Dallagnol vira pastor fanático e pede que Deus afaste os que praticam o mal – assim como aconteceu com ele
Ex-procurador faz oração contra corrupção e abuso de poder, mas foi afastado do cargo justamente por condutas associadas a esse tipo de atuação
247 – O ex-procurador Deltan Dallagnol voltou a chamar atenção nas redes ao adotar um tom de pregação religiosa e pedir a Deus que “afaste do cargo aqueles que praticam corrupção, que abusam do poder, que praticam injustiça”. A fala, carregada de moralismo e retórica messiânica, gerou reações imediatas por contrastar com o próprio histórico do ex-integrante da Lava Jato, que acabou afastado do cargo justamente em meio a questionamentos relacionados a abuso de poder e práticas incompatíveis com a função pública.
Na gravação, Dallagnol faz uma espécie de oração pública, misturando política e religião para reforçar uma narrativa de “guerra do bem contra o mal”. Em vez de apresentar argumentos objetivos ou reconhecer responsabilidades institucionais, ele recorre ao apelo espiritual para pedir que autoridades sejam removidas por corrupção, injustiça e abuso de poder.
A contradição, no entanto, é evidente. Dallagnol foi afastado do cargo após acumular episódios que se tornaram símbolo de um método de atuação marcado por excessos, personalismo e violações de garantias legais. Ao pedir que Deus retire do poder quem “abusa do poder” e “pratica injustiça”, ele acaba descrevendo, ironicamente, o tipo de conduta que levou ao seu próprio afastamento.
A trajetória do ex-procurador ficou associada a um período em que a Lava Jato atuou como instrumento político, abrindo caminho para práticas de lawfare — a instrumentalização do sistema de Justiça para perseguir adversários e interferir no jogo democrático. Em vez de fortalecer o Estado de Direito, esse tipo de ação contribuiu para um ambiente de exceção, no qual convicções pessoais e objetivos políticos se sobrepunham à legalidade.
O tom de Dallagnol, agora como uma espécie de “pastor fanático” nas redes, reforça o caráter performático de sua atuação pública: um discurso moralizante que busca mobilizar seguidores, mas que evita enfrentar as consequências concretas de seus próprios atos. Ao transformar um tema institucional em oração e espetáculo, ele tenta reescrever a própria história como se fosse vítima, quando, na prática, foi afastado exatamente pelo tipo de comportamento que agora condena.
A fala também reacende o debate sobre os danos deixados pela Lava Jato no país: carreiras destruídas sem provas consistentes, interferência na política, uso seletivo de acusações e a corrosão da confiança no sistema de Justiça. Para muitos críticos, Dallagnol representa não o combate legítimo à corrupção, mas a face mais agressiva de um projeto de poder travestido de moralidade.
Ao pedir que Deus “afaste do cargo” quem pratica corrupção, abuso de poder e injustiça, Dallagnol acabou produzindo um retrato involuntário de sua própria queda — e do método que ajudou a institucionalizar.


