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México avalia suspender envio de petróleo a Cuba sob temor de retaliação de Trump, dizem fontes

Segundo os relatos, o governo de Claudia Sheinbaum revisa política energética diante de pressão dos EUA e crise no fornecimento à ilha

O navio-tanque Ocean Mariner, com bandeira da Libéria, navega pela Baía de Havana após partir do terminal da estatal mexicana Pemex em Coatzacoalcos, Veracruz, para entregar combustível refinado a Cuba, em 9 de janeiro de 2026 (Foto: REUTERS/Norlys Perez/File Photo)

247 - O governo do México está reavaliando a continuidade do envio de petróleo a Cuba diante do receio crescente, dentro da administração da presidente Claudia Sheinbaum, de que o país possa sofrer retaliações dos Estados Unidos. A política é considerada essencial para a sobrevivência energética da ilha caribenha, que enfrenta sanções econômicas e constantes ameaças estadunidenses. As informações são da agência Reuters, com base em fontes envolvidas nas discussões.

A revisão ocorre após o bloqueio imposto pelos Estados Unidos a navios-tanque venezuelanos em dezembro e o sequestro do presidente Nicolás Maduro neste mês, episódios que interromperam completamente o fornecimento de petróleo da Venezuela a Cuba. Com isso, o México passou a ocupar a posição de maior fornecedor individual de petróleo para a ilha, que enfrenta escassez de energia e apagões frequentes.

Esse papel central colocou o México diretamente no radar de Washington. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou publicamente que Cuba está "pronta para cair" e escreveu em uma postagem na rede Truth Social, em 11 de janeiro: "Não haverá mais petróleo ou dinheiro indo para Cuba – zero!".

Pressão de Trump e análise interna no governo mexicano

Em declarações públicas, Claudia Sheinbaum tem afirmado que o México seguirá enviando petróleo a Cuba, sustentando que os embarques se baseiam em contratos de longo prazo e são classificados como ajuda internacional. No entanto, fontes graduadas do governo afirmam que a política está sob análise interna diante do temor de que a manutenção dos envios possa provocar reações hostis da Casa Branca.

Paralelamente, o México busca negociar uma revisão do acordo comercial USMCA e convencer Washington de que está atuando de forma suficiente no combate aos cartéis de drogas. O governo mexicano também tenta afastar a possibilidade de ações militares estadunidenses em seu território, classificadas por Sheinbaum como uma violação grave da soberania nacional.

A análise sobre os envios de petróleo a Cuba não havia sido divulgada anteriormente. Segundo as fontes, que pediram anonimato, todas as alternativas seguem em discussão, incluindo a suspensão total, a redução dos volumes ou a manutenção integral dos embarques.

Posição oficial e resposta da Casa Branca

A Presidência do México informou à Reuters que o país "sempre foi solidário com o povo de Cuba" e afirmou que tanto o envio de petróleo quanto um acordo separado para pagamento de serviços de médicos cubanos "são decisões soberanas". O governo cubano não respondeu aos pedidos de comentário.

Um representante da Casa Branca declarou: "Como o presidente afirmou, Cuba agora está fracassando por decisão própria… não haverá mais petróleo ou dinheiro indo para Cuba a partir da Venezuela, e ele sugere fortemente que Cuba faça um acordo antes que seja tarde demais".

Ameaças militares e vigilância aérea intensificada

Nas últimas semanas, Donald Trump intensificou a pressão sobre o México ao afirmar que o país é controlado por cartéis de drogas e ao sugerir a possibilidade de ataques terrestres contra esses grupos. Sheinbaum reiterou que qualquer ação militar unilateral dos Estados Unidos em território mexicano seria inaceitável.

"Há um medo crescente de que os Estados Unidos possam tomar uma ação unilateral em nosso território", afirmou uma das fontes.

Durante uma ligação telefônica recente, Trump questionou Sheinbaum sobre os envios de petróleo e combustíveis a Cuba e sobre a presença de milhares de médicos cubanos no México. Segundo fontes próximas à conversa, a presidente respondeu que os embarques constituem "ajuda humanitária" e que o acordo com os médicos "está em total conformidade" com a legislação mexicana. Trump não teria pedido diretamente a interrupção do fornecimento de petróleo.

Outro fator de preocupação no governo mexicano é o aumento da presença de drones da Marinha dos Estados Unidos sobre o Golfo do México desde dezembro. Veículos de imprensa locais relataram que ao menos três drones MQ-4C Triton, da empresa Northrop Grumman, realizaram diversos voos sobre a Baía de Campeche, acompanhando aproximadamente a rota dos navios que transportam combustível do México para Cuba.

Essas mesmas aeronaves foram vistas anteriormente na costa da Venezuela, dias antes da ofensiva militar estadunidense contra o país sul-americano.

Combate aos cartéis e defesa da soberania

Sheinbaum liderou recentemente uma ofensiva contra o Cartel de Sinaloa e autorizou três transferências em massa, consideradas inéditas, de quase 100 chefes do narcotráfico para os Estados Unidos. As medidas receberam elogios de autoridades estadunidenses, mas a presidente reiterou que qualquer intervenção militar estrangeira em solo mexicano representa uma linha vermelha.

"Uma parte muito pequena do petróleo bruto produzido no México é enviada a Cuba, mas isso é uma forma de solidariedade em uma situação de adversidade e dificuldade", disse Sheinbaum na quarta-feira (22). "Isso não precisa desaparecer", acrescentou.

Estratégia de Trump e resistência cubana

A pressão de Trump sobre Cuba remonta ao seu primeiro mandato, quando reverteu o processo de reaproximação iniciado pelo ex-presidente Barack Obama. Desde o retorno do republicano à Casa Branca, há um ano, essa política se intensificou.

O secretário de Estado, Marco Rubio, tem papel central na estratégia para a Venezuela, vista por Washington como uma forma indireta de enfraquecer os aliados cubanos de Maduro. Ainda assim, analistas dentro do próprio governo estadunidense reconhecem que Cuba possui apoio regional e internacional, além de uma estrutura de poder consolidada, capaz de resistir a décadas de embargo econômico.

Dependência energética e temor de crise humanitária

Cuba depende fortemente da importação de combustíveis refinados para garantir eletricidade, gasolina e querosene de aviação. As sanções dos Estados Unidos impediram o governo cubano de adquirir volumes suficientes de combustível, forçando a dependência de poucos aliados.

Dentro do governo Sheinbaum, segundo as fontes, há a avaliação de que a estratégia de Washington de cortar o fornecimento de petróleo pode levar Cuba a um desastre humanitário sem precedentes, com potencial para provocar migração em massa em direção ao México. Por esse motivo, parte da equipe defende a manutenção de ao menos uma parcela dos envios.

Com o fim do fornecimento venezuelano, é considerado improvável que outros produtores assumam a lacuna diante da forte presença militar dos Estados Unidos na região. Navios envolvidos no comércio de petróleo venezuelano já foram apreendidos por Washington, incluindo embarcações ligadas a países sob sanções, como Irã e Rússia.

Entre janeiro e setembro do ano passado, o México enviou a Cuba cerca de 17,2 mil barris diários de petróleo bruto e 2 mil barris diários de derivados, avaliados em aproximadamente 400 milhões de dólares, segundo dados informados pela estatal Pemex à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos.

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