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PSD avança em São Paulo e esvazia ainda mais o PSDB; Aécio Neves reclama

Filiação de deputados estaduais e migração de prefeitos expõem esvaziamento do PSDB no estado e fortalecem a influência política de Gilberto Kassab

Glberto Kassab, presidente do PSD (Foto: Divulgação/PSD)

247 - O PSD intensificou seu movimento de atração sobre quadros do PSDB em São Paulo após a filiação, anunciada na semana passada, de seis dos oito deputados estaduais tucanos à legenda comandada por Gilberto Kassab, atual secretário de Governo do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A nova leva de adesões aprofundou a crise do partido fundado por Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso em seu principal reduto histórico e provocou reação imediata da cúpula tucana, informa o jornal O Globo.

O avanço do PSD sobre o espaço político antes dominado pelo PSDB ocorre em paralelo ao desempenho eleitoral recente no estado. Nas eleições municipais de 2024, o partido de Kassab conquistou 207 prefeituras paulistas, enquanto os tucanos ficaram com apenas 21. Quatro anos antes, o PSDB havia vencido em 173 cidades, mostrando a dimensão do recuo. Levantamento citado pela reportagem aponta ainda que 45 dos 83 prefeitos e vice-prefeitos tucanos que tentaram a reeleição em 2024 migraram para o PSD, repetindo o caminho seguido agora pelos parlamentares estaduais.

A maior parte desses movimentos ocorreu em municípios de pequeno e médio porte, onde a disputa por estrutura partidária e acesso a alianças regionais pesa de forma decisiva. O PSD foi a sigla que mais absorveu ex-integrantes do PSDB no estado. Em seguida aparece o Republicanos, partido do governador Tarcísio, que teria atraído 11 nomes, incluindo o prefeito de Santos, Rogério Santos. Outras legendas como PL, União Brasil, PP e MDB também receberam ex-tucanos, enquanto apenas dez permaneceram formalmente no PSDB.

O esvaziamento do PSDB em São Paulo se agravou após a derrota no governo estadual em 2022, quando Tarcísio superou Rodrigo Garcia, então vice de João Doria. O partido havia comandado o Palácio dos Bandeirantes por 28 anos consecutivos. 

Com o partido enfraquecido, o deputado federal Aécio Neves (MG), que hoje comanda nacionalmente o PSDB, reagiu ao movimento de Kassab com críticas duras. Ele comparou o dirigente do PSD a agentes do mercado financeiro e afirmou que o partido estaria sendo alvo de uma ofensiva predatória. “O cacique do PSD funciona como ‘fundos abutres da economia’, pois ‘ataca os ativos da empresa para depois comprar na baixa’”, declarou Aécio em nota. Em seguida, reforçou: “O PSDB não está à venda. E diferentemente do seu partido (PSD), que tem inclusive quadros que respeito, o PSDB se prepara para apresentar um projeto de Brasil”.

Nos bastidores, as causas da debandada são associadas à sucessão de conflitos internos e à crise de identidade que atingiu o PSDB após a perda de protagonismo na polarização nacional com o PT, em meio ao crescimento do bolsonarismo. Em 2022, o partido não lançou candidato próprio à Presidência da República e decidiu apoiar Simone Tebet (MDB), hoje ministra do governo Lula.

Além da crise política, há também dificuldades relacionadas a financiamento e estrutura eleitoral. O PSDB ficou apenas na décima posição entre os partidos que mais receberam recursos públicos de campanha, critério calculado a partir do tamanho das bancadas no Congresso. Uma nova derrota eleitoral em outubro poderia, segundo avaliações internas, colocar em risco o acesso ao fundo partidário até 2030.

A migração de antigos líderes municipais reforça o diagnóstico de enfraquecimento. Entre os exemplos citados está o ex-prefeito de São José dos Campos Felício Ramuth, que se tornou vice-governador na gestão de Tarcísio. Duarte Nogueira, ex-prefeito de Ribeirão Preto, também deixou o PSDB e se filiou ao PSD. Já Orlando Morando, ex-prefeito de São Bernardo do Campo, pediu desfiliação e atualmente ocupa a Secretaria de Segurança Urbana na administração do prefeito Ricardo Nunes (MDB), na capital paulista.

Entre os poucos nomes que permaneceram no PSDB, aparece Paulo Serra, ex-prefeito de Santo André e atual presidente estadual do partido. Ele é citado como um possível candidato ao governo paulista. Questionado sobre a hipótese de o PSD ter, de certa forma, incorporado o espaço histórico tucano, Paulo Serra rejeitou essa leitura e respondeu de forma direta: “Não se absorve um conceito, ainda mais sendo base de apoio do PT no plano nacional. O PSD comanda três ministérios”.

O crescimento do PSD, por sua vez, tem sido atribuído à estratégia de Kassab de consolidar uma estrutura partidária capaz de atrair lideranças com mandato e influência regional. Criado em 2011, o partido tornou-se a legenda que governa o maior número de prefeituras no país, ampliando seu peso institucional em negociações políticas.

Em São Paulo, Kassab acumula a função de dirigente partidário com o cargo de secretário de Governo estadual, posição estratégica na relação com os municípios. Ele é responsável por encaminhar convênios e parcerias com prefeituras, o que já gerou críticas de adversários, que acusam o PSD de usar a máquina estadual como instrumento de cooptação política em troca de liberação de verbas e benefícios. Kassab sempre negou esse tipo de prática.

A reportagem também aponta que, apenas neste ano, Kassab já conseguiu atrair para o PSD dois governadores que eram do União Brasil: Ronaldo Caiado, de Goiás, e Marcos Rocha, de Rondônia, ampliando o alcance nacional do partido e reforçando seu papel como polo de reorganização do centro político brasileiro.

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