Violência contra mulheres em SP tem 300 mil casos e só 18 mil presos
Prisões de agressores chegam a 18,5 mil no estado, número que representa apenas 6,57% das ocorrências registradas
247 - O estado de São Paulo registrou quase 300 mil ocorrências de violência contra mulheres ao longo de 2025. No mesmo período, 18,5 mil agressores foram presos em ações das polícias Civil e Militar, número que corresponde a apenas 6,57% do total de registros.
Apesar da diferença entre o volume de ocorrências e o número de detenções, houve crescimento nas prisões em relação ao ano anterior. Em 2024, 14,1 mil autores de violência contra mulheres haviam sido detidos.
Grande parte das ocorrências envolve crimes classificados como de menor gravidade, mas que apresentam alta frequência. Entre eles estão ameaça, calúnia, difamação, injúria e lesão corporal dolosa, que juntos representam quase metade dos registros de violência contra mulheres no estado.
Mesmo assim, crimes mais graves continuam em níveis elevados. Ao longo de 2025, foram contabilizados 448 homicídios dolosos e 1.290 tentativas de homicídio envolvendo vítimas mulheres.
Os casos de feminicídio também seguem como motivo de preocupação. No período analisado, foram registradas 270 vítimas desse tipo de crime. Entre elas, 22% já haviam solicitado medidas protetivas contra os agressores antes do assassinato.
Diferença entre feminicídio e homicídio
A legislação brasileira distingue os casos em que uma mulher é assassinada por razões relacionadas ao gênero daqueles em que a morte ocorre em circunstâncias que não envolvem violência de gênero.
Quando a morte está associada a situações como violência doméstica, familiar ou menosprezo à condição feminina, o crime é classificado como feminicídio. Nesses casos, a pena prevista pode chegar a até 40 anos de reclusão.
Já o homicídio pode ocorrer em diferentes contextos sem relação direta com violência baseada em gênero, ainda que a vítima seja uma mulher.
Medidas protetivas e prevenção
Especialistas apontam que as medidas protetivas são instrumentos importantes para interromper situações de violência ainda nos primeiros sinais de agressividade. Elas permitem que o Estado intervenha e estabeleça restrições ao agressor.
Também existem programas e políticas voltadas à proteção de vítimas de violência doméstica, embora haja críticas relacionadas à estrutura e à efetividade de parte dessas iniciativas.
A orientação é que mulheres em situação de violência procurem ajuda o mais cedo possível, já que a busca por apoio pode evitar o agravamento das agressões.
Subnotificação e ciclo da violência
Os números oficiais podem ser ainda maiores, pois muitos casos de violência doméstica não chegam às autoridades. Isso ocorre, em parte, porque diversos relacionamentos abusivos seguem o chamado ciclo da violência.
Esse processo envolve diferentes fases dentro da relação. Após episódios de agressão, pode surgir um período de reconciliação em que o agressor demonstra arrependimento, promete mudar e tenta recuperar a confiança da vítima com gestos de carinho, pedidos de desculpas e presentes.
Essa dinâmica muitas vezes contribui para que a violência se repita e dificulta a denúncia.
Desafios para responsabilização dos agressores
A responsabilização criminal também enfrenta obstáculos jurídicos. Em muitos casos, os episódios de violência ocorrem sem testemunhas, o que dificulta a produção de provas adicionais.
Embora o depoimento da vítima tenha valor relevante nos processos judiciais, a ausência de evidências complementares pode tornar a investigação mais complexa.
Por esse motivo, especialistas recomendam que a ocorrência seja registrada o mais rapidamente possível após o episódio de violência, o que facilita a identificação do agressor e a coleta de provas.
Tecnologia amplia rede de proteção
Ferramentas tecnológicas também passaram a integrar as estratégias de enfrentamento à violência contra mulheres no estado. Um dos recursos é o aplicativo SP Mulher Segura, desenvolvido para auxiliar vítimas e facilitar o contato com as autoridades.
A plataforma já reúne cerca de 45,7 mil usuárias e contabiliza aproximadamente 9,6 mil acionamentos do chamado botão do pânico. Quando ativado, o sistema envia automaticamente a localização da vítima para a polícia, permitindo resposta rápida das equipes.
O aplicativo também cruza dados de localização entre vítimas e agressores monitorados, o que contribui para respostas mais ágeis das autoridades.
Paralelamente, houve ampliação da estrutura de atendimento especializado. O estado conta atualmente com 142 Delegacias de Defesa da Mulher e 173 salas de atendimento 24 horas voltadas a esse público.
A estratégia busca combinar tecnologia, integração entre instituições e ampliação dos canais de denúncia para fortalecer as medidas de proteção e reduzir o risco de feminicídios.


