Saul Klein vira réu por exploração sexual em São Paulo
Justiça de Barueri aceitou denúncia contra empresário por quatro crimes; outras sete pessoas também responderão à ação
247 - A Justiça de São Paulo tornou Saul Klein réu por quatro crimes, entre eles organização criminosa, exploração sexual e tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores, em processo que também inclui outras sete pessoas e tramita sob segredo de Justiça na 2ª Vara Criminal de Barueri. As informações constam no texto fornecido. Os relatos foram publicados nesta quinta-feira (14) pelo Portal G1.
O empresário é filho do fundador das Casas Bahia e vendeu sua participação societária na rede varejista em 2009. A decisão judicial que recebeu a denúncia saiu na segunda-feira (11) e colocou o caso em uma nova fase processual.
Justiça aceita denúncia contra empresário
A decisão aponta que Saul Klein responderá por participação em organização criminosa, favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança, adolescente ou vulnerável, favorecimento da prostituição ou outra forma de exploração sexual com agravantes, além de tráfico de pessoas envolvendo vítimas menores.
O caso segue sob segredo de Justiça. A nova etapa não representa condenação, mas abre caminho para a instrução processual, fase em que a Justiça analisa provas, depoimentos e manifestações das partes.
Segundo o texto da decisão citado no material fornecido, os depoimentos reunidos nos autos indicaram uma “dinâmica reiterada” de recrutamento de mulheres e adolescentes. A investigação cita promessas de trabalho em eventos, modelagem e ações promocionais, além da atuação de intermediárias, deslocamentos a flats e propriedades ligadas ao investigado, pagamentos em dinheiro e imposição de condutas previamente orientadas.
Defesa diz que acusações foram afastadas em parte
Em nota, o advogado Alberto Zacharias Toron, que representa Saul Klein, afirmou que a decisão afastou parte das imputações feitas anteriormente.
“a decisão judicial, em linha com o entendimento já parcialmente adotado pelo próprio Ministério Público, afastou as imputações de estupro, cárcere privado e redução à condição análoga à de escravo”.
O advogado também sustentou que a defesa vê relevância na tese de consentimento nas relações citadas no processo.
“Em relação às acusações remanescentes, o magistrado destacou a relevância da tese defensiva de que a relação mantida entre as partes era livre e consensual, no contexto de uma dinâmica conhecida como “sugar daddy” e “sugar baby” [que são encontros voluntários com vantagens econômicas], ressalvando que a matéria deverá ser aprofundada ao longo da instrução processual. A defesa permanece confiante de que, ao final do processo, todas as acusações serão integralmente rejeitadas”.
Na fase anterior, o Ministério Público já havia defendido o arquivamento das acusações de estupro, de perigo de contágio venéreo e também em relação a motoristas investigados.
Depoimentos citam recrutamento e controle
A decisão menciona relatos de vítimas que apontam padrões semelhantes. Segundo o material fornecido, mulheres e adolescentes teriam recebido convites por redes sociais e por intermediárias, com promessas de participação em eventos, ações promocionais e trabalhos ligados à modelagem.
Uma das vítimas relatou que frequentou os locais entre 2011 e 2013. Ela disse que acreditava participar de “eventos de showroom” após uma proposta apresentada como ligada a uma “agência de eventos” na casa de “um cara rico tipo um príncipe”.
O relato também cita controle ambiental e psicológico, presença de seguranças, dificuldade para sair dos locais, além de medicamentos e bebidas alcoólicas.
“Não podíamos nem mexer no celular. Tínhamos que sorrir o tempo todo e focar 100% da atenção para ele.”
O juiz registrou que os depoimentos apresentaram elementos convergentes, como recrutamento por redes sociais, promessa de eventos, presença das mesmas coordenadoras e pagamentos vinculados a encontros.
“Os relatos reunidos nos autos, portanto, ultrapassam, em tese, mera notícia isolada ou conjectura abstrata, revelando quadro probatório minimamente consistente quanto à possível existência de estrutura organizada voltada ao aliciamento e exploração sexual de mulheres e adolescentes”, escreveu o juiz.
Vítimas comentam nova fase do processo
Em 2020, vítimas relataram ao Fantástico detalhes de festas que atribuem ao empresário. Nesta sexta-feira (15), em conversa com a TV Globo, elas comentaram a decisão que transformou Saul Klein em réu.
“Sentimento de alívio e esperança. Transformar o abusador em réu mostra que nossas vozes foram ouvidas e que a Justiça começou a dar uma resposta”, disse uma das mulheres.
Outra vítima afirmou que a decisão traz expectativa sobre o avanço do caso.
“Como vítima, ver esse avanço traz um sentimento de esperança. Esperança de que a Justiça seja feita, de que a verdade seja analisada com responsabilidade”.
Uma terceira mulher também associou a nova fase do processo à possibilidade de resposta judicial.
“Uma década depois de sofrer com os abusos, parece até que posso ter esperança de novo com a Justiça brasileira”.
Uma quarta vítima relatou que a decisão reativou lembranças traumáticas, mas também trouxe alívio.
“Uma lembrança do trauma, mas uma sensação de Justiça. Que nós mulheres podemos ter força.”
Advogada vê resposta institucional
A advogada Gabriela Manssur, uma das responsáveis pela defesa do grupo com mais de 20 vítimas, afirmou que não poderia comentar a decisão. Ela ressaltou, ainda assim, a importância institucional do recebimento da denúncia em casos de violência contra mulheres.
“nunca devem ser recebidos com alegria, mas o recebimento da denúncia representa importante resposta institucional para vítimas que tiveram coragem de romper o silêncio”.
Manssur também lembrou o acompanhamento prestado a parte das mulheres antes da nova fase processual.
“Há mais de seis anos, ainda como Promotora de Justiça, acompanhei parte dessas mulheres por meio do projeto Justiceiras, que realizou acolhimento jurídico e atendimento psicológico especializado às vítimas. Muitas pessoas acreditavam que esse caso jamais teria consequências. Por isso, esse momento também simboliza algo muito importante: ninguém está acima da lei”.
Com a denúncia recebida, Saul Klein e os demais réus passam a responder formalmente à ação penal. A Justiça dará sequência à instrução do processo, que analisará as acusações remanescentes, as provas reunidas nos autos e as teses apresentadas pela defesa.


