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Polícia Federal investiga infiltração do Comando Vermelho na política do Rio

PF mira infiltração do CV em órgãos públicos do Rio e aponta busca por aliados políticos e documentos sigilosos

Polícia Federal investiga infiltração do Comando Vermelho na política do Rio (Foto: Gerada por IA/DALL-E)
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247 - A Polícia Federal investiga suspeitas de infiltração do Comando Vermelho (CV) em órgãos públicos do Rio de Janeiro, além de indícios de busca por aliados políticos, proteção institucional e acesso a documentos sigilosos ligados à Justiça e ao Ministério Público, relata o jornal O Globo. A apuração coloca no centro da estratégia do CV Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, apontado como integrante da cúpula da facção, e Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chefe histórico do grupo que, segundo investigações, seguiria exercendo influência mesmo preso há 19 anos em unidade de segurança máxima.

Expansão territorial e influência política

Segundo a polícia, Doca é protegido por homens armados em comunidades e reúne mais de 300 anotações criminais. Sob suas ordens, o CV teria tomado mais de 40 favelas do Rio nos últimos três anos. Já Marcinho VP, conforme investigações da polícia do Rio, usaria intermediários, como advogados e familiares, para orientar decisões internas da facção de dentro do sistema prisional.

Essas decisões envolveriam, segundo os investigadores, a definição de quem passa a controlar comunidades, quem perde espaço na hierarquia criminosa e como são distribuídos recursos da chamada “caixinha” do CV, descrita como uma espécie de sistema financeiro clandestino da organização.

A investigação aponta que o Comando Vermelho ampliou sua atuação para além do tráfico de drogas e armas. Com domínio territorial armado, a facção passou a explorar atividades da economia formal, incluindo provedores de internet e operações ligadas a criptomoedas. Ao mesmo tempo, buscaria estabelecer relações em redes de poder.

Mensagens citam interesse em político

Um dos pontos destacados pela PF envolve uma troca de mensagens de 16 de janeiro de 2025. Na ocasião, o traficante Carlos Costa Neves, conhecido como Gardenal, teria enviado a Doca uma foto do deputado Roosevelt Barreto Barcelos, o Val Ceasa (PRD), no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio.

Na imagem, o parlamentar aparece após reunião sobre o programa Segurança Presente, ao lado do então governador Cláudio Castro (PL) e de dois vereadores. Após encaminhar a foto, Gardenal escreveu: “Te falei, Val é o contato dele”. A mensagem não esclarece a quem o termo “dele” se referia. Em seguida, Doca respondeu: “É, mano, esse cara tem que vir para nós”.

Para a PF, a conversa demonstra o interesse da facção em aliciar agentes políticos para ampliar poder, obter proteção institucional e influenciar decisões públicas. Os investigadores também apontam que a aproximação com políticos poderia permitir que aliados atuassem como porta-vozes indiretos, influenciando ações sociais e evitando interferências do Estado em áreas controladas pelo grupo.

Apesar de não ficar claro de quem Val Ceasa seria contato, uma fonte da PF afirmou que o diálogo remeteria a uma suposta aliança do parlamentar com Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, chefe do Terceiro Comando Puro (TCP), facção rival do CV. 

O caso tramita sob sigilo na Procuradoria-Geral de Justiça. O deputado nega irregularidades e afirma que a citação a seu nome não representa qualquer vínculo com o crime organizado.

Acesso a decisões e documentos sigilosos

A apuração da PF também afirma que integrantes do CV tiveram acesso indevido a decisões judiciais e a documentos do Ministério Público do Rio ainda em fase de elaboração. Os arquivos foram encontrados após análise de um backup atribuído ao policial militar Luciano da Costa Ramos Junior, que era cedido ao Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e foi preso no ano passado.

No armazenamento em nuvem do PM, os investigadores localizaram a imagem de um texto em produção sobre denúncia contra Peixão e a foto de uma decisão ainda em edição relacionada a medidas cautelares contra familiares de Marcinho VP e de Doca.

O documento continha endereços de mandados de busca e apreensão. Para a PF, esse material indica que o policial repassava aos traficantes conteúdos “altamente sensíveis e de natureza sigilosa”.

As investigações citam ainda situações em que traficantes teriam combinado apreensões e trocado informações com policiais militares e civis. Em uma conversa interceptada, um policial identificado como “Contato Draco” agradece a um criminoso: “Informação perfeita e precisa, daqui a pouco te mando a foto da apreensão aqui”.

Segundo a PF, essas relações funcionariam por meio de “benefício mútuo”. Em alguns casos, criminosos forneceriam informações para que agentes atuassem contra facções rivais. Em outros, haveria pagamento de propina em troca de dados sobre investigações em curso. Uma das situações citadas envolve um policial que teria orientado Doca a trocar de telefone por causa de um inquérito da Draco.

A Polícia Civil apura o caso na Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL), em procedimento sob sigilo.

