Trump vai tentar instalar governos fantoches em toda a América Latina, diz Jeffrey Sachs
Economista denuncia agressão dos EUA à Venezuela, afirma que Trump “rasgou a Carta da ONU” e alerta para escalada de violência no continente
247 – O economista Jeffrey Sachs afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, está tentando impor “governos fantoches” em todo o hemisfério ocidental e que a agressão à Venezuela faz parte de uma estratégia de longo prazo para remodelar politicamente a América Latina sob tutela de Washington. Para Sachs, trata-se de um projeto marcado por violações do direito internacional, desprezo pela soberania regional e pelo uso sistemático da força para produzir mudanças de regime, sobretudo em países ricos em recursos naturais como o petróleo. As declarações foram dadas em entrevista à CGTN, em que o economista comenta os ataques militares dos EUA contra a Venezuela e a detenção do presidente venezuelano e de sua esposa — episódio que ele classifica como “sequestro” e “violação gravíssima do direito internacional”.
Logo ao ser questionado sobre a escalada, Sachs não suavizou o diagnóstico:
“Bem, esta é outra violação muito grave do direito internacional. É mais violência liderada pelos EUA. Os Estados Unidos são uma máquina de guerra.”
Ele também ressaltou que a política externa norte-americana atual estaria dissociada da vontade popular:
“As decisões que estão sendo tomadas não têm nada a ver com as opiniões do povo americano.”
“Governos fantoches” e controle do hemisfério
Ao analisar o que chama de ofensiva geopolítica de Trump contra a região, Sachs afirmou que o presidente dos EUA pretende instalar regimes subordinados a Washington na América Latina e no Caribe:
“Trump está claramente tentando instalar regimes no hemisfério ocidental que são fantoches dos Estados Unidos.”
Sachs acrescenta que esse comportamento é coerente com ameaças e pressões públicas de Trump contra diferentes governos do continente, além de intervenções norte-americanas em processos políticos internos. Na leitura do economista, o discurso presidencial traduz a visão de que o hemisfério pertence aos EUA, o que abriria caminho para novas ações de desestabilização contra governos que se oponham à tutela norte-americana.
Em determinado ponto da entrevista, ele descreve o momento político em Washington como uma ruptura institucional:
“Este é um regime de valentões… é extra-constitucional. Não é governado pela lei.”
A agressão à Venezuela como parte de um projeto histórico
Sachs sustenta que a ofensiva contra Caracas não começou agora, mas é um plano construído há décadas. Ele lembra que os EUA tentaram derrubar Hugo Chávez em 2002, por meio de um golpe fracassado, e desde então vêm mantendo a tentativa de derrubada do governo venezuelano:
“A derrubada do presidente da Venezuela, o sequestro do presidente, é uma iniciativa de longa data dos Estados Unidos.”
E completou:
“Isso remonta a mais de 20 anos… os Estados Unidos tentaram derrubar o predecessor de Maduro, Hugo Chávez, em uma tentativa de golpe em 2002.”
Para Sachs, a tentativa atual de capturar o comando político do país por meio do “sequestro” do presidente e de uma suposta formação de uma equipe para “governar” a Venezuela, mencionada por ele, revela a ambição de controle direto.
Petróleo no centro do conflito
O economista aponta que a principal motivação seria o controle do petróleo venezuelano. Sachs afirma que a derrubada do governo é impulsionada diretamente por interesses econômicos:
“A derrubada da Venezuela é claramente motivada por petróleo, antes de tudo, provavelmente totalmente.”
Ele relaciona isso ao processo em que o Estado venezuelano reforçou a exigência de controle majoritário sobre as reservas e operações, sobretudo no cinturão do Orinoco, região que Sachs descreve como uma das maiores reservas do mundo. Na visão do economista, esse movimento teria despertado reação do “deep state” norte-americano.
“Trump rasgou a Carta da ONU”
Em outro trecho central, Sachs amplia a crítica e sustenta que os EUA, sob Trump, estão destruindo as bases do sistema internacional do pós-guerra:
“O governo dos Estados Unidos rasgou a Carta da ONU. Vamos deixar isso absolutamente claro.”
Ele afirma que o documento é essencial para evitar guerras e impedir que o planeta mergulhe em um conflito catastrófico, especialmente em era nuclear:
“A Carta da ONU não é um jogo. A Carta da ONU é a nossa linha de sobrevivência.”
Sachs também alerta para o agravamento do risco global:
“As ramificações disso são obviamente muito sérias. O mundo se aproxima de uma guerra mundial.”
“Trump não é um grande líder”
Sachs também critica diretamente o papel de Trump, afirmando que ele opera como instrumento de um aparato de inteligência e poder que atua de forma ilegal:
“Trump, ele não é um grande líder. Ele é alguém que libera a força, a ilegalidade da CIA e do deep state dos EUA.”
Para o economista, a política externa atual não tem compromisso com o direito internacional, nem com a democracia interna dos EUA, mas com uma lógica de força sustentada pelo complexo militar-industrial.
Protestos nos EUA e um Estado que “não representa o povo”
Sachs destaca que houve protestos em diversas cidades norte-americanas contra a agressão à Venezuela, mas afirma que a estrutura de decisões em Washington ignora a sociedade:
“O Estado de segurança dos EUA, a CIA, a NSA, a Casa Branca não representam o povo americano.”
Ele também critica a ausência de debate público e a exclusão do Congresso das decisões de guerra, apontando a erosão do controle institucional:
“O Congresso… mal funciona… quase tudo o que é feito é feito por ordem executiva.”
Na avaliação de Sachs, isso faz com que os EUA atuem como um “Estado fora de controle”, tanto no plano internacional quanto no plano constitucional.
“Os EUA não vão controlar a Venezuela”
Apesar de denunciar a escalada, Sachs avalia que a ideia de que os EUA conseguirão governar a Venezuela é fantasiosa e tende a produzir caos:
“Os Estados Unidos não controlam nem comandam a Venezuela… Eu não acho que os Estados Unidos possam governar a Venezuela.”
Ele conclui que a ofensiva pode abrir caminho para mais violência e instabilidade regional, com consequências imprevisíveis:
“Há uma chance real de aumento da violência… até guerra civil.”
Ao enquadrar a agressão contra a Venezuela como parte de um projeto de imposição política sobre toda a América Latina, Sachs sugere que o continente pode estar diante de um novo ciclo de intervenções, com impactos profundos sobre soberania, estabilidade e integração regional.



