Lula e Peña discutem Itaipu, Mercosul e segurança regional em reunião bilateral na COP15
Encontro em Campo Grande reforça a agenda entre Brasil e Paraguai sobre integração comercial, combate ao crime transnacional e preservação do Pantanal
247 – Os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Santiago Peña se reuniram no domingo (22), em Campo Grande (MS), em encontro bilateral realizado à margem da 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias, a COP15. A reunião colocou no centro da agenda temas estratégicos da relação entre Brasil e Paraguai, como o futuro de Itaipu Binacional, a integração no Mercosul e o enfrentamento ao crime transnacional.
De acordo com informações publicadas pela Sputnik Brasil, o encontro ocorreu antes da abertura oficial da conferência e foi tratado como um dos principais compromissos diplomáticos da cúpula, sediada pelo Brasil pela primeira vez. Além da pauta bilateral, Lula e Peña participaram do segmento presidencial do evento e subscreveram a Declaração do Pantanal, com compromissos voltados à conservação ambiental na região compartilhada também com a Bolívia.
A reunião entre os dois chefes de Estado confirma o peso da relação entre Brasília e Assunção num momento em que questões energéticas, comerciais e de segurança voltam a ganhar centralidade no debate regional. Entre os pontos de maior sensibilidade esteve a Usina de Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do planeta e administrada conjuntamente por Brasil e Paraguai. A usina segue no centro das discussões políticas e diplomáticas por causa das controvérsias em torno da revisão de seu tratado fundador.
No campo econômico, a conversa abordou a integração comercial no âmbito do Mercosul. O tema é estratégico para os dois países, que mantêm forte interdependência em áreas como energia, comércio de fronteira e logística regional. A coordenação bilateral também aparece como elemento decisivo para o fortalecimento do bloco sul-americano em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas e disputas comerciais.
Outro eixo relevante da reunião foi o combate ao crime transnacional. A pauta envolve desafios comuns aos dois países, especialmente em regiões de fronteira, onde o avanço de redes criminosas afeta a segurança pública, a circulação de mercadorias e a estabilidade institucional. Ao tratar do tema no mais alto nível político, Brasil e Paraguai sinalizam que pretendem ampliar a coordenação para enfrentar delitos que extrapolam limites nacionais.
No contexto da COP15, a agenda bilateral se conectou diretamente às discussões ambientais. Lula e Peña participaram da formalização da Declaração do Pantanal, documento que busca consolidar compromissos em defesa de um dos biomas mais importantes da América do Sul. O ministro das Relações Exteriores da Bolívia, Fernando Hugo Carrasco, também esteve presente, reforçando o caráter regional da articulação em torno da proteção ambiental.
A preservação do Pantanal tem sido tratada como prioridade pelos governos da região, sobretudo diante da escalada dos incêndios transfronteiriços e da pressão sobre espécies migratórias. A expectativa do governo brasileiro é ampliar ações conjuntas com Paraguai e Bolívia tanto para proteger a biodiversidade quanto para estruturar respostas coordenadas diante de crises ambientais que não respeitam fronteiras políticas.
Durante seu discurso na conferência, o presidente Lula ampliou o foco do debate e associou a crise ambiental ao quadro mais geral de instabilidade global. Em sua fala, ele fez críticas diretas ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas e ao enfraquecimento do multilateralismo diante de conflitos e violações da soberania de países.
Lula: “O Conselho de Segurança tem sido omisso na busca por soluções de consenso”
Na mesma linha, o presidente também afirmou:
Lula: “Um mundo sem regras é um mundo inseguro, onde qualquer um pode ser a próxima vítima”
Ao relacionar a pauta ambiental às dinâmicas geopolíticas contemporâneas, Lula procurou situar a conferência dentro de um debate mais amplo sobre governança internacional. Ele também declarou que a história da humanidade é “também uma história de migrações, deslocamentos, vítimas e conexões”, ligando o tema das espécies migratórias às grandes transformações humanas e políticas que marcam a ordem mundial.
O presidente citou ainda exemplos históricos do que o multilateralismo pode produzir quando funciona. Entre eles, mencionou o processo de descolonização, os esforços de prevenção contra armas químicas e biológicas, a recomposição da camada de ozônio, a erradicação da varíola e o amparo a refugiados. A mensagem central foi a de que a cooperação entre as nações segue sendo indispensável tanto para a paz quanto para a preservação ambiental.
A COP15 começa oficialmente nesta segunda-feira (23) e prossegue até 29 de março. O encontro será presidido pelo secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco. Durante os próximos três anos, o Brasil ficará à frente da convenção, em uma posição que amplia sua responsabilidade e seu protagonismo nas negociações internacionais sobre espécies migratórias e conservação ambiental.
A expectativa do governo brasileiro é aprovar a Declaração do Pantanal, ampliar o número de signatários para além dos atuais 133 membros, captar mais recursos internacionais e lançar editais de pesquisa voltados ao estudo e à proteção de espécies migratórias. Mais de 2 mil delegados são esperados no evento, que coloca Campo Grande no centro das discussões ambientais globais nesta semana.
Entre as prioridades da conferência estão justamente o aprofundamento da cooperação entre Brasil, Bolívia e Paraguai para a proteção das espécies do Pantanal e o desenvolvimento de mecanismos mais eficazes de prevenção e combate aos incêndios que atingem a região. Nesse sentido, a reunião entre Lula e Peña teve peso político adicional: não se tratou apenas de um encontro bilateral protocolar, mas de uma articulação que liga integração regional, soberania energética, segurança e preservação ambiental.
Ao reunir numa mesma mesa temas como Itaipu, Mercosul, crime transnacional e conservação do Pantanal, Brasil e Paraguai demonstram que a relação bilateral continua sendo uma peça-chave para o futuro da integração sul-americana. Em um momento de crise do sistema internacional e de crescente pressão sobre os recursos naturais, o encontro entre Lula e Peña projeta a necessidade de respostas regionais coordenadas, baseadas em cooperação política, desenvolvimento compartilhado e defesa da soberania.


