e fechada em seguida.
Severino reforçou à polícia que o único produto utilizado por ele foi o HIDROALL Hiperclor 60, adotado recentemente por decisão do proprietário, que teria dito estar testando um novo tipo de cloro. Antes, segundo o depoimento, era utilizado outro produto. Ele também relatou que, cerca de um ano atrás, quando a piscina apresentou problemas, um técnico foi chamado para regularizar a situação da água, ofereceu serviço permanente, mas o dono teria recusado e mantido a responsabilidade com o funcionário.
A academia informou, por meio de publicação nas redes sociais, que “lamentou profundamente o ocorrido em sua unidade no último sábado (07/02) e informa que prestou imediato atendimento a todos os envolvidos e que mantém contato direto com alunos e familiares para oferecer todo o suporte necessário”. A empresa também afirmou que está “colaborando integralmente com as autoridades competentes, contribuindo com todas as etapas da investigação em andamento”.
Sobre a regularidade de funcionamento, a direção declarou que possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), registro junto ao Conselho Regional de Educação Física (CREF) e alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. Os advogados da academia renunciaram ao caso e, até o momento, não foi localizado outro representante legal para comentar as investigações.

