HOME > América Latina

Indústria de autopeças da Argentina enfrenta crise sob Milei

Importações chinesas avançam 80,9%, fábricas reduzem produção e setor perde empregos na Argentina

Presidente da Argentina, Javier Milei 21/01/2026 REUTERS/Denis Balibouse (Foto: REUTERS/Denis Balibouse)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 - A indústria de autopeças da Argentina enfrenta uma forte retração após a abertura econômica promovida pelo governo de Javier Milei. As importações do setor cresceram 11,6% em 2025 e alcançaram US$ 10,32 bilhões, enquanto as compras vindas da China dispararam 80,9%, chegando a US$ 1,46 bilhão. No mesmo período, a produção de autopeças caiu 22,5% e o setor eliminou cerca de 5 mil postos de trabalho, o equivalente a 10% da força laboral da atividade. As informações foram publicadas neste domingo (10) pela Reuters. 

Segundo a reportagem, a combinação entre valorização do peso argentino, redução de barreiras comerciais e avanço das importações atingiu diretamente pequenas e médias indústrias locais. O texto destaca ainda que o governo Milei conseguiu reduzir desequilíbrios macroeconômicos, mas ampliou a pressão sobre empresas voltadas ao mercado interno.

Em uma fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, o cenário já reflete a mudança no modelo econômico argentino. A Suspenmec, especializada na fabricação de peças de suspensão, opera abaixo da capacidade e enfrenta queda nas vendas.

“É preocupante. Sentimos o impacto das importações livres [de tarifas] de tantas marcas”, afirmou Lucas Panarotti, sócio da empresa, ao lado de máquinas paradas na unidade industrial.

A indústria argentina de autopeças vive uma transformação acelerada desde que o governo flexibilizou regras de importação. O setor convivia historicamente com forte proteção tarifária e barreiras comerciais que limitavam a concorrência estrangeira. A abertura promovida por Milei alterou rapidamente esse ambiente.

Os dados da AFAC mostram que as exportações argentinas do setor cresceram apenas 1,2%, somando US$ 1,28 bilhão, concentradas principalmente no mercado brasileiro. O Brasil segue como principal fornecedor de autopeças para a Argentina, mas a expansão chinesa ganhou destaque no período.

Grandes empresas também reduziram operações no país. A sueca SKF e a norte-americana Dana encerraram atividades em algumas fábricas argentinas diante da perda de competitividade e da desaceleração da demanda interna.

A retração alcançou também o setor automotivo. A produção de veículos caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior, após o país fabricar cerca de 490 mil unidades em 2025.

Para Nicolás Ballestrero, CEO do Grupo Corven, a economia argentina atravessa um momento de ruptura estrutural.

“É um ponto de virada. Entramos muito rapidamente em um novo ecossistema, onde a abertura da economia e do comércio internacional pressionou as empresas industriais argentinas”, declarou o executivo.

Especialistas afirmam que o setor precisará ampliar exportações e buscar nichos de especialização para sobreviver ao novo cenário competitivo. O economista Andrés Civetta, da consultoria Abeceb, avalia que a Argentina poderia aumentar as exportações de veículos comerciais leves para cerca de 400 mil unidades anuais, acima das aproximadamente 280 mil registradas no último ano.

A situação das autopeças reflete um quadro mais amplo da economia argentina. Enquanto mineração, agricultura e pesca avançaram entre 8% e 15%, a indústria manufatureira recuou 8,7% e o comércio varejista caiu 7%, segundo dados oficiais do INDEC.

A consultoria Fundar calcula que 24.180 empresas encerraram atividades entre novembro de 2023, antes da posse de Milei, e janeiro deste ano. O fechamento representa cerca de 5% das empresas em operação no país.

O economista Ricardo Delgado, da consultoria Analytica, afirmou que a valorização do peso agravou as dificuldades para empresas industriais.

“Com um peso que se valorizou 10% em relação a dezembro passado, implicando 10% de inflação em dólar, haverá muitas dificuldades para empresas que produzem e competem com importações fazerem isso com sucesso”, disse Delgado.

O analista também alertou para os efeitos fiscais e sociais do enfraquecimento industrial. Segundo ele, os setores mais atingidos pela política econômica geram mais empregos e arrecadação tributária do que áreas beneficiadas pela valorização das commodities.

O mercado de trabalho já mostra sinais de deterioração. A taxa de desemprego subiu de 6,4% para 7,5% entre o quarto trimestre de 2024 e o mesmo período de 2025. Analistas observam que parte dos trabalhadores demitidos migrou para atividades informais, como transporte por aplicativos.

A perda de renda também reduziu o consumo interno após as medidas de austeridade adotadas pelo governo argentino para conter a inflação. O cenário aumentou a pressão sobre a indústria nacional e ampliou o debate sobre os efeitos sociais da terapia de choque aplicada por Milei na economia argentina.

Artigos Relacionados