A ordem e o caos, longe do equilíbrio
O que estamos assistindo não é apenas o fim da ordem mundial do pós-II Guerra Mundial e do pós- Guerra Fria
1 – Desordem e caos
O sistema internacional está vivendo uma convulsão global. Em momentos como este, de desordem e caos, alguns países sobem e outros descem na hierarquia mundial, enquanto a luta pelo poder global entre as potências que resistem e aquelas que desafiam a velha ordem em decomposição adquire enorme intensidade e grande imprevisibilidade. Ao mesmo tempo, no limite, o sistema como um todo se defende da sua própria entropia “fugindo para frente” e expandindo- se em todas as direções, até o momento em que se redesenhe o novo mapa do poder global, através de uma sucessão de guerras interconectadas.
Isto já aconteceu várias vezes através da história do sistema internacional em que vivemos, mas não há dúvida de que a desordem e o caos contemporâneos devem ser mais intensos e se prolongar por mais tempo do que no passado, porque desta vez, o epicentro da convulsão mundial envolve o deslocamento e o ocaso da “hegemonia civilizatória” da Europa. A mesma Europa onde se formou o sistema interestatal, e que comandou o processo de “universalização” desse sistema nos últimos 800 anos. A expansão desse sistema deverá seguir depois da convulsão atual, mas não há nenhum determinismo ou teleologia que nos permita prever seu “destino final” ou mesmo seu futuro imediato.
Só sabemos que o sistema interestatal obedece à lei implacável da “expansão do poder”, e que a tecnologia, as armas, o dinheiro e as ideias sempre estiveram a serviço dessa busca incansável dos europeus, e talvez, de todos os tempos e de todos os povos. Assim mesmo, é possível mapear algumas recorrências desse verdadeiro “universo em expansão”.
2 – Primeiros passos dentro da Europa
A partir do momento em que o “sistema interestatal” deu seus primeiros passos dentro da Europa, nos séculos XIII e XIV, ele cresceu de forma contínua até se transformar num sistema global. E essa expansão não foi um produto natural do crescimento dos “mercados” e do comércio, ou mesmo da “acumulação do capital”. Ela foi uma obra violenta do poder conquistador dos primeiros poderes territoriais que definiram suas fronteiras internas dentro da Europa, quase ao mesmo tempo em que se expandiam para fora do Velho Continente, transformando-se, a um só tempo, em Estados nacionais e impérios coloniais.
Até o fim do século XVIII, o “sistema interestatal” era formado apenas por esses Estados europeus e seus impérios coloniais. Mas no século XIX, o sistema alargou-se para fora da Europa, com a independência de suas colônias americanas, e no século XX ele se “globalizou” depois da independência das colônias europeias da África e da Ásia, atingindo sua máxima extensão depois da completa inclusão da China nas últimas décadas do século passado.
3 – Poderes territoriais europeus
É possível identificar duas características que ajudam a compreender melhor a força vitoriosa desses poderes territoriais europeus:
I) a forma como seu poder político delimitou e se articulou com seus “mercados locais”, criando uma força poderosa com enorme capacidade de acumulação de poder e riqueza, através das sucessivas guerras de conquista que estiveram na origem dos primeiros “Estados- economias nacionais”, e do seu novo modo de produção capitalista;
II) a maneira como esses primeiros poderes territoriais, e logo em seguida, esses primeiros “Estados- economias nacionais” nasceram, em conjunto, e numa situação de permanente competição e guerra entre si e com outros poderes territoriais de fora da Europa. Sem essa competição permanente, essas potências teriam perdido sua força, e o mais provável é que o sistema como um todo tivesse colapsado. Por isso, até hoje, mesmo as “grandes potências hegemônicas” dentro desse sistema interestatal precisam se expandir de forma contínua, para poder manter sua posição relativa dentro da hierarquia internacional e barrar o aparecimento de concorrentes em qualquer espaço do sistema.
4 – Sucessivas explosões expansivas
Através dos séculos, a história desse sistema interestatal foi sendo construída através de sucessivas “explosões expansivas” que foram alargando as fronteiras e modificando a ordenação hierárquica do sistema. São grandes períodos que demarcam o avanço do sistema através da história. E em cada um desses períodos se pode observar um primeiro “momento” (que pode durar até um século ou mais), uma espécie de “condensação de energia”, seguida de uma grande “explosão expansiva”. No momento de “condensação”, aumenta e se universaliza a “pressão competitiva” entre as unidades de poder territorial, e logo em seguida, num segundo momento que em geral tem uma duração menor, o sistema “explode” e se expande em todas as direções, numa velocidade cada vez maior, ampliando suas fronteiras e multiplicando o poder de suas unidades mais competitivas.
