PF acessa celular usado por Cláudio Castro no dia a dia
Aparelho estava bloqueado por senha, não informada às autoridades, e agora passa por análise do conteúdo apreendido
247 - A Polícia Federal conseguiu acessar o celular usado por Cláudio Castro em sua rotina diária, após apreender três aparelhos na residência do ex-governador. O aparelho principal estava protegido por senha, que o ex-chefe do Executivo fluminense optou por não entregar às autoridades. Mesmo assim, a PF desbloqueou o celular e iniciou a análise do conteúdo armazenado. A informação foi publicada neste domingo (14) pela coluna de Lauro Jardim.
Dos três telefones recolhidos na casa de Cláudio Castro, um estava inativo havia anos. Outro tinha apenas dez dias de uso. Por esse motivo, os investigadores concentraram atenção no aparelho utilizado no dia a dia.
A análise do material pode ajudar a esclarecer informações presentes no dispositivo, como registros, comunicações e dados relacionados à rotina do ex-governador. O conteúdo do celular passa agora por exame das autoridades responsáveis pelo caso.
Com o desbloqueio, a investigação avança para uma nova etapa, baseada na verificação do conteúdo encontrado no celular apreendido.
Investigações
Ex-governador é alvo de apurações sobre Ceperj, Refit, Rioprevidência, Banco Master e Fundação Leão XIII. Cláudio Castro responde a diferentes frentes de investigação e ações judiciais que apuram suspeitas de corrupção, uso político da máquina pública e favorecimento empresarial durante sua passagem pelo Palácio Guanabara, de acordo com o Portal G1.
As apurações alcançam episódios que remontam ao período em que Castro ainda ocupava a vice-governadoria na gestão de Wilson Witzel e envolvem casos como Fundação Leão XIII, Fundação Ceperj, Grupo Refit, Rioprevidência e Banco Master.
O conjunto de investigações coloca sob análise decisões administrativas, contratos, pagamentos, investimentos públicos e relações com empresários. Em diferentes momentos, órgãos como Ministério Público do Rio, Tribunal de Contas do Estado, Tribunal Superior Eleitoral, STF, STJ e PF (Polícia Federal) passaram a atuar sobre os casos.
Fundação Leão XIII
Uma das primeiras frentes surgiu a partir da Operação Catarata, que investigou um suposto esquema de corrupção na Fundação Leão XIII, órgão ligado à assistência social do governo estadual.
De acordo com o Ministério Público do Rio, o esquema teria provocado prejuízo de até R$ 32 milhões aos cofres públicos. Em agosto de 2020, 25 pessoas foram denunciadas no caso.
A investigação passou a envolver diretamente Cláudio Castro após o empresário Marcus Vinícius Azevedo da Silva fechar acordo de delação premiada. Ele afirmou que Castro, então vice-governador, participava do esquema.
Marcus Vinícius relatou ao Ministério Público do Rio que ajudou a financiar a campanha de Castro a vereador, em 2016. Depois, segundo seu depoimento, ele passou a atuar como assessor de Castro na Câmara Municipal do Rio.
Em abril de 2023, o ministro Raul Araújo, do Superior Tribunal de Justiça, autorizou a abertura de investigação contra Cláudio Castro. Em outubro de 2024, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou o trancamento do inquérito.
A defesa alegou que promotores já tinham certeza sobre o possível conteúdo de depoimento complementar de Marcus Vinícius antes mesmo de ouvi-lo e teriam direcionado a oitiva para obter novas provas apenas contra Castro.
André Mendonça concordou com a defesa e entendeu que o Ministério Público do Rio violou regras de competência ligadas ao foro privilegiado. Como governador, Castro só poderia ser investigado pela Procuradoria-Geral da República.
Ceperj e as “folhas secretas”
Outro foco de apuração envolve a Fundação Ceperj, em um escândalo que ficou conhecido pelas “folhas secretas”. O caso trata de pagamentos feitos a milhares de contratados sem transparência adequada sobre nomes, funções e vínculos.
Investigações do Ministério Público e do Tribunal de Contas do Estado apontaram que os pagamentos ocorriam por ordens bancárias, sem depósito em conta. Esse modelo dificultava o rastreamento dos recursos.
As apurações indicaram suspeitas de funcionários fantasmas, rachadinha, uso político das contratações e utilização da estrutura da fundação como máquina eleitoral.
Segundo o Ministério Público Eleitoral, milhares de contratados teriam atuado informalmente como cabos eleitorais durante a campanha de 2022. A prática, de acordo com a acusação, teria desequilibrado a disputa e favorecido o grupo ligado a Castro, que venceu em primeiro turno.
