Trabalhadores argentinos vão às ruas contra arrocho de Milei
Na véspera do 1º de Maio, centrais sindicais lotam o centro de Buenos Aires para rejeitar reforma trabalhista, demissões e alta da inflação
247 - A Praça de Maio, coração político da Argentina, tornou-se nesta quinta-feira (30), o epicentro de um novo capítulo do conflito entre o governo do presidente Javier Milei e o movimento trabalhista. Mobilizada pela Confederação Geral do Trabalho (CGT), a maior central sindical do país, uma multidão ocupou as imediações da Casa Rosada para protestar contra as políticas econômicas, a reforma trabalhista e o “desmonte do Estado social”.
A Prensa Latina informa que a marcha, que começou a se concentrar ao meio-dia no cruzamento das icônicas avenidas 9 de Julio e De Mayo, teve seu pontapé inicial por volta das 15h. Organizações sociais, partidos da oposição e dirigentes históricos do peronismo se uniram aos sindicatos, num ato que os organizadores estimaram como um dos maiores desde a posse de Milei, em dezembro de 2023.
“O país está parando”
Sob uma forte operação de segurança, os manifestantes carregavam faixas com os dizeres “A pátria não se vende”, “Contra o ajuste” e “Milei, entreguista”. A principal reivindicação unificada foi a rejeição à Lei de Reforma do Trabalho, atualmente em debate na Justiça, que a CGT classifica como uma “ferramenta de precarização”.
“Esta lei nos devolve ao século XIX. Tira direitos conquistados com sangue e lutas. Não vamos tolerar que um punhado de especuladores financeiros destrua a indústria nacional”, discursou um dos secretários-gerais da CGT, em tom inflamado, ao pé do palco montado na Praça de Maio.
A central sindical divulgou uma dura declaração na qual detalha os efeitos do modelo econômico atual:
Fechamento de empresas: Entre dezembro de 2023 e março de 2026, 24.180 estabelecimentos encerraram as portas, segundo dados do Ministério do Trabalho citados pelo sindicato.
Desemprego e informalidade: A CGT alerta para uma “escalada crescente do flagelo do desemprego” e do trabalho não registrado.
Queda da atividade econômica: Setores como Indústria, Construção e Comércio registraram retrações acentuadas, com forte impacto no consumo.
Inflação e dívida: o retrato da crise
O documento da CGT também traça um panorama social crítico. Seis em cada dez famílias argentinas estão endividadas — seja com bancos ou empréstimos informais — e a inadimplência cresce. A inflação, apesar de ter desacelerado em relação ao pico de 2024, segue pressionando: consultores independentes projetam que o índice de abril deve fechar em 4%, corroendo o poder de compra dos salários.
“Os benefícios apenas para um seleto grupo de atores ligados à atividade financeira e especulativa são privilegiados. Fala-se em ‘herança’, mas o que vemos é um plano deliberado de empobrecimento da classe trabalhadora”, acrescenta a nota.
O sistema de saúde também foi alvo de críticas. A CGT denuncia que o governo cortou financiamento de organizações de assistência social administradas por sindicatos e reduziu o Programa de Assistência Médica Integral para aposentados e pensionistas, que “já recebem quantias irrisórias e agora enfrentam falta de médicos, demoras e desabastecimento de remédios”
Homenagem a Francisco
Em meio às consignas políticas, a marcha também reservou um momento de recolhimento. Os manifestantes prestaram uma homenagem ao Papa Francisco, a poucos dias de se completar o primeiro aniversário de sua morte. O sumo pontífice argentino foi lembrado como uma “voz profética contra o neoliberalismo selvagem”.


