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Gangsterismo nas Américas: Rubio diz que Delcy terá o destino de Maduro se não cooperar

Presidente interina da Venezuela tem se demonstrado resistente à tentativa de controle por parte dos Estados Unidos

Delcy Rodríguez e Marco Rubio (Foto: Reuters/Leonardo Fernandez Viloria | Reuters/Joe Skipper)

247 - O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, comparece nesta quarta-feira (28) a uma comissão do Senado para explicar a operação realizada em Caracas que resultou no sequestro de Nicolás Maduro, em 3 de janeiro, e apresentar os próximos passos do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em relação à Venezuela. No depoimento preparado, Rubio ameaça Delcy Rodríguez, que passou a liderar um processo gradual de mudanças no país - “conhece muito bem o destino de Maduro” - e avalia que os interesses da dirigente podem se alinhar aos objetivos estratégicos de Washington, segundo trechos divulgados oficialmente. 

De acordo com o documento antecipado pelo Departamento de Estado norte-americano, Rubio sustenta que a administração Trump está disposta a adotar medidas mais duras caso não haja cooperação. “Acreditamos que seu próprio interesse se alinha com o avanço de nossos objetivos-chave (...) Não se enganem: como afirmou o presidente, estamos preparados para usar a força para assegurar a máxima cooperação se outros métodos fracassarem”, declarará o secretário aos senadores.

Ex-senador republicano, Rubio aceitou prestar esclarecimentos a antigos colegas após semanas de críticas de parlamentares democratas, que acusam o governo Trump de enganar o Congresso e extrapolar sua autoridade ao recorrer ao uso da força. Tropas do Exército dos EUA entraram em Caracas em 3 de janeiro e sequestraram Maduro e sua esposa, Cilia Flores, que foram levados para Nova York para responder a acusações de tráfico de drogas, negadas pelo casal. Ambos estão detidos em uma prisão de segurança máxima na cidade.

A legalidade da operação segue sob questionamento. Enquanto a Casa Branca afirma que a legislação norte-americana foi respeitada, a ONU e setores da comunidade internacional apontam violações do direito internacional. Em sua defesa no Congresso, Rubio afirmará que os Estados Unidos “prenderam dois narcotraficantes” e classificará Maduro como “narcotraficante indiciado, não um chefe de Estado legítimo”.

O secretário também tentará afastar a ideia de um conflito aberto com o país sul-americano. “Não estamos em guerra contra a Venezuela”, garantirá. Segundo ele, a ação foi conduzida “sem a perda de uma única vida norte-americana, nem uma ocupação militar contínua”. Rubio acrescentará ainda: “A história oferece poucos exemplos nos quais se tenha conquistado tanto a um custo tão baixo”.

Autoridades venezuelanas, por sua vez, afirmam que mais de 100 pessoas morreram, entre venezuelanos e cubanos que tentaram proteger Maduro durante a operação. Após a derrubada do mandatário venezuelano, Donald Trump exigiu que Delcy Rodríguez atuasse para beneficiar empresas petrolíferas dos Estados Unidos e afirmou preferir pressionar a presidente interina em vez de fortalecer a oposição política.

Nesse contexto, Trump afastou a líder oposicionista María Corina Machado, a quem descreveu como “mulher muito agradável”, mas que, segundo ele, não inspira “respeito”. O Departamento de Estado informou, no entanto, que após a audiência no Congresso Rubio se reunirá com Corina Machado, vencedora do Prêmio Nobel da Paz. De origem cubana, o secretário sempre foi um crítico contundente de governos de esquerda na América Latina e, enquanto senador, defendeu a oposição liderada por María Corina Machado.

Relatórios de inteligência dos EUA colocam em dúvida cooperação de Delcy Rodríguez

Relatórios recentes da inteligência dos Estados Unidos levantaram dúvidas sobre a disposição de Delcy Rodríguez em cooperar plenamente com o governo dos Estados Unidos, especialmente no que se refere ao rompimento formal de relações com adversários estratégicos de Washington, informa a Reuters. Segundo pessoas familiarizadas com as avaliações, há incertezas sobre a capacidade ou a intenção da presidente interina de cortar vínculos com países como Irã, China e Rússia, o que incluiria a expulsão de diplomatas e assessores desses governos da Venezuela.

Autoridades norte-americanas veem essa ruptura como central para reduzir a influência de rivais dos EUA no hemisfério ocidental e ampliar o acesso de empresas norte-americanas ao setor energético venezuelano, diante das vastas reservas de petróleo do país. Uma eventual recusa de Rodríguez em atender a essas demandas poderia dificultar os esforços de Washington para conduzir o processo político à distância e aumentar o risco de um envolvimento militar mais profundo.

As avaliações também indicam que, apesar das dúvidas, o governo Trump não identifica no momento uma alternativa imediata a Rodríguez, já que ela foi publicamente respaldada após a queda de Maduro. Desde então, a dirigente adotou medidas vistas como gestos de aproximação com Washington, como a libertação de presos e a autorização para a venda de grandes volumes de petróleo aos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que criticou a interferência norte-americana em discursos públicos. Ainda assim, segundo os relatos, canais de diálogo continuam abertos, enquanto autoridades dos EUA mantêm contatos paralelos com setores militares e de segurança venezuelanos como parte de uma estratégia de cautela.

Os relatórios também apontam que María Corina Machado é vista, neste momento, como uma opção de longo prazo para um papel de liderança no país, devido à sua popularidade, mas com limitações para governar no curto prazo por não contar com vínculos sólidos com as Forças Armadas ou com o setor petrolífero. Por ora, seu nome é mencionado como possível colaboradora em funções consultivas, sem decisões definitivas tomadas.

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