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PCC cria setor de redes sociais e "corregedoria" interna

Relatório da inteligência da Polícia Civil de São Paulo descreve facção com 12 “sintonias”, núcleo digital e um “Raio X” para fiscalizar membros

PCC cria setor de redes sociais e "corregedoria" interna (Foto: Reuters)

247 - A Polícia Civil de São Paulo concluiu um novo organograma do Primeiro Comando da Capital (PCC) e identificou uma estrutura ainda mais sofisticada e segmentada da maior facção criminosa do país, com setores específicos para comunicação digital e até uma espécie de corregedoria interna para vigiar integrantes. A análise foi elaborada pelo Departamento de Inteligência Policial (Dipol) e mapeia mais de 100 nomes distribuídos em 12 “sintonias”, como são chamados os departamentos responsáveis por diferentes missões, informa Mirelle Pinheiro, do Metrópoles.

De acordo com o documento, apesar de 61 integrantes da cúpula estarem presos — muitos no sistema penitenciário federal — a facção mantém comando ativo e uma rede de ramificações que se estende pelo Brasil e por pelo menos 28 países, mantendo operações internas e internacionais.

Sintonia Final segue como comando máximo do PCC

No topo do organograma aparece a chamada Sintonia Final, descrita como o núcleo máximo de liderança da organização criminosa. O relatório aponta que o principal líder segue sendo Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, atualmente detido na Penitenciária Federal de Brasília.

Ao lado dele, aparecem outros nomes associados à cúpula, como Júlio César Guedes de Moraes (Julinho Carambola), Rinaldo Teixeira dos Santos (Funchal), Cláudio Barbará da Silva (Barbará) e Adeilton Gonçalves da Silva (Maranhão) — este último citado como o único fora do sistema prisional.

O documento também aponta que Alejandro Juvenal Herbas Camacho Júnior, conhecido como Marcolinha e irmão de Marcola, atua como apoio direto desse núcleo dirigente.

Abaixo dessa camada superior, surge a Sintonia Final do Sistema, responsável por garantir que as ordens da liderança sejam cumpridas dentro das unidades prisionais.

Facção cria setor para controlar redes sociais e comunicações online

Um dos principais pontos destacados no novo mapeamento é a criação da chamada Sintonia da Internet e Redes Sociais, apontada como um setor voltado para o gerenciamento das comunicações digitais do grupo.

Segundo o Dipol, a estrutura teria como missão administrar comunicações em aplicativos criptografados, controlar o uso de redes sociais pelos integrantes, monitorar publicações que possam expor a organização e manter a chamada “unidade ideológica” da facção. A avaliação da polícia é que esse núcleo funciona como uma espécie de central técnica de comunicação, voltada a garantir sigilo e padronização das mensagens internas.

Ainda conforme a investigação, o setor seria comandado pelos presos André Luiz de Souza (Andrezinho) e Eduardo Fernandes Dias (Destino), ambos subordinados diretamente à Sintonia Final.

"Raio X" é descrito como corregedoria interna do PCC

Outra inovação citada no relatório é o chamado Setor do Raio X, descrito como uma espécie de corregedoria interna com função de fiscalização e controle disciplinar.

O documento aponta que esse setor seria responsável por monitorar integrantes, auditar contas de diferentes áreas, apurar condutas internas e aplicar sanções. A chefia dessa estrutura, segundo o levantamento, estaria com Gratuliano de Souza Lira, conhecido como Quadrado.

Sintonia Restrita concentra decisões sensíveis e ações de risco

O relatório também detalha a existência da chamada Sintonia Restrita, apontada como responsável pelos assuntos mais sensíveis da facção. Entre os integrantes mencionados estão André Luiz Meza Costa (Pleiba) e Eduardo Marcos da Silva (Dudinha).

Ligado a esse núcleo, aparece um braço tático operacional formado por integrantes como André Vinícius Nunes de Souza (Confusão) e Ivan Garcia Arruda (Degola) — este último citado como preso. Segundo o mapeamento, esse grupo seria encarregado de executar decisões estratégicas consideradas de alto risco.

Expansão internacional é coordenada por setor específico

O organograma elaborado pelo Dipol aponta ainda a atuação da Sintonia dos Estados e Países, área responsável por coordenar a expansão territorial da facção fora de São Paulo e também no exterior.

De acordo com estimativas atribuídas ao Ministério Público, o PCC movimentaria cerca de R$ 10 bilhões por ano, com operações ligadas ao tráfico internacional e presença em regiões da América do Sul, Europa, África e Ásia.

Narcotráfico é impulsionado pela Sintonia do Progresso

No campo econômico, o relatório descreve a Sintonia do Progresso como uma das engrenagens centrais da organização, com foco principal no narcotráfico. O setor é definido como um “motor de desenvolvimento interno”, responsável por garantir crescimento estruturado e lucrativo da facção.

Já a Sintonia da Rua é apontada como responsável pela organização territorial e pela disciplina no cotidiano, garantindo o cumprimento das ordens fora dos presídios. Paralelamente, a Sintonia Interna atua dentro do sistema penitenciário, sendo descrita como peça central do funcionamento operacional nas cadeias.

Setor financeiro concentra arrecadação e movimentação de recursos

A Polícia Civil também descreve a chamada Sintonia da Padaria como o setor financeiro da facção, encarregado de arrecadar e movimentar recursos oriundos de contribuições internas e de atividades ilícitas atribuídas ao grupo.

Quadro dos 14 atua como instância deliberativa e disciplinar

Outro ponto do organograma é a menção ao chamado Quadro dos 14, descrito como uma instância deliberativa responsável por julgamentos internos e decisões disciplinares dentro da facção.

Entre os nomes associados ao grupo aparece Fernando Gonçalves dos Santos, conhecido como Azul ou Colorido, preso sob acusação de envolvimento no assassinato do ex-delegado-geral Ruy Ferraz Fontes.

O relatório cita ainda nomes ligados ao núcleo, como Gilberto Aparecido dos Santos (Fuminho), Caio Bernasconi Braga (Fantasma da Fronteira) e Mohamad Hussein Mourad (Primo), empresário investigado por fraudes bilionárias no setor de combustíveis, que, segundo o texto, nega ligação com a facção.

Com o novo organograma, a Polícia Civil avalia que o PCC mantém uma estrutura interna cada vez mais profissionalizada, com divisões voltadas à disciplina, expansão internacional, controle financeiro e comunicação digital, indicando uma reorganização contínua mesmo com parte significativa de sua liderança presa.

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