União Europeia avalia suspender acordo comercial com EUA após ameaças de Trump
Parlamentares europeus reagem a anúncio de tarifas ligado à Groenlândia
247 - Parlamentares da União Europeia (UE) avaliam suspender a aprovação do acordo comercial entre o bloco e os Estados Unidos após ameaças do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor tarifas a países que apoiaram a Groenlândia. As declarações e movimentações políticas ocorreram neste sábado (17), em meio à reação europeia às falas do mandatário dos EUA. As informações são do jornal O Globo.
Segundo posicionamento divulgado por líderes do Parlamento Europeu, o cenário tornou inviável, neste momento, a ratificação do acordo. O presidente do Partido Popular da Europa (PPE), Manfred Weber, afirmou que o tratado não pode avançar diante das declarações de Trump sobre a Groenlândia.
PPE defende suspensão da aprovação
"O PPE é a favor do acordo comercial UE-EUA, mas, dadas as ameaças de Donald Trump em relação à Groenlândia, a aprovação não é possível nesta fase", escreveu Weber em publicação nas redes sociais. Ele acrescentou que o acordo para reduzir tarifas sobre "produtos americanos deve ser suspenso".
O acordo comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos foi firmado no verão passado pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e por Trump. Parte das medidas já entrou em vigor, mas o texto ainda depende da aprovação do Parlamento Europeu. Caso os representantes do PPE se alinhem a partidos de esquerda, há possibilidade de votos suficientes para atrasar ou bloquear a ratificação.
Termos do acordo e críticas anteriores
Pelos termos acertados, os Estados Unidos aplicariam uma tarifa de 15% sobre a maioria dos produtos europeus, enquanto a União Europeia se comprometeria a eliminar tarifas sobre produtos industriais estadunidenses e alguns itens agrícolas. Von der Leyen conduziu as negociações com o objetivo de evitar uma escalada comercial entre as partes.
Críticas ao acordo, no entanto, já vinham sendo feitas por parlamentares europeus, que apontavam desequilíbrio em favor dos Estados Unidos. A insatisfação aumentou após o governo estadunidense ampliar uma tarifa de 50% sobre aço e alumínio para centenas de outros produtos europeus, mesmo depois do acordo firmado em julho.
No mês passado, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, acusou a União Europeia de descumprir pontos do acordo, especialmente no que se refere à regulação de empresas de tecnologia pelo bloco.
Trump anuncia novas tarifas
No sábado, Trump anunciou que pretende impor uma tarifa de 10%, a partir de 1º de fevereiro, sobre produtos de países europeus que demonstraram apoio à Groenlândia. O presidente afirmou ainda que as tarifas poderão subir para 25% caso não seja alcançado "um acordo para a compra completa e total da Groenlândia".
As declarações provocaram reação imediata de líderes europeus. Em comunicado, Ursula von der Leyen afirmou que "as tarifas prejudicariam as relações transatlânticas e poderiam levar a uma espiral descendente perigosa". O presidente da França, Emmanuel Macron, classificou as ameaças como "inaceitáveis".
Parlamento Europeu debate uso de instrumento anticoerção
Diante do novo cenário, a aprovação do acordo comercial tornou-se ainda mais complexa. O presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, afirmou que "é evidente que a soberania nacional de qualquer país precisa ser respeitada por todos os parceiros do acordo comercial".
Após o anúncio de Trump, Lange também defendeu nas redes sociais a suspensão do trabalho de implementação do acordo até que as ameaças cessem. Ele pediu que a União Europeia considere o uso do instrumento anticoerção (ACI), o mecanismo mais robusto do bloco para responder a pressões comerciais externas.
O ACI foi concebido como ferramenta de dissuasão e resposta a ações coercitivas de países terceiros que utilizem medidas comerciais para influenciar decisões políticas da União Europeia ou de seus Estados-membros. Entre as possíveis medidas estão tarifas, novos impostos sobre empresas de tecnologia e restrições a investimentos.
Mobilização política para congelar acordo
O Parlamento Europeu permanece em compasso de espera. A comissão de comércio se reuniu na quarta-feira para uma discussão inicial sobre a possibilidade de vincular a soberania da Groenlândia ao acordo comercial com os Estados Unidos e decidiu retomar o debate na próxima semana.
O eurodeputado dinamarquês Per Clausen, do partido A Esquerda, reuniu 30 assinaturas em uma carta enviada aos líderes do Parlamento pedindo o congelamento do acordo enquanto persistirem as reivindicações e ameaças relacionadas à Groenlândia.
"Seria extremamente estranho se celebrássemos um acordo com os EUA agora", afirmou Clausen em entrevista. "Isso seria um sinal claro de que, da parte da UE, estamos preparados para usar os instrumentos que temos em relação aos EUA, caso eles continuem com sua agressão."

