HOME > Saúde

Pílula contra câncer de pâncreas dobra sobrevida de pacientes

Daraxonrasib reduziu risco de morte em pacientes com câncer de pâncreas metastático e pode mudar o padrão global de tratamento

Pílula contra câncer de pâncreas dobra sobrevida de pacientes (Foto: Gerada por IA)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - Uma pílula experimental contra câncer de pâncreas metastático apresentou resultados considerados decisivos em um estudo clínico de fase 3, ao quase dobrar a sobrevida de pacientes que já não respondiam à quimioterapia. O daraxonrasib, tomado uma vez ao dia, reduziu o risco de morte e foi apontado por pesquisadores como possível novo padrão de tratamento em segunda linha para a doença, informa o G1.

Os dados foram apresentados durante a ASCO, o maior congresso de oncologia do mundo, em Chicago, em uma sessão marcada por forte reação da plateia. Quando os resultados do estudo RASolute 302 apareceram na tela, médicos e pesquisadores aplaudiram de pé, em um momento incomum para congressos científicos.

O daraxonrasib já havia chamado atenção em abril, quando a farmacêutica norte-americana Revolution Medicines divulgou os primeiros resultados do medicamento. Naquele momento, porém, os dados ainda eram preliminares e haviam sido apresentados por uma empresa com interesse direto no desenvolvimento da droga. A confirmação mais relevante veio agora, com a conclusão do ensaio clínico randomizado de fase 3, considerado um dos padrões mais rigorosos da medicina.

O estudo avaliou 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático que já não tinham resposta satisfatória à quimioterapia. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos: um recebeu o comprimido experimental e o outro seguiu com o tratamento convencional. Esse tipo de desenho clínico busca reduzir vieses e permitir que a diferença nos resultados seja atribuída ao medicamento testado.

Entre os pacientes com a mutação RAS G12, a mais comum no câncer de pâncreas, a sobrevida mediana foi de 13,2 meses com o daraxonrasib, contra 6,6 meses no grupo tratado com quimioterapia. A sobrevida mediana indica o ponto em que metade dos pacientes viveu mais do que esse período e metade viveu menos.

Outro dado relevante foi a queda de 60% no risco de morte. O tempo até a doença voltar a progredir também aumentou: foram 7,3 meses no grupo que tomou a pílula, diante de 3,5 meses entre os pacientes que receberam quimioterapia.

Os resultados permaneceram semelhantes quando os pesquisadores analisaram todos os participantes do estudo, incluindo aqueles sem mutação RAS identificada. Além disso, mais de 31% dos pacientes tratados com daraxonrasib tiveram redução mensurável do tumor. No grupo da quimioterapia, esse índice foi de 11,2%.

O perfil de segurança do medicamento também chamou atenção. Apenas 1,2% dos pacientes que usaram daraxonrasib precisaram interromper o tratamento por efeitos colaterais. Entre os que receberam quimioterapia, a taxa de interrupção foi de 11,2%.

A conclusão dos pesquisadores, publicada no Journal of Clinical Oncology, foi direta: o daraxonrasib deve se tornar o novo padrão de tratamento para pacientes com câncer de pâncreas metastático em segunda linha.

Presente na sessão plenária em Chicago, o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation, afirmou que a reação da plateia foi compatível com a importância dos resultados. "Raramente celebramos um medicamento com esse perfil: baixa toxicidade, impacto real em sobrevida e um mecanismo inédito para essa doença", disse Stefani.

"Eram mais de 500 pacientes com câncer de pâncreas avançado, já sem resposta à quimioterapia, avaliados no desenho mais rigoroso da pesquisa clínica —e com sobrevida dobrada em relação ao padrão anterior. O aplauso em pé foi merecido", afirmou o oncologista.

Stefani também destacou que a mediana de sobrevida não representa o limite de benefício para todos os pacientes. "Os 13 meses são uma mediana —há pacientes que viveram muito além disso. Mais de 30% tiveram redução objetiva da doença, com duração suficiente para ampliar a sobrevida de forma significativa. E o perfil de toxicidade é manejável, o que, numa doença dessa gravidade, não é um detalhe menor", declarou.

Para o especialista, o estudo representa um avanço em uma área historicamente marcada por poucas opções terapêuticas. "O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada —a de oferecer sobrevida real a pacientes para os quais, até agora, pouco havia a fazer", disse.

O câncer de pâncreas é considerado uma das doenças oncológicas mais difíceis de tratar. Em muitos casos, ele evolui silenciosamente e não provoca sintomas claros nas fases iniciais. Quando o diagnóstico ocorre, cerca de 80% dos casos já estão em estágio avançado ou metastático, quando a doença se espalhou para outros órgãos e a cirurgia deixa de ser uma alternativa viável.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 60 mil pessoas recebem o diagnóstico por ano, e cerca de 50 mil morrem em decorrência da doença. No Brasil, são cerca de 13 mil novos casos anuais, com aproximadamente 12 mil mortes. Na forma metastática, a sobrevida em cinco anos é de cerca de 3%, uma das mais baixas entre todos os tipos de câncer.

Parte da dificuldade no tratamento está relacionada à proteína RAS, que funciona como uma espécie de interruptor celular. Quando sofre mutação, ela permanece ativada e estimula o crescimento e a invasão de células tumorais. Esse mecanismo está presente em mais de 90% dos tumores pancreáticos.

Durante décadas, pesquisadores tentaram bloquear a proteína RAS sem sucesso. A molécula ficou conhecida na literatura médica como “undruggable”, termo usado para indicar um alvo considerado difícil ou praticamente impossível de ser atingido por medicamentos. O daraxonrasib avançou justamente nesse ponto, ao atuar sobre várias variantes da mutação.

Para os pacientes do estudo, todos com doença metastática e sem alternativas após a quimioterapia, o ganho mediano foi de 6,5 meses de vida em relação ao tratamento convencional.

O próximo passo será a análise regulatória. A Revolution Medicines confirmou que pretende submeter os dados à Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, em um pedido formal de aprovação. O medicamento já recebeu o status de Breakthrough Therapy, classificação destinada a tratamentos que demonstram vantagem substancial sobre opções existentes e que permite análise prioritária.

A droga também recebeu designação de medicamento órfão e foi selecionada para o programa National Priority Voucher, que pode acelerar ainda mais a revisão. Nos Estados Unidos, o acesso compassional já está autorizado para casos selecionados de pacientes sem outras opções terapêuticas.

No Brasil, o caminho tende a ser mais longo. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária precisaria conduzir seu próprio processo de avaliação e aprovação. No sistema privado, a Agência Nacional de Saúde Suplementar ainda teria que publicar uma diretriz técnica para tornar obrigatória a cobertura pelos planos de saúde.

No sistema público, o custo aparece como um dos principais obstáculos. O valor pago para tratar um paciente com câncer de pâncreas é de cerca de R$ 1.986, enquanto novas drogas oncológicas chegam a custar, em média, dez mil dólares por mês no mercado norte-americano.

Até o momento, não há previsão concreta sobre quando o daraxonrasib poderá estar disponível no Brasil. O avanço, no entanto, já é tratado por especialistas como um dos marcos mais relevantes na busca por novas opções contra o câncer de pâncreas metastático.

"O resultado confirma que estamos avançando numa direção que por muito tempo pareceu fechada: a de oferecer ganho real em sobrevida a pacientes que, até agora, tinham poucas alternativas", concluiu Stefani.

Artigos Relacionados