O caso também chamou atenção pelo volume de saques em dinheiro vivo. Mais de R$ 220 milhões teriam sido retirados diretamente “na boca do caixa”, segundo as investigações.
O episódio levou a uma ação no Tribunal Superior Eleitoral contra Cláudio Castro, o vice Thiago Pampolha e o deputado estadual Rodrigo Bacellar por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2022.
Em março deste ano, o TSE decidiu tornar Cláudio Castro inelegível por oito anos. Para evitar a cassação, ele renunciou um dia antes do julgamento.
A defesa do ex-governador afirma que as acusações tratam de fatos anteriores ao período eleitoral e sustenta que não houve influência sobre o resultado das eleições. Castro informou que pretende recorrer da decisão.
Grupo Refit
A Operação Sem Refino, deflagrada pela Polícia Federal em 15 de maio, investiga um suposto esquema de fraudes fiscais, evasão de recursos públicos e favorecimento ilegal ao Grupo Refit, antiga Refinaria de Manguinhos.
Cláudio Castro foi alvo de buscas em um apartamento na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Policiais apreenderam dois celulares e um computador.
Segundo a PF, a investigação apura se integrantes do Governo do Rio de Janeiro atuaram para beneficiar a empresa. A Refit é considerada uma das maiores devedoras de impostos do país e tem como dono Ricardo Magro, que está foragido.
A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, afirma haver indícios de uma “cooptação integral do Estado do Rio de Janeiro pela Refit”.
A investigação segue em andamento no Supremo Tribunal Federal. Ricardo Magro teve prisão decretada por Alexandre de Moraes, é considerado foragido pela Justiça brasileira e teve o nome incluído na lista vermelha da Interpol.
A defesa de Cláudio Castro afirma que todos os atos praticados durante sua gestão obedeceram a critérios técnicos e legais previstos na legislação. Também sustenta que o governo recuperou quase R$ 1 bilhão em pagamentos da refinaria ao estado.
Rioprevidência e Banco Master
Cláudio Castro também entrou no radar da 8ª fase da Operação Compliance Zero, realizada pela Polícia Federal em 26 de maio. A ação cumpriu 10 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em Brasília, por determinação do ministro André Mendonça, do STF.
A apuração investiga a transferência de cerca de R$ 3,7 bilhões em recursos do Rioprevidência para fundos ligados ao Banco Master, de Daniel Vorcaro.
Segundo a PF, os investimentos ocorreram entre 2023 e 2025 e envolveram aplicações em letras financeiras e fundos ligados ao Master, com taxas consideradas mais atrativas que as de outras instituições.
Os recursos pertencem ao Rioprevidência, fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de cerca de 237 mil beneficiários do estado.
Em maio do ano passado, o Tribunal de Contas do Estado já havia apontado “graves irregularidades” nos investimentos. Em outubro, o TCE determinou a suspensão de novas operações entre o Rioprevidência e o Banco Master.
A folha de pagamento dos inativos e pensionistas do Rioprevidência reúne 241.927 servidores, conforme dados de abril da Subsecretaria de Gestão de Pessoas da Casa Civil. O gasto mensal com a folha chega a R$ 2,1 bilhões. Assim, os R$ 3,7 bilhões aplicados no Master equivalem a quase dois meses de pagamento.
A investigação segue em andamento no STF e é conduzida pela Polícia Federal.
Daniel Vorcaro está preso desde março deste ano, após ser alvo da Operação Compliance Zero. Antes disso, ele já havia sido detido por um período em novembro do ano passado.
A defesa de Cláudio Castro informou que o ex-governador acompanhou as buscas “com serenidade”.
Outro lado
Veja abaixo a íntegra do posicionamento de Castro sobre as investigações, conforme notas publicadas no Portal G1:
Ceperj e a inegibilidade (nota de março):
"Tenho plena convicção de que sempre governei o Rio de Janeiro dentro da legalidade, com responsabilidade e absoluto compromisso com a população.
Recebo com grande inconformismo a decisão que, hoje, vai contra a vontade soberana dos quase 5 milhões de eleitores fluminenses que me confiaram o mandato de governador já no primeiro turno das eleições de 2022.
Reitero meu absoluto respeito aos Ministros do TSE e ao devido processo legal, mas é importante que se diga que todas as acusações apontadas no processo se referem a questões anteriores ao período eleitoral de 2022 e não tiveram qualquer influência na expressiva votação que recebi. Isso foi reconhecido pelo TRE do Rio de Janeiro.
