Excesso de proteína pode elevar riscos à saúde
Excesso de proteína é associado a doenças cardíacas, diabetes, câncer colorretal e problemas renais
247 - O excesso de proteína pode elevar riscos à saúde quando o consumo ultrapassa de forma consistente as necessidades do organismo, especialmente em dietas baseadas em grandes quantidades de carne vermelha e processada. Especialistas apontam associação com doenças cardíacas, diabetes tipo 2, câncer colorretal, problemas digestivos e sobrecarga renal, informa reportagem do The New York Times.
A percepção de que consumir mais proteína é sempre melhor tem ganhado força em supermercados, produtos industrializados e discursos sobre alimentação. Cereais, pipocas, misturas para panqueca e bebidas de café vêm sendo enriquecidos com o nutriente, enquanto diretrizes alimentares recentes dos Estados Unidos também passaram a dar maior destaque a fontes proteicas como bife, frango e queijo.
A proteína é indispensável para o funcionamento do corpo, mas especialistas afirmam que o aumento indiscriminado do consumo não representa, necessariamente, mais saúde. Bettina Mittendorfer, professora de nutrição e fisiologia do exercício na Faculdade de Medicina da Universidade de Missouri, afirma que o nutriente é essencial, mas que “mais não é necessariamente melhor”.
Não há uma regra única para definir quanto de proteína passa a ser excessivo. De acordo com os especialistas citados, muitas pessoas conseguem ultrapassar as recomendações sem apresentar problemas imediatos. Ainda assim, o alerta cresce quando a ingestão supera de forma significativa cerca de 1,2 grama de proteína por quilo de peso corporal ao dia, patamar mencionado por Mittendorfer como ponto a partir do qual podem surgir preocupações em alguns casos.
Nos Estados Unidos, pesquisas indicam que grande parte dos adultos já consome proteína acima do necessário para manter uma boa saúde. Um levantamento de 2025 com 3 mil adultos americanos apontou que 71% buscavam aumentar a ingestão do nutriente, ante 59% em 2022. O dado reforça a popularização de dietas hiperproteicas, muitas vezes associadas à perda de peso, ao ganho de massa muscular e à ideia de alimentação mais saudável.
Riscos ao coração e ao metabolismo
Uma das principais preocupações está na origem da proteína consumida. A maior parte da proteína ingerida pelos americanos vem de carnes e outros produtos de origem animal. Em estudo publicado em 2021, pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos identificaram que alimentos de origem animal, incluindo carne bovina, frango e carnes curadas, respondiam por quase 70% do consumo proteico.
Donald Hensrud, professor associado de nutrição e medicina preventiva na Faculdade de Medicina da Mayo Clinic, afirma que pessoas que consomem maiores quantidades de carne vermelha e carne processada tendem a apresentar riscos mais elevados de doenças cardíacas e diabetes tipo 2.
Uma ampla análise publicada em 2023 apontou que a ingestão diária adicional de 100 gramas de carne vermelha, quantidade semelhante a uma costeleta de porco fina e sem osso, esteve associada a aumento de 11% no risco de doenças cardíacas. No caso da carne vermelha processada, cada 50 gramas extras por dia, o equivalente aproximado a uma salsicha padrão, foram associados a elevação de 26% no risco.
Outro estudo de 2023, com quase 217 mil participantes, a maioria mulheres, indicou que os maiores consumidores de carne vermelha apresentavam risco 40% superior de desenvolver diabetes tipo 2 em comparação com os que consumiam menos. Entre os que ingeriam mais carne vermelha processada, o risco foi 51% maior.
A explicação passa, em parte, pela composição desses alimentos. Carnes vermelhas e processadas costumam ter níveis elevados de gorduras saturadas, que podem aumentar o colesterol LDL, conhecido como “ruim”, e contribuir para maior risco de infarto e acidente vascular cerebral. Hensrud também aponta que esses alimentos podem favorecer inflamação e resistência à insulina, fatores ligados tanto a doenças cardiovasculares quanto ao diabetes tipo 2.
