Polícia pede quebra de sigilo de produtora de filme sobre Bolsonaro
Investigação apura suspeita de desvio de recursos públicos em contrato de R$ 108 milhões do WiFi Livre SP
247 - A Polícia Civil de São Paulo solicitou à Justiça acesso a dados financeiros sigilosos de Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora do filme “Dark Horse”, que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro, e também do Instituto Conhecer Brasil, presidido por ela. O pedido faz parte das investigações sobre suspeitas de superfaturamento e desvio de recursos públicos em um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo.
As informações foram divulgadas inicialmente pela Folha de S.Paulo. Segundo a reportagem, o delegado Antonio Carlos Manuera Silveira requisitou relatórios de inteligência financeira produzidos pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), com foco em “movimentações atípicas e comunicações de operações suspeitas” ligadas ao CPF de Karina e ao CNPJ do instituto.
O pedido inclui ainda a decretação de sigilo sobre essa etapa das investigações. A apuração envolve o contrato de R$ 108 milhões firmado pelo Instituto Conhecer Brasil para fornecimento de internet wi-fi à capital paulista durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
Polícia aponta suspeitas de desvio de recursos
De acordo com o ofício encaminhado à Justiça, os investigadores suspeitam que recursos públicos do programa WiFi Livre SP tenham sido desviados para financiar a produção do longa-metragem “Dark Horse”. O documento cita “consistentes suspeitas de confusão patrimonial” entre o instituto e a produtora cinematográfica.
“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial [entre o instituto e a produtora] e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme”, afirma o delegado no pedido encaminhado ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
Segundo a investigação, empresas subcontratadas e organizações sociais administradas por Karina teriam sido utilizadas para movimentação dos recursos. A polícia também sustenta que há “indícios materiais contundentes” de irregularidades na execução do contrato.
Contrato milionário está sob investigação
Outro ponto levantado pelos investigadores é a suposta falta de capacidade técnica do Instituto Conhecer Brasil para operar o serviço contratado pela prefeitura. O delegado afirma que o valor cobrado pelo instituto, de R$ 1.800 por ponto de conexão, estaria acima do praticado no mercado.
A investigação também considera suspeito o pagamento antecipado de R$ 26 milhões por serviços ainda não executados. Para a Polícia Civil, a antecipação “pode evidenciar o desvio de finalidade na aplicação do dinheiro público municipal”.
“Diante disso, o rastreamento do fluxo financeiro é o único meio capaz de descortinar a destinação final das verbas recebidas pelo Instituto Conhecer Brasil e repassadas de forma suspeita a empresas subcontratadas e às contas pessoais da investigada Karina Ferreira da Gama”, diz outro trecho do documento policial.
Filme sobre Bolsonaro também entrou na mira
“Dark Horse” aborda a trajetória política de Jair Bolsonaro, com destaque para o atentado sofrido durante a campanha presidencial de 2018. A produção ganhou projeção após revelações envolvendo seu financiamento.
O portal The Intercept Brasil informou que o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, teria repassado R$ 61 milhões para o longa-metragem. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, admitiu ter solicitado apoio financeiro ao empresário, mas negou qualquer irregularidade.
A Polícia Federal também investiga se parte dos recursos relacionados ao filme teria sido utilizada para custear despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos.
Karina nega irregularidades e prefeitura se manifesta
Até o momento, a defesa de Karina Ferreira da Gama não se pronunciou sobre o novo pedido da Polícia Civil. Em manifestações anteriores, ela negou que o filme tenha recebido recursos públicos ou privados de empresas brasileiras e afirmou que a contratação junto à Prefeitura de São Paulo ocorreu de forma regular.
Karina também sustentou que não existe ligação entre o contrato do WiFi Livre SP e a produção cinematográfica. O inquérito policial foi instaurado no fim de 2025 após denúncias sobre possíveis irregularidades na contratação.
Em nota, a gestão Ricardo Nunes afirmou que “não identificou nenhuma irregularidade nos serviços prestados” pelo Instituto Conhecer Brasil até o momento. A prefeitura informou ainda que, às 15h17 desta quinta-feira (28), havia 3.161 pontos ativos e 39 off-line entre os 3.200 pontos contratados.
“Obviamente, se for identificada qualquer irregularidade na investigação, que contará com total apoio da administração, as providências serão tomadas”, declarou a administração municipal.