Após obter acesso ao acórdão, pretendo recorrer e lutar até a última instância para restabelecer o que considero um desfecho justo para esse caso."
Operação Sem Refino (nota de 15 de maio):
"A defesa do ex-governador do Rio Cláudio Castro afirma que foi surpreendida com a operação de hoje [sexta] e que ainda não tomou conhecimento do objeto do pedido de busca e apreensão. No entanto, Castro está à disposição da Justiça para dar todas as explicações convicto de sua lisura.
Todos os procedimentos praticados durante a sua gestão obedeceram aos critérios técnicos e legais previstos na legislação vigente, inclusive aqueles relacionados à política de incentivos fiscais do estado, que seguem normas próprias, análises técnicas e deliberação dos órgãos competentes.
É de suma importância destacar que a gestão Cláudio Castro foi a única a conseguir que a Refinaria de Manguinhos pagasse dívidas com o estado, o que reforça a postura isenta e institucional do ex-governador. No total, gestão conseguiu garantir o pagamento de parcelas cujo montante se aproxima de R$ 1 bilhão.
Atualmente, o parcelamento se encontra suspenso por força de decisão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em agravo de instrumento.
Ao longo da gestão, a PGE (Procuradoria-Geral do Estado) ingressou com inúmeras ações contra a Refit, o que demonstra que a Procuradoria sempre atuou para que a empresa pagasse o que deve ao Estado.
Cláudio colaborou com a busca, que ocorreu sem qualquer intercorrência, e nada de relevante foi apreendido.”
Rioprevidência:
“A defesa do ex-governador Cláudio Castro informa que ainda não teve acesso aos autos do processo na íntegra e, portanto, não pode comentar detalhes de elementos que desconhece na totalidade.
A defesa nega de forma categórica qualquer relação pessoal indevida entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Os contatos entre ambos aconteceram em agendas oficiais, institucionais e também em encontros sociais e de networking, comuns ao exercício da função pública e à relação com representantes do setor empresarial, sem qualquer tratativa ilícita, favorecimento ou recebimento de benefício pessoal.
A defesa esclarece ainda que Cláudio Castro não conhece o citado Ricardo apontado como suposto intermediário ou elo entre ele e Daniel Vorcaro.
Também não procede a informação de que viagens, passagens ou despesas pessoais de Cláudio Castro tenham sido custeadas por Daniel Vorcaro, assim como não houve qualquer tipo de benefício pessoal recebido pelo ex-governador.
Todos os investimentos realizados pelo Rioprevidência seguiram fluxos técnicos, jurídicos e administrativos próprios da autarquia, dentro dos limites aprovados pelo Conselho de Administração e em conformidade com as regras previstas na Resolução CMN nº 4.963/2021, em operações conduzidas com instituição autorizada e supervisionada pelo Banco Central.
Cláudio Castro jamais integrou qualquer comitê de investimentos do Rioprevidência, não participava das decisões técnicas da carteira da autarquia e nunca exerceu função operacional relacionada aos investimentos realizados pelo instituto, o que demonstra a autonomia técnica dos executivos e órgãos internos responsáveis pelas análises e deliberações.
Assim que surgiram questionamentos sobre operações envolvendo o Banco Master, o próprio ex-governador determinou a adoção imediata de medidas de apuração e controle, incluindo o afastamento da presidência do Rioprevidência e a instauração de procedimento interno pela Controladoria-Geral do Estado.
Cabe ainda ressaltar que, em dezembro de 2025, houve o resgate de aproximadamente R$ 1,4 bilhão de fundo administrado pelo Banco Master, garantindo a proteção do patrimônio previdenciário dos servidores ativos, aposentados e pensionistas do Estado do Rio de Janeiro.
As compras de Letras Financeiras do Banco Master foram encerradas ainda em 2024. Não houve novos aportes após determinação do TCE-RJ. O Fundo Arena foi integralmente resgatado em 2025, sem qualquer prejuízo ao Rioprevidência, e o Fundo Revolution teve pedido de resgate realizado pela autarquia em janeiro de 2026.
Importante destacar que todos os recursos investidos nos fundos ligados ao Banco Master que foram integralmente recuperados já foram ressarcidos ao caixa do Estado. Parte desses valores, inclusive, foi utilizada para garantir o pagamento da folha previdenciária.
A defesa reafirma sua confiança no completo esclarecimento dos fatos e no trabalho das instituições.”