Associação com câncer colorretal
O consumo elevado de carne vermelha e processada também é associado a maior risco de câncer, especialmente o colorretal. Hensrud afirma que esse é outro ponto de atenção em dietas com excesso de proteína animal.
Em estudo publicado em 2024, pesquisadores observaram que dietas ricas em carne vermelha estavam associadas a aumento de 30% no risco de desenvolver câncer colorretal. Já dietas com maior presença de carne processada foram associadas a uma elevação de 40% no risco.
Para Dariush Mozaffarian, cardiologista e diretor do Instituto Food Is Medicine da Universidade Tufts, fontes vegetais de proteína, como soja, lentilhas, feijões e castanhas, além de peixes e laticínios fermentados, como iogurte, aparecem como escolhas mais saudáveis. Segundo os especialistas, pessoas que priorizam vegetais, frutas e grãos integrais, combinados a proteínas magras ou vegetais, tendem a apresentar menor probabilidade de desenvolver alguns tipos de câncer, além de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2.
Falta de fibras e impacto no intestino
Outro risco das dietas muito focadas em proteína é a redução involuntária de alimentos ricos em fibras. Marc O’Meara, nutricionista do Hospital Brigham and Women’s, em Boston, afirma que pessoas que tentam aumentar a ingestão de proteína, especialmente em dietas com baixo teor de carboidratos, podem deixar em segundo plano vegetais e grãos integrais.
As fibras são essenciais para a saúde intestinal. Elas contribuem para a regularidade do trânsito intestinal e servem de alimento para os microrganismos que compõem o microbioma. Dietas mais ricas em fibras também podem reduzir a probabilidade de alguns distúrbios intestinais, como a síndrome do intestino irritável.
O’Meara recomenda equilíbrio nas refeições, com porções semelhantes de vegetais, proteína e grãos integrais na maior parte dos pratos. Para quem busca reduzir calorias com objetivo de emagrecer, a orientação mencionada é preencher metade do prato com vegetais e dividir a outra metade entre proteína e grãos integrais.
Proteína demais não garante emagrecimento
A popularidade das dietas ricas em proteína também se apoia na promessa de perda de peso e ganho de massa muscular. Especialistas, porém, alertam que o aumento do nutriente precisa estar ligado a uma rotina de exercícios adequada, sobretudo musculação ou atividades capazes de estimular a construção muscular.
Mozaffarian afirma que, sem treino suficiente para acompanhar o maior consumo proteico, qualquer excesso calórico, inclusive vindo da proteína, pode ser convertido em gordura pelo organismo. O’Meara também observa que privilegiar alimentos ricos em proteína em detrimento de vegetais pode aumentar a ingestão calórica total.
Como exemplo, o nutricionista compara meia xícara de vegetais cozidos, com cerca de 25 calorias em média, a meia xícara de frango cozido, com aproximadamente 140 calorias. Ao triplicar uma porção de frango para consumir mais proteína, a pessoa ingere de cinco a seis vezes mais calorias do que consumiria ao triplicar uma porção de vegetais.
Rins exigem atenção em grupos vulneráveis
Para pessoas com rins saudáveis, o consumo elevado de proteína tende a ser menos preocupante, segundo Hensrud. O cenário muda, no entanto, para quem tem doença renal crônica. Mais de um em cada sete americanos vive com essa condição, e o metabolismo de grandes quantidades de proteína pode ampliar a carga de trabalho dos rins, sobretudo entre pacientes próximos da necessidade de diálise.
Hensrud também afirma que pedras nos rins podem aparecer como possível efeito colateral do consumo excessivo de proteína animal. O risco, porém, é menor quando há ingestão adequada de água.
O alerta dos especialistas não é contra a proteína em si, mas contra o desequilíbrio alimentar. O nutriente segue sendo fundamental para a saúde, a manutenção dos tecidos e a massa muscular. O problema surge quando a busca por mais proteína substitui fibras, vegetais, grãos integrais e fontes mais saudáveis de nutrientes, ou quando o consumo se concentra em carnes vermelhas e processadas.



