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“Tarcisão do asfalto” enfrenta atrasos, cria novos pedágios, sofre derrotas no TCE e baixo investimento em rodovias

Apelido de campanha contrasta com entraves em licitações e execução abaixo do orçamento no DER em São Paulo

Tarcísio de Freitas (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 - Eleito governador de São Paulo após campanha que o apresentou como “Tarcisão do Asfalto”, o ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas (Republicanos) chega às vésperas do período eleitoral com um balanço controverso no setor rodoviário, uma das vitrines prometidas de sua gestão. Reportagem da Folha de S.Paulo, assinada por Bruno Ribeiro, detalha atrasos em licitações, questionamentos no Tribunal de Contas do Estado (TCE) e uma execução orçamentária aquém do previsto.

O apelido, cunhado em 2022 para associar o então candidato a uma imagem de rapidez na entrega de obras, contrasta com o ritmo observado nos últimos três anos. Embora o governo tenha conseguido destravar a retomada do trecho norte do Rodoanel, as principais licitações concebidas pela equipe de Tarcísio enfrentaram sucessivas suspensões e revisões, o que gerou desgaste com prefeitos e deputados estaduais que esperavam inaugurações para capitalizar politicamente.

Em 2025, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER), responsável pelas obras em rodovias não concedidas, teve de suspender processos licitatórios que, somados, ultrapassavam R$ 5 bilhões. Ao fim do ano, o órgão executou apenas 30,6% do orçamento previsto, pouco mais de R$ 1,1 bilhão de um total de R$ 3,6 bilhões. Para 2026, o orçamento aprovado é menor, de R$ 2,2 bilhões.

A paralisação de certames resultou em obras que deixaram de sair do papel e acentuou a insatisfação de aliados no interior do estado. Ciente do problema de articulação, o governador promoveu, no fim de janeiro, uma troca no comando da área, numa tentativa de reduzir ruídos políticos e acelerar decisões administrativas.Integrantes do Palácio dos Bandeirantes, contudo, afirmam que o cenário não deve contaminar o desempenho eleitoral de Tarcísio. O argumento é que, além do Rodoanel, o governo pretende entregar linhas de metrô e encaminhar projetos estruturantes, como o trem entre a capital e Campinas e o túnel entre Santos e Guarujá, no litoral.

Procurado, o governo defendeu as medidas adotadas. Disse que destravou obras paradas e reformulou projetos herdados de prefeituras e gestões anteriores, ressaltando “o compromisso com a eficiência administrativa e a segurança jurídica”. O DER administra hoje cerca de 9.800 quilômetros de rodovias, voltados principalmente à conservação — recapeamento, sinalização e reparos — e à ampliação, como duplicações e pavimentação de estradas de terra. Outros pouco mais de 6.800 quilômetros estão sob responsabilidade de concessionárias.

Parte das intervenções ocorre em rodovias concedidas, o que, segundo integrantes do governo, pode reduzir ganhos políticos diante das críticas aos pedágios no sistema free flow, tema que levou o governador a recuar em pelo menos dez instalações no ano passado. Ao mesmo tempo, cresceu a tensão entre o DER e o setor da construção civil ao longo de 2024 e 2025, com empresários relatando exigências consideradas pouco factíveis em editais.Nesse ambiente, as licitações de maior valor foram alvo de questionamentos no TCE, que determinou suspensões em série.

 O governo sustenta que “suspensões de editais para atendimento a recomendações são previstas em lei e foram prontamente atendidas” pelo órgão. Ainda assim, casos emblemáticos expuseram falhas. Um deles envolve a prometida estrada de 5 quilômetros para a comunidade Quilombo dos Bombas, em Iporanga: o edital lançado em novembro de 2024 foi suspenso no mês seguinte, e a obra só começou em junho do ano passado, com conclusão prevista para o fim deste semestre.

Outro exemplo é o edital de conservação com 30 lotes, estimado inicialmente em R$ 4,3 bilhões, que foi paralisado em outubro de 2025 após questionamentos do TCE e relançado em janeiro por R$ 4,7 bilhões. Em 2025, uma licitação de R$ 915 milhões para conservação de pistas e sinalização também foi suspensa e não se concretizou. Houve ainda um contrato de R$ 1,8 milhão para melhorias na Raposo Tavares que precisou ser extinto porque o trecho estava em área já privatizada.

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