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Colômbia busca apoio do Brasil contra ameaça dos EUA

Depois de atacar a Venezuela e sequestrar Maduro, Trump fala publicamente em lançar uma operação contra Gustavo Petro, da Colômbia

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e presidente da Colômbia, Gustavo Petro (Foto: REUTERS/Luisa Gonzalez)

247 - O governo da Colômbia aprofundou a busca por apoio diplomático do Brasil em meio à escalada de tensões provocada pelas ações militares dos Estados Unidos na Venezuela e por declarações do presidente norte-americano, Donald Trump, que admitiu considerar positiva uma eventual operação militar também contra território colombiano. O movimento de Bogotá ocorre diante do temor de que a instabilidade regional se agrave e ultrapasse as fronteiras venezuelanas, informa Paulo Cappelli, do Metrópoles.

Assessores do presidente Gustavo Petro procuraram técnicos do Itamaraty para discutir mecanismos de proteção internacional. A avaliação no Ministério das Relações Exteriores do Brasil é de que há preocupação concreta de que Washington amplie o alcance de suas operações militares na América do Sul.

A apreensão ganhou novos contornos após declarações de Donald Trump na noite de domingo (4), feitas a repórteres a bordo do Air Force One. Um dia depois da ofensiva militar dos Estados Unidos na Venezuela, que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, em Caracas, Trump afirmou ver “com bons olhos” a possibilidade de uma ação militar contra a Colômbia. Ao comentar a situação, fez ataques diretos ao presidente colombiano. “A Colômbia é governada por um homem doente, que gosta de produzir e enviar cocaína aos Estados Unidos, e ele não vai fazer isso por muito mais tempo”, declarou. Questionado sobre uma eventual ofensiva militar, respondeu que a ideia lhe parecia boa.

Ainda no domingo, Gustavo Petro reagiu à operação contra Maduro, classificando-a como um sequestro e questionando sua legalidade. “Sem base legal para realizar uma ação contra a soberania da Venezuela, a detenção se transforma em sequestro”, escreveu o presidente colombiano em publicação na rede social X. Petro é um crítico frequente de Donald Trump e se posiciona contra ações militares dos Estados Unidos na região, que Washington afirma ter como objetivo o combate ao narcotráfico.

Diante da repercussão das falas do presidente norte-americano, Petro divulgou uma longa mensagem na qual afirmou que só responderia plenamente após confirmar o sentido exato das declarações em inglês atribuídas a Trump. O presidente colombiano classificou as falas como uma “ameaça ilegítima” e advertiu para o risco de uma crise política e social de grandes proporções caso haja qualquer ação contra seu governo. “Hoje verei se as palavras em inglês de Trump se traduzem como diz a imprensa nacional. Portanto, mais tarde as responderei até saber o que significa realmente a ameaça ilegítima de Trump”, escreveu.

Na mesma manifestação, Petro criticou duramente o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, que teria tentado dissociar setores do governo norte-americano das declarações do presidente. “Em relação ao senhor Rubio, que desliga autoridades do presidente e diz que o presidente não quer colaborar e que as autoridades sim, solicito que leia a Constituição da Colômbia porque sua informação é completamente errada”, afirmou.

O tom da mensagem se intensificou quando o presidente colombiano mencionou a possibilidade de ser alvo direto de ações externas. “E se detêm o presidente que boa parte do meu povo quer e respeita, despertarão o jaguar popular”, escreveu, sugerindo que uma medida desse tipo poderia desencadear mobilizações massivas e um cenário de confronto interno e externo.

Petro afirmou ainda ter dado ordens explícitas às forças armadas e à polícia em defesa da soberania nacional. “Cada soldado da Colômbia tem uma ordem desde já: todo comandante da força pública que prefira a bandeira dos EUA à bandeira da Colômbia se retira imediatamente da instituição”, declarou, ressaltando que a Constituição determina que a força pública deve defender a soberania popular.

Em outro trecho, o presidente afirmou que, embora não seja militar, conhece “a guerra e a clandestinidade” e lembrou que jurou não voltar a usar armas após o pacto de paz de 1989. Ainda assim, deixou uma advertência simbólica: “Mas pela Pátria tomarei de novo as armas que não quero”.

Petro também rebateu as acusações feitas por Donald Trump, negando qualquer ligação com o narcotráfico ou questionamentos sobre sua legitimidade. “Não sou ilegítimo, nem sou narco. Só tenho como bem minha casa familiar, que ainda pago com meu salário”, escreveu, acrescentando que seus extratos bancários são públicos e que ninguém conseguiu provar gastos superiores à sua renda.

Ao final da mensagem, o presidente colombiano convocou a população a se mobilizar contra qualquer tentativa de agressão que considere ilegítima. “Eu tenho uma enorme confiança em meu povo e por isso solicitei ao povo que defenda o presidente de qualquer ato violento ilegítimo contra ele. A forma de me defender é tomar o poder em todos os municípios do país”, afirmou.

Enquanto isso, a crise segue no centro da agenda internacional. Líderes da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) se reuniram no domingo para discutir a situação na Venezuela e buscar uma resposta regional coordenada, sem chegar a consenso. Já o Conselho de Segurança da ONU agendou para esta segunda-feira (5) um debate sobre os ataques realizados na Venezuela, ampliando o peso diplomático do impasse que envolve Estados Unidos, Colômbia e o conjunto da América Latina.

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