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Argentina e EUA iniciam exercício militar criticado no mês do aniversário da Guerra das Malvinas

Operação “Daga Atlântica”, oficializada por Javier Milei, provoca reação por envolver tropas dos Estados Unidos em território argentino

O presidente dos EUA, Donald Trump, recebe o presidente da Argentina, Javier Milei, na Casa Branca em Washington, DC, EUA, em 14 de outubro de 2025 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

247 – O governo de Javier Milei oficializou a entrada de tropas dos Estados Unidos em território argentino para a realização do exercício militar “Daga Atlântica”, medida que reacendeu críticas no país por ocorrer no mês em que se recorda o 44º aniversário da Guerra das Malvinas. A informação foi publicada originalmente pela teleSUR neste sábado, com base em dados do Boletim Oficial argentino e em informações de agências.

Segundo a publicação, a decisão foi formalizada na sexta-feira com a assinatura de Milei e de seus ministros, consolidando uma nova etapa da cooperação militar entre Buenos Aires e Washington. O exercício será realizado entre 21 de abril e 12 de junho, com operações em áreas terrestres e marítimas, dentro de uma agenda que o governo argentino apresenta como estratégica para fortalecer a relação bilateral em matéria de defesa.

A operação contará com a participação de comandos da Marinha, forças especiais dos Marines e unidades operacionais da Força Aérea, além do emprego de helicópteros Blackhawk e aeronaves de apoio tático. De acordo com as informações divulgadas, os treinamentos serão voltados para missões de alta complexidade, incluindo ações antiterroristas, operações de resgate de pessoas mantidas contra a vontade e manobras coordenadas em ambientes de elevada exigência operacional.

Os exercícios acontecerão na Base Naval de Puerto Belgrano, na Guarnição Militar de Córdoba e na VII Brigada Aérea da Força Aérea Argentina. A escolha do calendário, porém, ampliou o desgaste político em torno da iniciativa. Isso porque o treinamento ocorre justamente em abril, mês profundamente sensível para a memória nacional argentina por causa da guerra travada em 1982 contra o Reino Unido pelas ilhas Malvinas.

A coincidência temporal foi um dos principais fatores a alimentar a contestação política. A deputada Agustina Propato criticou a realização do exercício por considerar que a presença militar dos Estados Unidos, aliado estratégico do Reino Unido, fere a posição histórica da Argentina sobre a soberania das Malvinas. A objeção ganha ainda mais peso diante de relatos sobre a presença de militares britânicos nas ilhas, o que intensifica o mal-estar em setores políticos e nacionalistas argentinos.

A crítica de Propato se ancora em um ponto central da diplomacia argentina: a reivindicação permanente sobre as Malvinas como território soberano. Nesse contexto, a aproximação militar com Washington é vista por opositores como uma contradição grave, uma vez que os Estados Unidos mantêm uma aliança estrutural com Londres. Para esses setores, a “Daga Atlântica” representa mais do que um simples exercício de cooperação: simboliza um gesto político que enfraquece a coerência da posição argentina no contencioso do Atlântico Sul.

Do lado do governo Milei, no entanto, a operação é apresentada como uma oportunidade de ampliação da cooperação militar, fortalecimento institucional e eventual atração de investimentos vinculados à área de defesa e segurança. A administração argentina sustenta que a aproximação com os Estados Unidos reforça o papel do país como parceiro estratégico em temas de segurança global, em linha com o realinhamento internacional promovido por Milei desde o início de seu mandato.

A leitura em Washington, segundo a teleSUR, também carrega forte componente geopolítico. O exercício “Daga Atlântica” é interpretado nos Estados Unidos como parte de uma estratégia para conter a influência crescente da China na região, em diferentes esferas da política econômica e social. Dessa forma, a manobra militar ultrapassa a dimensão estritamente operacional e se insere numa disputa mais ampla por influência na América Latina, onde as tensões entre Washington e Pequim vêm se refletindo com intensidade crescente.

Esse pano de fundo ajuda a explicar por que a iniciativa é alvo de tantas controvérsias. Para além do discurso sobre interoperabilidade militar e combate a ameaças complexas, a operação inscreve a Argentina de Milei num tabuleiro geopolítico mais agressivo, alinhado aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Em um momento de reorganização das disputas globais, a decisão do governo argentino de abrir seu território para esse tipo de exercício militar tende a aprofundar divisões internas e a acirrar o debate sobre soberania, política externa e subordinação estratégica.

A operação havia sido inicialmente programada para 6 de abril, mas acabou adiada. Segundo a teleSUR, o cronograma foi alterado em razão da guerra iniciada pela coalizão israelo-estadunidense contra o Irã, o que obrigou a uma revisão da agenda de cooperação. O adiamento, porém, não eliminou o impacto simbólico da iniciativa, que segue cercada de forte rejeição justamente por sua conexão temporal e política com a questão das Malvinas.

Com isso, a “Daga Atlântica” se converte em mais um episódio do reposicionamento internacional promovido pelo governo Milei, marcado pela aproximação acelerada com Washington e pela adoção de uma agenda de defesa cada vez mais vinculada aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Para críticos da medida, trata-se de uma decisão que amplia a dependência externa da Argentina e fragiliza uma causa histórica central da identidade nacional: a defesa da soberania sobre as Malvinas.

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