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Trabalho exaustivo na colheita de café expõe jornadas de até 91 horas semanais

Relatório revela condições degradantes em fazendas mineiras

Funcionário trabalha em plantação de café (Foto: Alexandre Meneghini/Reuters)

247 - Um trabalhador rural aceita uma proposta para atuar na colheita de café em Minas Gerais com promessa de boa remuneração por produtividade, mas encontra uma realidade marcada por dívidas, custos inesperados e jornadas exaustivas que começam antes mesmo do primeiro dia de trabalho efetivo. Após viajar por dias, ele descobre que precisa arcar com equipamentos e despesas básicas, acumulando débitos enquanto trabalha do nascer ao pôr do sol, relata o blog Café na Prensa, da Folha de São Paulo.

O cenário é detalhado no relatório Forced Labour Risks in Brazil's Coffee Supply Chains, elaborado pela KnowTheChain em parceria com a Adere-MG (Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais). O estudo ouviu 24 trabalhadores de fazendas fiscalizadas durante a safra de 2025, trazendo relatos que, embora não representem toda a cafeicultura brasileira, apontam situações que se enquadram como trabalho análogo à escravidão, conforme previsto no Código Penal.

Enquanto o país discute propostas de mudança na escala de trabalho, como o fim do regime 6x1, os relatos mostram uma realidade ainda mais dura em determinadas propriedades. Os trabalhadores afirmam cumprir jornadas que variam entre 59 e 91 horas semanais. Há casos de início de trabalho às 5h30 e retorno apenas após o anoitecer, sem pausas para refeições, já que o pagamento depende diretamente da produtividade.

Segundo o relatório, muitos trabalhadores se alimentam rapidamente, em pé, para não comprometer o rendimento. O único dia de descanso, aos domingos, não é remunerado e acaba sendo utilizado para atividades básicas, como lavar roupas e comprar mantimentos. As condições de moradia também são precárias: casas com até 28 pessoas dividindo um único banheiro, sem utensílios essenciais e, em alguns casos, sem colchões.

Outro fator recorrente é o endividamento. A alimentação é comprada em armazéns indicados pelo empregador, muitas vezes a crédito, com os valores descontados posteriormente do salário. Esse mecanismo contribui para a permanência forçada no trabalho, uma das características previstas no artigo 149 do Código Penal, que tipifica como crime submeter alguém a condições análogas à escravidão.

O relatório opta por não identificar fazendas, empregadores ou cooperativas, alegando questões de segurança dos trabalhadores. Ainda assim, os casos descritos remetem a práticas históricas, como o colonato nos cafezais do século 19, marcado por promessas de trabalho que se transformam em ciclos de dívida e exploração.

As denúncias começam a ter repercussão internacional. Em 2025, trabalhadores brasileiros moveram uma ação contra a Starbucks em um tribunal dos Estados Unidos. A organização Coffee Watch também solicitou ao órgão alfandegário norte-americano a proibição da importação de café associado a trabalho forçado no Brasil. Além disso, reclamações foram apresentadas com base na legislação alemã sobre cadeias de suprimentos.

Um dos trabalhadores ouvidos resume a experiência: "Eu nunca mais voltaria. Porque lá não tem nada, só trabalho. Porque você não sabe quanto vai ganhar. Tem muita conta para pagar —acomodação, comida, máquina de colher, gás". Ele acrescenta: "Você sai de casa para ver se consegue algo para pagar suas dívidas, chega lá e se endivida mais".

Procurada, a Faemg (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais) afirmou que o Brasil possui um dos sistemas de fiscalização trabalhista rural mais estruturados do mundo e que irregularidades são identificadas e punidas. A entidade destacou que a cafeicultura é composta majoritariamente por pequenos e médios produtores e que os casos registrados não representam o funcionamento regular da cadeia produtiva.

Em nota, a federação declarou que "as ocorrências eventualmente registradas são justamente resultado dessa fiscalização ativa e não representam o funcionamento regular da cadeia produtiva". Também afirmou que "a ampla maioria dos produtores rurais brasileiros cumpre a legislação e trabalha diariamente para gerar emprego, renda e desenvolvimento em suas regiões", além de alertar que generalizações podem distorcer a realidade do setor.

A Faemg informou ainda que participa do Pacto pela Adoção de Boas Práticas Trabalhistas na Cafeicultura e promove capacitações voltadas à legislação trabalhista e segurança no trabalho.

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