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Renata Medeiros

Mestre em Ciência Política. Advogada

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Analisando o racismo de Trump

Nos Estados Unidos, o trumpismo se alimenta da mesma lógica presente no Brasil de "democracia racial"

Donald Trump (Foto: Reuters/Daniel Torok)

A psicanalista brasileira Izildinha Nogueira Batista mostrou como o racismo no Brasil não é apenas social ou institucional, mas estrutural e inconsciente. Ele organiza afetos, silêncios e lugares simbólicos, produzindo sujeitos isolados em sua dor e uma sociedade incapaz de nomear o próprio trauma. Esse funcionamento psíquico encontra uma correlação inquietante com a análise do totalitarismo feita por Hannah Arendt.

Ao estudar o nazismo e o stalinismo, Arendt identifica no atomismo social uma condição fundamental para o surgimento do fascismo. Atomização, para ela, não significa apenas indivíduos sozinhos, mas sujeitos desligados de vínculos políticos reais, incapazes de ação coletiva, isolados afetivamente e facilmente capturados por discursos simplificadores, autoritários e paranoicos.

É justamente aí que o racismo estrutural opera como tecnologia de atomização. Ao transformar o sofrimento racial em problema individual — e não estrutural — a sociedade fragmenta a experiência, silencia conflitos e impede a construção de solidariedade política. O mito da democracia racial, nesse sentido, não pacifica: ele despolitiza. Cada um sofre sozinho, enquanto o sistema permanece intacto.

Esse mecanismo não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, o trumpismo se alimenta da mesma lógica. Donald Trump não cria o ressentimento; ele o organiza. O racismo, a xenofobia e o medo são convertidos em identidade política para sujeitos já atomizados, desconectados de projetos coletivos e profundamente ressentidos com a perda simbólica de privilégios.

Como Arendt alertou, o terreno do fascismo não é o excesso de política, mas sua ausência. Onde não há vínculos, memória histórica ou elaboração do conflito, prosperam líderes que prometem pertencimento imediato, inimigos claros e soluções autoritárias. O “outro” — negro, imigrante, estrangeiro — torna-se o eixo organizador de uma falsa coesão social.

A articulação entre Izildinha e Arendt revela algo fundamental: o racismo não apenas exclui; ele atomiza. E uma sociedade atomizada é o solo ideal para o autoritarismo. Trump é sintoma, não exceção. Ele encarna uma lógica que se repete sempre que o sofrimento é individualizado, o conflito é negado e o silêncio substitui a política.

Romper esse ciclo exige mais do que derrotar líderes autoritários nas urnas. Exige desmontar os dispositivos simbólicos que produzem isolamento, negar o pacto de silêncio e reconstruir o espaço comum da palavra, do conflito e da ação coletiva. Sem isso, o fascismo não precisa se impor pela força — ele simplesmente encontra a casa pronta.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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