Trump, a Groenlândia e a bagunça no tabuleiro da geopolítica
Trump não criou esse cenário. Mas ele o escancarou
Donald Trump nunca escondeu sua fome de poder. O problema é que, quando essa fome se manifesta, o tabuleiro da geopolítica costuma virar bagunça — peças caem no chão, regras são ignoradas e o jogo vira outra coisa. Às vezes, um reality show. Outras, um risco global.
Quando Trump sugeriu, sem nenhum constrangimento, a ideia de comprar a Groenlândia, muita gente riu. Parecia piada. Uma excentricidade típica de um bilionário acostumado a resolver tudo com cheque. Mas o riso passou rápido. Porque, por trás do comentário aparentemente absurdo, havia um raciocínio geopolítico bastante clássico — e nada inocente.
Ilhas sempre fascinaram impérios. No caso das grandes ilhas do Atlântico Norte, como a Groenlândia, elas funcionam como sentinelas avançadas: estão ali para observar, conter e, se necessário, bloquear movimentos vindos do outro lado do mundo. Hoje, esse “outro lado” atende por dois nomes principais: China e Rússia.
Com o degelo do Ártico, o que antes era um deserto branco virou promessa de novas rotas comerciais, corredores militares e exploração de recursos estratégicos. Em bom português: mais caminhos, mais dinheiro e mais poder. Quem controla essas áreas controla fluxos. Quem controla fluxos dita regras. Simples assim.
Trump entendeu isso. Do jeito dele, claro. Sem diplomacia, sem filtro e sem paciência para o verniz civilizado da política internacional. Onde outros presidentes falariam em “parcerias estratégicas” ou “cooperação multilateral”, Trump fala em posse, controle e vantagem imediata. Ele não joga xadrez; joga banco imobiliário — e quer comprar todas as propriedades antes que alguém chegue primeiro.
Enquanto isso, a China avança com calma. Não com tanques, mas com contratos, investimentos e portos. Está presente na América do Sul, no Caribe, rondando áreas sensíveis como o Canal do Panamá e fazendo negócios onde Washington costumava mandar sozinho. Nada de bandeiras ou discursos inflamados. Apenas presença. E isso, para os Estados Unidos, é talvez mais ameaçador do que qualquer provocação militar.
Some-se a isso a guerra na Ucrânia, cujo desfecho muitos em Washington veem como uma derrota estratégica do Ocidente. Não importa aqui quem venceu no campo de batalha. Importa a sensação de perda de controle. Quando um império sente que já não dita o ritmo do jogo, ele tende a olhar para perto, reforçar fronteiras e proteger o que considera seu “quintal”.
É aí que entram o Grande Caribe, o Ártico, as ilhas do Atlântico Norte e do Pacífico. Não como curiosidades geográficas, mas como peças-chave desse rearranjo defensivo. Uma espécie de zona tampão emocional e estratégica para um país que, pela primeira vez em muito tempo, percebe que talvez não seja mais o único dono do tabuleiro.
Trump não criou esse cenário. Mas ele o escancarou. Com frases grosseiras, gestos impulsivos e uma franqueza quase infantil, expôs algo que sempre esteve ali: a disposição permanente dos Estados Unidos de intervir, controlar e moldar o espaço ao seu redor sempre que se sentem ameaçados.
O problema é que, quando se joga com fome demais, derruba-se o tabuleiro. E a bagunça que sobra raramente afeta apenas quem fez o movimento.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



