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Governo Trump planeja enviar ao Quênia norte-americanos expostos ao Ebola

Plano do governo Trump prevê quarentena e tratamento no Quênia, em mudança na resposta dos EUA a surtos de Ebola

Um profissional de saúde veste equipamento de proteção contra o ebola em Beni, na República Democrática do Congo (Foto: REUTERS/Baz Ratner/Foto de arquivo)
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247 - O governo de Donald Trump prepara uma mudança significativa na forma como os Estados Unidos lidam com cidadãos norte-americanos expostos ao vírus Ebola: em vez de repatriá-los para observação e tratamento em território americano, a administração pretende encaminhá-los ao Quênia, onde seriam monitorados ou atendidos em uma estrutura montada no país africano, segundo o jornal O Globo.

A medida rompe com a prática adotada por governos anteriores dos Estados Unidos, que costumavam levar de volta ao país profissionais de saúde e outros cidadãos expostos ao Ebola para acompanhamento em unidades médicas especializadas. Neste mês, a própria administração Trump já havia transferido um médico americano com sintomas para um hospital na Alemanha, além de encaminhar outros seis americanos para monitoramento na Alemanha e na República Tcheca.

A nova estratégia surge em meio a uma rápida escalada da epidemia de Ebola na República Democrática do Congo (RDC). O surto já soma mais de mil casos e mais de 200 mortes em apenas 11 dias desde seu anúncio, tornando-se o terceiro maior já registrado da doença. A crise sanitária ocorre em um contexto de cortes de ajuda humanitária promovidos pela administração Trump, que encerraram redes importantes de vigilância epidemiológica e cadeias de suprimentos médicos que poderiam ter contribuído para detectar e conter a disseminação do vírus mais cedo.

Na semana passada, o governo americano também invocou uma lei de saúde pública conhecida como “Title 42” para impedir a entrada nos Estados Unidos de imigrantes e residentes permanentes legais que tivessem passado pela RDC, Uganda ou Sudão do Sul nos 21 dias anteriores. Agora, segundo pessoas com conhecimento dos planos, a proposta também manteria fora do território americano cidadãos dos EUA que possam ter sido expostos ao Ebola.

De acordo com essas fontes, algumas dezenas de oficiais do Serviço de Saúde Pública estão sendo treinados para atuar no Quênia e prestar atendimento médico a americanos considerados sob alto risco de desenvolver a doença. A ideia inicial era monitorar esses cidadãos no país africano e transferir para a Europa aqueles que apresentassem sintomas. No entanto, a administração passou a planejar também o tratamento no próprio Quênia.

Cientistas e médicos do governo americano que desenvolverem sintomas também deverão ser tratados no Quênia. A estrutura está sendo organizada por meio de uma ação coordenada entre os departamentos de Estado e Defesa e o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, segundo um funcionário da administração Trump. Cada caso, de acordo com esse funcionário, será avaliado individualmente caso haja necessidade de cuidados mais avançados.

Um porta-voz da Casa Branca se recusou a comentar o plano.

O Ebola tem taxa de mortalidade de cerca de 50%, mas o acesso rápido a atendimento de alta qualidade e a tratamentos adequados pode elevar de forma expressiva as chances de sobrevivência. Para especialistas, a decisão de não repatriar americanos expostos ao vírus representa uma mudança preocupante.

“Sabemos que as chances de eles sobreviverem a uma infecção por Ebola seriam maiores em unidades especializadas que foram projetadas para cuidar deles”, afirmou Tom Inglesby, diretor do Centro de Segurança Sanitária Johns Hopkins, da Escola de Saúde Pública Bloomberg.

Os Estados Unidos dispõem de várias instalações com tecnologia avançada para monitorar e tratar pessoas com doenças perigosas, incluindo o Ebola. Entre elas está uma unidade em Omaha, no Nebraska, onde 18 americanos estão sob observação por hantavírus após um surto em um navio de cruzeiro holandês neste mês.

Inglesby disse ter ficado especialmente surpreso com a possibilidade de oficiais do Serviço de Saúde Pública não serem levados de volta aos Estados Unidos para tratamento.

“Temos um forte compromisso ético de cuidar deles com o melhor tratamento possível nos Estados Unidos”, declarou.

Para Craig Spencer, especialista em saúde pública da Universidade Brown, a instalação planejada no Quênia pode até ser superior às disponíveis na RDC, mas dificilmente alcançaria o nível das unidades americanas criadas ao longo dos últimos anos para lidar com Ebola e outros vírus de alto risco.

“Considero difícil acreditar que eles conseguirão montar em questão de alguns dias ou até meses um sistema semelhante ao que foi criado ao longo da última década para fazer exatamente isso”, afirmou Spencer.

Médico de emergência, Spencer contraiu Ebola em 2014 após tratar pacientes na Guiné. Ele ficou internado por 19 dias na unidade de terapia intensiva do Bellevue Hospital, em Nova York. Para ele, manter americanos na África em vez de levá-los de volta ao próprio país representa “uma renúncia dramática do que devemos aos nossos próprios”.

O surto atual está concentrado na província de Ituri, na RDC, uma região marcada por conflito quase permanente e intensa mobilidade populacional. Esses fatores ampliam a dificuldade de conter a disseminação do vírus. A gravidade da epidemia levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificá-la, em meados de maio, como emergência de saúde pública de importância internacional.

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