Movimentos sociais da Bolívia denunciam espionagem ilegal dos Estados Unidos
Lideranças do Trópico de Cochabamba afirmam que operações com alta tecnologia miram dirigentes populares e ameaçam a soberania boliviana
247 – Movimentos sociais da Bolívia denunciaram que os Estados Unidos estariam realizando operações ilegais de espionagem no país, com uso de equipamentos de alta tecnologia, em meio a uma onda de protestos populares que já dura 29 dias.
A denúncia foi feita nesta sexta-feira (29) pelo vice-presidente da Coordenadoria das 6 Federações do Trópico de Cochabamba, Dieter Mendoza, segundo a teleSUR. “Denunciamos à comunidade internacional e ao povo boliviano. Estados Unidos está operando de maneira ilegal, retirando nossa soberania. Há uma ingerência direta em nossa segurança”, afirmou Mendoza em entrevista coletiva.
Segundo o dirigente, os equipamentos utilizados incluiriam tecnologia do tipo Stingray, capaz de interceptar comunicações. De acordo com a denúncia apresentada, apenas em Cochabamba teriam sido monitoradas 296 antenas de comunicação das empresas Entel e Tigo.
“Estamos sendo espionados por alta tecnologia”, afirmou Mendoza. Ele acrescentou que a operação estaria direcionada a “perseguir, capturar os principais dirigentes que saem em defesa da pátria, da vida e dos recursos naturais”.
Protestos contra o governo Rodrigo Paz
As denúncias ocorrem no contexto de 29 dias de mobilizações populares que exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz e o fim das políticas neoliberais conduzidas por seu governo.
Segundo Mendoza, o centro de inteligência da suposta operação estaria localizado em uma zona triangular que abrange os departamentos de Santa Cruz, Beni e Cochabamba, nas proximidades da comunidade de Candoa. “Temos a localização exata”, disse o dirigente, ao cobrar uma investigação imediata das instituições nacionais e da comunidade internacional.
O principal alvo, segundo Mendoza, seria o movimento social do Trópico de Cochabamba, historicamente ligado à defesa dos recursos naturais e ao ex-presidente Evo Morales.
“Especialmente os setores sociais, setores populares, operários, professores, que hoje estamos mobilizados. Estamos sendo espionados por alta tecnologia. Isso não pode ser”, declarou.
O dirigente também afirmou: “Não vamos permitir novamente que pisoteiem nossa soberania em nosso país, que tanto nos custou levantar a dignidade e a soberania”.
Recursos naturais no centro da disputa
A presidenta da Coordenadoria das 6 Federações do Trópico de Cochabamba, Wilma Colque, relacionou a denúncia de espionagem a uma tentativa de viabilizar a entrega de recursos estratégicos bolivianos, como o lítio e as terras raras, a empresas transnacionais.
“É por isso que o povo boliviano, o campo, a cidade, as mulheres, toda a família boliviana, devemos sair para defender nossos recursos naturais”, afirmou Colque.
Ela acrescentou: “E se o governo decretar estado de exceção, todos devemos sair com mais força para nos mobilizar, para defender. Não podemos permitir que, através dos Estados Unidos, a Bolívia seja o quintal dos fundos e que daqui a explorem como nos tempos de colônia”.
Temor de repressão contra Evo Morales
Mendoza questionou a postura do governo diante das denúncias. “Por que o governo está permitindo uma espionagem em nosso país?”, perguntou.
A denúncia acrescenta um novo capítulo à resistência popular boliviana, que acusa a ingerência estrangeira de tentar desarticular movimentos sociais.
Na última semana, as medidas de protesto se intensificaram em Cochabamba depois de um apagão incomum registrado na noite de quarta-feira. O episódio colocou a população do Trópico em alerta diante da possibilidade de uma incursão policial para prender o ex-presidente Evo Morales.



