Brian Winter aponta retorno do “poder policial” dos Estados Unidos à América Latina
Analista diz que invasão da Venezuela reacende histórico intervencionista de Washington e pode gerar efeitos políticos no Brasil e na região
247 – A invasão da Venezuela pelos Estados Unidos no último sábado (3) abriu, na avaliação do brasilianista americano Brian Winter, um novo ciclo de intervenção direta de Washington na América Latina e simboliza a retomada do país como “poder policial regional”. A análise foi apresentada em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, na qual Winter afirmou que o episódio pode ser o primeiro passo de uma mudança de longo alcance na política externa norte-americana para o continente.
“O que estamos realmente vendo é o retorno do Corolário Roosevelt. Esta é uma referência a Theodore Roosevelt, que afirmou, nos anos 1900, que os EUA não apenas rejeitariam a presença de potências extra-hemisféricas, que era a Doutrina Monroe, mas também agiriam como um poder policial regional para garantir a estabilidade”, disse Winter, que é editor-chefe da revista Americas Quarterly.
Segundo o analista, essa filosofia foi predominante por quase dois séculos na estratégia de Washington para o Hemisfério Ocidental, e o período posterior ao fim da Guerra Fria teria sido uma exceção histórica. “No longo arco da história e política externa dos EUA, essa forma de pensar é muito comum”, afirmou. “Os 35 anos desde o fim da Guerra Fria foram a exceção.”
A operação militar, que culminou na captura de Nicolás Maduro e sua transferência para Nova York — onde, segundo o relato, responderá por acusações de narcotráfico e terrorismo — foi descrita por Winter como uma das decisões mais arriscadas tomadas pelos Estados Unidos na América Latina em mais de três décadas.
“Acho que esta foi a decisão mais importante e arriscada que Washington tomou na América Latina em mais de 35 anos, desde as guerras da América Central e a invasão do Panamá nos anos 1980”, afirmou. “O desenrolar vai determinar as relações de Washington na região pelos próximos anos.”
Corolário Roosevelt e o retorno de uma doutrina de intervenção
Ao citar o Corolário Roosevelt, Winter recupera uma lógica de política externa que, no início do século 20, ampliou a Doutrina Monroe e justificou a atuação direta dos EUA no continente sob o argumento de garantir estabilidade e impedir a influência de potências externas. Na prática, o conceito abriu caminho para uma sucessão de intervenções na América Central e no Caribe.
“Essa ideia de que o Caribe, em particular, é quase como uma terceira fronteira, que é incumbência do interesse nacional e da segurança dos EUA, tem sido a filosofia predominante de sucessivos governos em Washington durante a maior parte dos últimos 200 anos”, disse Winter.
Para ele, a ação na Venezuela indica que essa mentalidade volta ao centro das decisões americanas, ainda que em um contexto diferente, marcado pela figura de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, e por uma conjuntura regional fragmentada.
Os riscos do passado e a imprevisibilidade da reação regional
O analista também alerta para o risco de que a operação produza consequências semelhantes às que marcaram o século passado, quando intervenções militares americanas contribuíram para o fortalecimento de identidades políticas e nacionalismos contrários aos EUA.
“A história nos mostra os tipos de riscos que advêm desse tipo de intervenção americana na América Latina”, afirmou. “Podemos traçar uma linha direta entre a Guerra Hispano-Americana de 1898 e as invasões de República Dominicana, Nicarágua e Haiti no início do século 20 e a ascensão do nacionalismo latino-americano, que eventualmente deu origem a figuras como Fidel Castro e Juan Perón.”
Ainda assim, Winter pondera que o cenário atual apresenta variáveis que tornam a reação política imprevisível. Maduro, segundo ele, era amplamente impopular dentro e fora da Venezuela, o que pode gerar respostas ambivalentes: condenação ao intervencionismo, mas também alívio com a saída de um governo considerado autoritário.
“Não sei se veremos uma reação semelhante desta vez, porque Maduro era muito impopular e, sinceramente, não acredito que os EUA serão uma força de ocupação na Venezuela”, afirmou. “Mas, como dizem, a história nem sempre se repete, às vezes rima.”
Paralelos com o Panamá e a dimensão simbólica da captura
Ao comparar a operação com a invasão do Panamá, em 1989, Winter destacou semelhanças no roteiro político e simbólico. Ele lembrou que a invasão do Panamá terminou com Manuel Noriega sendo conduzido por agentes ligados à DEA e observou que as justificativas associadas ao narcotráfico voltam a aparecer no caso venezuelano.
“A invasão do Panamá também terminou com Manuel Noriega em um agasalho esportivo escoltado para fora do país por alguém vestindo um uniforme da DEA”, afirmou. “E alguns dos argumentos contra Noriega e Maduro —ambos como supostos chefões de impérios exportadores de cocaína— são semelhantes.”
A diferença, porém, é que Maduro seria ainda mais impopular do que Noriega, o que torna difícil prever se a América Latina reagirá com indignação ou com complacência.
“Uma diferença importante é que Maduro é impopular tanto dentro da Venezuela quanto no resto da América Latina em um grau muito maior do que Noriega jamais foi. E isso torna a reação política na região imprevisível”, disse.
