Petro reage às ameaças de Trump e alerta para risco de escalada: “A ameaça ilegítima pode despertar o jaguar popular”
Presidente colombiano contesta declarações de Trump e de Rubio e reforça que a Constituição o torna comandante supremo das Forças Armadas
247 – O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, reagiu com contundência às ameaças feitas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e publicou uma mensagem longa e detalhada na qual afirma que só responderá plenamente após confirmar o sentido exato das declarações em inglês atribuídas ao mandatário norte-americano. Petro classificou as falas como uma “ameaça ilegítima” e advertiu que qualquer ação contra seu governo pode provocar uma crise política e social de grandes proporções.
“Hoje verei se as palavras em inglês de Trump se traduzem como diz a imprensa nacional. Portanto, mais tarde as responderei até saber o que significa realmente a ameaça ilegítima de Trump”, escreveu Petro, sinalizando que considera possível haver distorções ou exageros na forma como as declarações foram repercutidas.
Na sequência, o presidente colombiano dirigiu críticas diretas ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, que teria tentado dissociar autoridades americanas do presidente norte-americano, afirmando que Trump não desejaria colaborar, mas setores do governo sim. Petro rebateu de forma dura: “Em relação ao senhor Rubio, que desliga autoridades do presidente e diz que o presidente não quer colaborar e que as autoridades sim, solicito que leia a Constituição da Colômbia porque sua informação é completamente errada”.
Interesses externos
Petro afirmou que esse tipo de narrativa estaria sendo alimentada por interesses internos ligados ao narcotráfico e por setores políticos colombianos que, segundo ele, desejam uma ruptura entre Washington e Bogotá para permitir que o tráfico de cocaína “dispare no mundo”. Ele afirmou que tais grupos teriam vínculos familiares ou comerciais com a máfia e estariam atuando para desorganizar as relações bilaterais e ampliar a instabilidade regional.
O presidente também revelou ter tomado medidas dentro das forças de segurança para combater o que descreve como sabotagem informacional. “Ordenei retirar vários coronéis de inteligência da minha polícia por estarem dando informação falsa contra o Estado. Não seja que Rubio esteja acreditando nessas falácias”, escreveu, sugerindo que uma parte do aparato de segurança teria sido infiltrada por interesses políticos ou criminosos.
No ponto central da mensagem, Petro enfatizou a base constitucional de sua autoridade. Ele lembrou que o presidente colombiano é, por determinação constitucional, o comandante supremo das Forças Militares e da Polícia. E relacionou essa estrutura ao processo histórico da Constituição de 1991, surgida após o acordo de paz firmado por seu movimento político de origem, o M-19.
“O presidente da Colômbia é o comandante supremo das forças militares e de polícia por ordem constitucional, constituição de há 34 anos que meu movimento fez depois de deixar as armas na insurgência e assinar um pacto: uma nova constituição por eleição popular da Assembleia Nacional Constituinte”, escreveu Petro.
Ele destacou que o M-19 teria obtido um triunfo eleitoral importante na eleição da Constituinte e que, em respeito ao pluralismo, ajudou a construir um pacto institucional que buscava consolidar um “Estado social de direito” focado em direitos fundamentais. Petro apresentou essa lembrança histórica como argumento para reforçar a legitimidade de seu governo e responder a qualquer acusação de ilegalidade ou ilegitimidade.
Narcotráfico
Ao abordar diretamente o tema do narcotráfico — frequentemente usado por governos estrangeiros para pressionar a Colômbia — Petro declarou que sua administração comandou a “maior apreensão de cocaína da história do mundo”, interrompeu o crescimento dos cultivos de folha de coca e iniciou um grande plano de substituição voluntária de cultivos por agricultores.
“O processo vai em 30 mil hectares de coca e é minha prioridade como política pública de substituição de cultivos, eu dirijo essa política”, afirmou. Petro também citou operações no território de Cauca, afirmando que sob suas ordens foi retomado o controle de Plateado, região que descreveu como o “Wall Street da cocaína”, e que governos anteriores teriam deixado crescer.
Ao comentar o uso de força militar, Petro tentou se posicionar como comandante que respeita normas humanitárias. Ele afirmou ter autorizado bombardeios dentro das regras do direito internacional humanitário e ressaltou que houve baixas e capturas de líderes de grupos armados ligados ao narcotráfico. Ao mesmo tempo, advertiu sobre os riscos de ações militares sem inteligência suficiente.
“Se vocês bombardeiam um só destes grupos sem inteligência suficiente, matarão muitas crianças”, alertou Petro, acusando as organizações criminosas de recrutarem menores para usar como escudo e dificultar operações militares. Em seguida, fez outro alerta: “Se bombardeiam camponeses, se tornarão milhares de guerrilheiros nas montanhas”.
Jaguar popular
A mensagem ganhou tom ainda mais dramático quando Petro falou sobre a possibilidade de uma ação contra ele próprio. “E se detêm o presidente que boa parte do meu povo quer e respeita, despertarão o jaguar popular”, escreveu, sugerindo que medidas de força poderiam desencadear mobilizações massivas e um cenário de confronto interno e externo.
Petro afirmou ter emitido ordens claras às forças armadas e à polícia sobre soberania e lealdade nacional. “Cada soldado da Colômbia tem uma ordem desde já: todo comandante da força pública que prefira a bandeira dos EUA à bandeira da Colômbia se retira imediatamente da instituição”, declarou. Ele justificou a ordem dizendo que a Constituição determina que a força pública deve defender a soberania popular.
Em uma passagem ainda mais tensa, Petro afirmou que, embora não seja militar, conhece “a guerra e a clandestinidade” e recordou que jurou não voltar a usar armas desde o pacto de paz de 1989. Ainda assim, deixou uma advertência carregada de simbolismo: “Mas pela Pátria tomarei de novo as armas que não quero”.
O presidente também reagiu às acusações de que seria ilegítimo ou ligado ao narcotráfico. “Não sou ilegítimo, nem sou narco. Só tenho como bem minha casa familiar, que ainda pago com meu salário”, escreveu, afirmando que seus extratos bancários foram publicados e que ninguém conseguiu provar que ele gastou mais do que recebe.
Ao final, Petro convocou mobilização popular para resistir a qualquer tentativa de agressão que considere ilegítima. “Eu tenho uma enorme confiança em meu povo e por isso solicitei ao povo que defenda o presidente de qualquer ato violento ilegítimo contra ele. A forma de me defender é tomar o poder em todos os municípios do país”, afirmou.
Ele também disse ter orientado a força pública a não disparar contra o povo, mas sim contra um eventual invasor. E concluiu a mensagem com um apelo histórico e nacionalista, invocando Bolívar e a tradição latino-americana de soberania, deixando claro que pretende enfrentar qualquer escalada política ou militar.
“Assim que saiba que se enfrenta a um comandante do povo. Colômbia livre para sempre”, escreveu Petro, encerrando com uma convocação simbólica às fileiras bolivarianas: “Oficiais de Bolívar, rompam filas e a passo de vencedores”.