5 – Sistema Europeu
A primeira dessas “grandes explosões expansivas” ocorreu durante o “longo século XIII” (entre 1150 e 1350, mais ou menos) e deu origem ao próprio “sistema europeu” de guerras, tributos, moedas e trocas, que culminou com a formação do “sistema interestatal”. Naqueles dois séculos, a expansão “para fora” de um verdadeiro “mosaico” de unidades soberanas e competitivas foi liderado pela Igreja e pelos chefes dos principais feudos e reinos que participaram das Cruzadas contra os islâmicos na Palestina e na Península Ibérica; contra os ortodoxos, na Rússia; e contra a heresia dos povos nórdicos que haviam invadido a território europeu nos séculos anteriores. Da mesma forma, no “longo século XVI” (entre 1450 e 1650, mais ou menos) ocorreu uma segunda grande “condensação de energia”, seguida da “explosão expansiva” da Europa, liderada pelos povos ibéricos e seu “descobrimento” do Novo Mundo. E o mesmo voltou a ocorrer, pela terceira vez, no “longo século XIX” – entre 1750 e 1950, mais ou menos –, quando a “pressão competitiva” europeia desembocou na chamada “era do imperialismo” e da conquista colonial da África e da Ásia.
6 – Da unipolaridade norte-americana à entrada da China
E agora de novo, desde as décadas de 70 e 80 do século XX, o mundo vem atravessando uma quarta grande “explosão expansiva” que começou com o fim dos impérios coloniais europeus e a multiplicação do número de Estados nacionais do sistema mundial, que eram cerca de 60 em 1960, e hoje são em torno de 200. Essa “condensação energética” cresceu durante o período da unipolaridade norte-americana, depois do fim da Guerra Fria, e alcançou dimensões ciclópicas com a plena incorporação da China ao sistema interestatal. Uma China que controla individualmente cerca de 20% da população mundial e possui um território que se iguala ao da velha Europa, com seus inúmeros pequenos Estados nacionais.
7 – Explosão sistêmica e o caos mundial
O aumento do número de Estados e a incorporação da China junto com a globalização do poder imperial norte-americano produziram a “condensação energética” que desembocou na “explosão sistêmica” a que estamos assistindo. A desordem e o caos que o mundo está vivendo são parte dessa explosão que deverá prolongar-se – muito provavelmente – por toda a segunda metade do século XXI. A nova expansão do sistema interestatal aponta para a conquista do espaço sideral e do fundo dos oceanos, e para a manipulação genética da espécie humana, e o controle à distância da mente humana. Por trás desse caos, desenvolve-se uma luta à morte entre as potências ascendentes e as que resistem a retirar-se do epicentro do poder mundial, em particular a Europa, neste caso. Trata-se de uma luta que não respeita regras e atropela todo tipo de normas e instituições preestabelecidas. Mas o tempo da resistência das velhas forças dominantes pode ser muito longo – deverá ser muito longo.
8 – Do caos à reconfiguração do poder global
Depois disso, qual será a distribuição e a reconfiguração do poder global? Impossível saber ou adivinhar. Só sabemos que o sistema seguirá se expandindo, movido pela mesma energia que o moveu até hoje: a energia produzida pela luta entre as grandes potências pela conquista e monopolização do poder global. No caminho que leva a esse futuro, entretanto, existe a imprevisibilidade das “bifurcações estruturais” das grandes massas, e das “decisões conjunturais” dos grandes conquistadores e dos grandes predadores, individuais e coletivos, que caminham na frente dos povos. E existe também a capacidade de resistência e luta assimétrica contra a dominação e a favor da igualdade e da paz entre os povos.
9 – O fim da hegemonia ética e cultural do “universalismo europeu”
Assim mesmo, uma coisa parece certa nesta terceira década do Século XXI: o que estamos assistindo não é apenas o fim da ordem mundial do pós-II Guerra Mundial e do pós- Guerra Fria. É o fim da hegemonia ética e cultural do “universalismo europeu”, que foi até hoje o verdadeiro “software” do sistema interestatal que nasceu na própria Europa, e se universalizou no Século XX. Por isso o estrondo que estamos escutando é tão forte e assustador!
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



