EUA buscam impor "protetorado funcional" na Venezuela, aponta analista
Especialista afirma que plano de Washington envolve controle político, energético, financeiro e militar após a saída de Nicolás Maduro
247 - Os Estados Unidos estariam se preparando para implantar uma espécie de “protetorado funcional” na Venezuela, com mecanismos de controle indireto que vão além de uma ocupação tradicional. A avaliação é do analista geopolítico e econômico Nicolas Takayama Constantini, que detalhou como esse modelo funcionaria caso o governo de Nicolás Maduro seja removido do poder.
Segundo o especialista, o objetivo não seria estabelecer uma administração clássica, mas sim uma estrutura de tutela externa. “Operacionalmente, isso significa que eles terão uma administração tutelar de fato”, explicou Constantini, ao descrever um cenário no qual decisões centrais do Estado venezuelano passariam a ser determinadas fora do país.
A análise foi publicada pelo site Sputnik International, que ouviu o pesquisador para examinar os interesses estratégicos de Washington na Venezuela e as possíveis consequências dessa política para a ordem internacional.
De acordo com Constantini, o chamado “protetorado funcional” se apoiaria em quatro eixos principais. O primeiro seria um “controle político indireto”, exercido por meio de uma “autoridade provisória” ou de um “conselho de transição” aprovado por Washington, sem aval do povo venezuelano. O segundo eixo envolveria controle técnico e financeiro do setor petrolífero, abrangendo contratos, portos e fluxos de moeda estrangeira.
O terceiro elemento seria o domínio direto sobre as receitas do petróleo, que poderiam ficar sob gestão do Tesouro dos Estados Unidos “ou de alguma entidade controlada pelos EUA”. Por fim, haveria “alguma forma de presença militar ou de segurança dos EUA, não necessariamente grande”, segundo o analista. Para Constantini, “isso não seria uma governança clássica, mas sim uma forma de protetorado funcional, semelhante ao Iraque em 2003”.
Ao avaliar as motivações de Washington, o especialista descarta que a principal razão seja econômica. “De um ponto de vista econômico racional, a intervenção militar não é eficiente. O custo militar, político e reputacional para os EUA supera em muito quaisquer ganhos energéticos potenciais”, afirmou. Ele acrescentou que, embora a Venezuela disponha de petróleo, gás, terras raras, metais tecnológicos e ouro, o fator decisivo seria geopolítico.
“Trata-se de enviar uma mensagem aos rivais geopolíticos de Washington, incluindo China, Rússia e Irã, sobre impedir que os recursos da Venezuela caiam em suas mãos”, disse Constantini. Segundo ele, o recado também seria dirigido a países da região: “se você não se submeter ou não disponibilizar seus recursos quando eu precisar, isso acontecerá com você”.
O analista também criticou a narrativa de combate ao narcotráfico usada por autoridades norte-americanas. “Obviamente, os EUA não se importam com o interesse venezuelano ou mesmo com o interesse dos cidadãos americanos relacionado aos traficantes de drogas, porque as próprias agências dos EUA dizem que o principal fluxo de drogas não vem da Venezuela”, declarou.
Para Constantini, uma eventual ofensiva contra o país sul-americano teria impactos profundos sobre o sistema internacional. “É um precedente extremamente sério para a ordem internacional. Significa que a soberania dos Estados não funciona mais. A imunidade de chefes de Estado não funciona mais. Normaliza a mudança de regime pela força sem autorização multilateral. Reforça a ideia de que o poder se sobrepõe ao direito internacional”, afirmou.
Na avaliação final do especialista, esse processo “marca o fim do que restava do direito internacional e da ordem internacional após a Segunda Guerra Mundial”, além de acelerar a militarização da política externa e a fragmentação do sistema global em blocos concorrentes. Segundo ele, isso abre espaço para que outras potências adotem práticas semelhantes caso considerem um governo ilegítimo.
O cenário ganhou ainda mais tensão após a operação militar lançada pelos Estados Unidos em 3 de janeiro. O presidente norte-americano, Donald Trump, anunciou o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados a Nova York sob acusações de envolvimento em “narcoterrorismo”.
A ofensiva provocou reação internacional imediata. A China apoiou o pedido de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU para tratar da situação. “A China apoia a convocação de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU em conexão com os ataques militares dos EUA à Venezuela e apoia o Conselho de Segurança no cumprimento de seus deveres”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Lin Jian. Segundo ele, Pequim está pronta para cooperar com a comunidade internacional para “defender resolutamente a Carta da ONU, aderir aos princípios básicos da moralidade internacional e salvaguardar a justiça e a imparcialidade internacionais”.



