2025 foi um ano de travessias; 2026 será um ano de afirmação!
'Se 2025 foi o ano em que resistimos sem garantias, 2026 pode - e deve - ser o ano em que ousamos mais. O futuro não está dado', escreve a colunista Sara York
Se 2025 pudesse ser descrito por uma palavra, ela seria superação - não no sentido ingênuo da vitória fácil, mas na acepção mais assertiva do termo: a capacidade coletiva de sustentar conflitos, elaborar tensões e não ceder ao colapso democrático diante do cansaço, da desigualdade e da memória recorrente do autoritarismo.
Foi um ano em que o Brasil viveu sob intensa disputa simbólica e material. As eleições para o Senado e a Câmara reacenderam debates sobre representação, alianças e a fragilidade do pacto democrático quando interesses privados tentam capturar o espaço público. A reforma ministerial revelou, mais uma vez, que governar no Brasil é negociar permanentemente com forças que nem sempre compartilham o compromisso com justiça social ou igualdade de gênero. Ainda assim, houve algo novo: uma vigilância social mais atenta, especialmente protagonizada por mulheres, movimentos negros, indígenas, LGBTIs e periféricos, que não aceitaram mais o "acordo por cima" como destino inevitável.
No campo da política fiscal, 2025 foi marcado por um embate decisivo: conter a inflação sem sacrificar ainda mais quem sempre pagou a conta, o trabalhador. A discussão sobre equilíbrio das contas públicas deixou de ser apenas técnica e passou a ser ética. Estive nos principais eventos nacionais e a frase que mais ouvi dos principais intelectuais foi: A principal questão brasileira é política, porque estamos em travessia na ética. Afinal, austeridade nunca foi neutra - ela tem gênero, raça e território - quiçá fosse apenas físico de atleta. Mulheres, sobretudo as mais pobres, sentiram de forma aguda os efeitos de cada corte, de cada adiamento, de cada política pensada sem elas.
Os inquéritos envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro também funcionaram como um espelho incômodo da nossa história recente. Para além de responsabilizar um indivíduo, foi e ainda é necessário confrontar uma cultura política que naturalizou a violência, o desprezo pela ciência, o ataque às mulheres e a deslegitimação das instituições. Enfrentar esse passado em 2025 foi doloroso, mas necessário para que 2026 não seja refém do negacionismo.
Iniciar 2025 sob o signo do medo, nos Estados Unidos, enquanto eu realizava meu estágio doutoral, revelou com força como o trabalho cotidiano pode potencializar intenções concretas de enfrentamento às desigualdades. Quando podemos "sonhar livremente", tendemos menos à disputa; já quando somos capturados pela lógica da produção em massa, passamos a competir pelos mesmos produtos, espaços, serviços e acessos, naturalizando a escassez como destino.
No plano ambiental, a expectativa em torno da COP 30, marcada para Belém, colocou o Brasil sob os olhares do mundo. A Amazônia deixou de ser apenas um "tema" e se consolidou como um campo de disputa global, onde se cruzam soberania, sobrevivência e justiça climática. Nesse cenário, foram novamente as mulheres - ribeirinhas, das águas, dos campos e das florestas, indígenas, cientistas e ativistas - que sustentaram a linha de frente, lembrando que não há futuro possível sem cuidado.
Nas relações internacionais, a presidência brasileira no BRICS reposicionou o país no Sul Global. Em um mundo fragmentado, 2025 marcou o retorno do Brasil ao discurso da cooperação, da multipolaridade e da solidariedade internacional, ainda que atravessado por profundas contradições internas - aliás, são essas contradições em todos os setores que têm fortalecido aqueles que ainda aderem às polarizações.
Tudo isso ocorreu sob o pano de fundo persistente da desigualdade social e da insegurança pública - dois problemas estruturais que não se resolvem com discursos punitivistas nem com promessas vazias, mas com políticas de longo prazo, investimento social e, sobretudo, com o reconhecimento de que vidas (sejam elas quais forem) não são descartáveis. O que se observa, no entanto, é a delegação de poderes quase autárquicos, sem tutela democrática efetiva, a forças policiais que, em nome da proteção, passam a deter também o poder de matar. Quando isso acontece, a polícia na ponta torna-se, paradoxalmente, mais forte do que o próprio governo, revelando uma crise profunda de soberania, controle institucional e pacto democrático.
É por isso que 2026 carrega uma potência rara. Não porque os problemas desapareceram - eles não desapareceram - , mas porque 2025 nos ensinou a nomeá-los com mais clareza, a recusar atalhos autoritários e a exigir responsabilidade histórica. Há algo que amadureceu no tecido social brasileiro: uma consciência crítica mais feminista, mais interseccional, mais atenta aos custos invisíveis do poder.
Brilhar em 2026 não significa negar as feridas de 2025. Significa, antes, lembrar quem mais sangrou. Em um ano marcado por ataques públicos, discursos de ódio e desresponsabilização institucional, foram sobretudo os corpos trans e os corpos historicamente excluídos - pobres, racializados, dissidentes - que estiveram na linha de frente da violência simbólica e material, muitas vezes sem qualquer cuidado, escuta ou reparação. Transformar 2025 em aprendizado político implica reconhecer essas assimetrias e agir sobre elas. Significa avançar com mais mulheres nos espaços de decisão, com mais compromisso ambiental real, com mais justiça social e com tolerância zero à violência que desumaniza e silencia.
Se 2025 foi o ano em que resistimos sem garantias, 2026 pode - e deve - ser o ano em que ousamos mais. O futuro não está dado. Mas ele começa, sempre, quando paramos de aceitar menos do que merecemos - e quando decidimos que nenhuma vida é negociável.
Lembre-se da máxima: Seja o que você deseja para 2026!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.