O que dizem os citados

Em nota, o deputado Val Ceasa afirmou que jamais manteve relação com organizações criminosas ou praticou ato ilícito. “Sou uma pessoa pública, com atuação política conhecida em todo o Estado do Rio de Janeiro, participando diariamente de agendas institucionais, eventos públicos, reuniões políticas e encontros com inúmeras pessoas e autoridades. Infelizmente, o fato de terceiros mencionarem meu nome ou desejarem proximidade política não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso da minha parte”, declarou.

O parlamentar também disse repudiar tentativas de associação de sua imagem ao crime organizado. “Da mesma forma que criminosos muitas vezes tentam se aproximar ou citar nomes de autoridades, parlamentares, promotores, juízes, delegados e outras figuras públicas para buscar prestígio ou influência, isso jamais significará vínculo legítimo com pessoas de bem e comprometidas com a lei. Repudio qualquer tentativa de associação indevida da minha imagem ao crime organizado”, afirmou.

Val Ceasa acrescentou que sua atuação pública é pautada pelo trabalho, pela transparência e pelo respeito às instituições. “Quanto aos fatos mencionados em reportagens anteriores, reitero que nunca houve demonstração de qualquer conduta irregular da minha parte e permaneço à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos necessários”, completou.

Cláudio Castro também negou qualquer ligação com organizações criminosas. Em nota, afirmou que repudia “qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros investigados pela Polícia Federal”.

Segundo o ex-governador, a imagem citada registra uma reunião institucional no Palácio Guanabara. “A imagem mencionada retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara com um deputado da base do governo e dois vereadores da capital. Ao longo de dois mandatos, o então governador recebeu milhares de parlamentares, lideranças políticas, representantes da sociedade civil e setores econômicos do estado. Não existe qualquer tipo de ligação do ex-governador com facções criminosas”, declarou.

Castro afirmou ainda que sua gestão teve como marca o enfrentamento ao Comando Vermelho e ao crime organizado. “Ao contrário: sua gestão teve como uma das principais marcas o enfrentamento firme ao Comando Vermelho e ao crime organizado, com operações integradas, investimentos recordes em Segurança Pública, fortalecimento das forças policiais, uso intensivo de inteligência e tecnologia e ações permanentes contra lideranças do tráfico”, disse.

A nota também menciona a Operação Contenção e defende endurecimento legal contra facções. “Foi sob sua gestão, inclusive, que o Estado realizou a Operação Contenção, considerada uma das maiores ofensivas contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, além de uma atuação permanente em defesa do endurecimento das leis contra facções criminosas e da classificação desses grupos como organizações de narcoterrorismo”, acrescentou.

O ex-governador também criticou o vazamento de informações de investigações. “O ex-governador também lamenta o vazamento seletivo de investigações, prática que não contribui para o fortalecimento das instituições nem para a correta apuração dos fatos, sempre respeitando o direito à ampla defesa”, afirmou a nota.

A defesa de Marcinho VP declarou que todas as visitas de advogados e familiares são gravadas e monitoradas pela direção da penitenciária e pelo setor de inteligência da Secretaria Nacional de Políticas Penais (SENAPEN). “As correspondências seguem o mesmo rigoroso controle. Desse modo, para que fosse verdade que ele se comunicasse seria necessário que agentes federais, diretores das penitenciárias e autoridades do Ministério da Justiça estivessem praticando crime de prevaricação ou de organização criminosa”, afirmou.

Os advogados também criticaram o uso do nome de Marcinho VP em investigações e disputas políticas. “O uso de seu nome como folheto eleitoreiro por parte de quem não tem nenhum compromisso com a verdade e com o devido processo legal, se utilizando do direito penal do inimigo como moeda de troca nas eleições de outubro é a repetição de uma estratégia perversa que o mantém como preso político há trinta anos. A defesa segue segura de que pela décima oitava vez provará sua inocência”, completou a defesa.

O vereador Ulisses Marins (União) negou ligação com pessoas envolvidas em organizações criminosas. “Sobre a citação feita na reportagem do ano passado, nunca houve qualquer conclusão ou medida que apontasse irregularidade da minha parte. Meu trabalho sempre foi pautado pelo diálogo institucional e pela atuação pública transparente”, afirmou.

Jair de Mendes (PRD), por sua vez, disse que a agenda no Palácio Guanabara foi articulada em contexto político e institucional. “A existência de uma fotografia em ambiente público ou comentários feitos por terceiros investigados não podem ser usados para criar qualquer ilação sobre minha conduta. Não tenho qualquer envolvimento com organizações criminosas e repudio qualquer tentativa de associação da minha imagem a esse tipo de prática”, declarou.

Ele também afirmou que sua atuação pública envolve contato com diferentes autoridades e lideranças. “Sou uma pessoa pública, conhecida no meio político e social, e naturalmente participo de reuniões, encontros e agendas com diversas autoridades, lideranças e pessoas da sociedade civil. Isso jamais pode ser confundido com vínculo ou relação com atividades ilícitas”, concluiu.

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