Trump, “guerras inúteis” e um conjunto de regras para o hemisfério
Winter também analisou o impacto da invasão na trajetória política de Donald Trump, que criticou durante anos o que chamou de “guerras inúteis”, mas agora ordenou uma operação militar na América do Sul. Segundo ele, Trump distingue claramente o Hemisfério Ocidental do restante do mundo e se mostra mais disposto a agir diretamente na região.
“É muito claro que Trump tem um conjunto diferente de regras para o Hemisfério Ocidental do que tem para o resto do mundo”, afirmou. “Ele falou no sábado sobre o retorno da Doutrina Monroe, mas o que estamos realmente vendo é o retorno do Corolário Roosevelt.”
Ainda assim, Winter sustentou que Trump não tem apoio para iniciar uma sequência de invasões na região e que o principal obstáculo a intervenções prolongadas não seria o Partido Democrata, mas a própria base do presidente.
“Trump não vai começar a invadir todos os países latino-americanos de cujos governos ele discorda”, disse. “E o problema para Trump não é o Partido Democrata, é sua própria base, a base Maga.”
A aposta em Delcy Rodríguez e o pragmatismo dos interesses dos EUA
Um ponto central da entrevista é a aposta de Trump em Delcy Rodríguez como figura mais alinhada aos interesses americanos do que Maduro. Winter afirmou que Washington pretende reorganizar o poder em Caracas, com objetivos estratégicos claros, como controle de migração, combate ao narcotráfico e abertura do país a investimentos dos EUA, especialmente no setor petrolífero.
“A aposta de Trump é que Delcy Rodríguez será melhor para os interesses dos EUA do que Maduro”, disse.
“A intenção é permitir que Delcy governe a Venezuela e faça a vontade de Washington, reduzindo o fluxo de migrantes e drogas e começando a abrir o país para investimentos dos EUA em petróleo e em outros setores”, afirmou.
Mesmo assim, ele relativizou a capacidade de Washington de controlar os acontecimentos. “Todos esses casos nos mostram que o poder americano é limitado”, disse.
Migração venezuelana e guinada à direita na América Latina
Winter também associa a implosão venezuelana ao atual deslocamento político da América Latina para a direita, apontando a crise migratória como fator determinante para o desgaste de projetos de esquerda em vários países.
“Eu vejo uma América Latina que está claramente se deslocando para a direita no momento, e uma das principais razões é a implosão da Venezuela nos últimos dez anos”, afirmou. “Isso desacreditou políticas socialistas e de esquerda.”
Ele citou o Chile como exemplo de como o fluxo migratório alterou o debate público, lembrando que José Antonio Kast venceu uma eleição prometendo construir um muro de fronteira no estilo Trump.
Brasil, presidente Lula e o peso diplomático de Brasília
Na avaliação de Winter, o presidente Lula reagiu com uma crítica forte à invasão, mas dentro de um padrão histórico da diplomacia brasileira. O analista observou que a declaração do governo brasileiro foi “cuidadosamente redigida” e repercutiu rapidamente em países como Chile, México, Colômbia e Peru.
“Eu achei que a declaração brasileira foi cuidadosamente redigida. Ela refletiu princípios de longa data da política externa brasileira”, disse. “Ficou claro que os olhos de grande parte da América Latina no sábado estavam voltados para Brasília.”
Ele afirmou que é cedo para medir os efeitos sobre a trégua entre Brasil e EUA em vigor desde novembro, descrevendo o ambiente como “volátil” e em desenvolvimento.
Disputa política no Brasil e os impactos para 2026
A crise venezuelana, segundo Winter, tem repercussões também na política interna brasileira, onde a Venezuela frequentemente aparece como símbolo usado em disputas eleitorais. Ele observou que setores da esquerda criticaram a invasão, enquanto a direita comemorou a queda de Maduro, mas avaliou que a eleição de 2026 será definida por outros fatores centrais, como economia e segurança pública.
“Em última análise, a eleição brasileira de 2026 será decidida por outros fatores, principalmente a economia e a situação de segurança doméstica dentro do Brasil”, afirmou.
Ao mesmo tempo, Winter chamou atenção para a diferença entre a lógica dos governos, que enfatizam soberania e direito internacional, e a percepção popular, que tende a se concentrar no fim de regimes vistos como opressivos.
“O que elas veem é o fim de um tirano que destruiu não apenas seu próprio país, mas, por meio do êxodo de milhões de pessoas, criou consequências para outras nações”, disse.
Um marco regional e um teste para a própria Washington
Ao longo da entrevista, Winter sustenta que a invasão da Venezuela não é um evento isolado, mas um marco que pode recolocar os Estados Unidos no papel de interventor explícito no continente. Para ele, a operação é um teste tanto para o poder americano quanto para a capacidade de reação diplomática e política da América Latina.
“O resultado será bom para o povo da Venezuela? Não acho que essa seja a primeira preocupação de Trump”, afirmou. “Ele, mais do que qualquer outro presidente recente dos EUA, está sempre pensando na América primeiro.”
Para o analista, o continente volta a viver sob a sombra de um intervencionismo historicamente recorrente — e, diante desse retorno, fica o alerta que ele próprio resume em uma frase que atravessa sua leitura do momento: “A história nem sempre se repete, às vezes rima.”



